Numa daquelas manhãs sossegadas em que o mundo parece parar, coberto por um manto de neve fresca, pr…

Foi numa daquelas manhãs tranquilas em que o mundo parece suspenso, embrulhado num manto de nevoeiro fresco a condizer com o inverno lisboeta. Mal tinha posto o pé fora de casa, pronto para enfrentar a azáfama de limpar a calçada, quando surge algo fora do comum. Um carro encosta ao fundo da rua e percebo que era o carteiroo senhor António, aquele simpático que todos os dias me traz boas e más notícias em envelopes.

Ora, o senhor António é daqueles de sorriso fácil e sempre um bom dia na ponta da língua, mas naquele dia, surpreendeu-me. Em vez de se limitar a entregar as cartas e encomendas (umas mais desejadas que outras, confesso), ele estaciona a carrinha dos CTT, salta cá para fora e, sem mais, começa a desimpedir precisamente a parte da minha calçada onde o monte de granizo era mais dramático. Eu, espreitando atrás da cortina, fiquei sem palavras.

Quando finalmente decidi aventurar-me porta fora para agradecer, o senhor António virou-se e sorriu daquele jeito muito dele. Ora essa, não se preocupe, disse, num tom bem desprendido. Assim sempre lhe poupo uns minutos. E ainda rematou com um piscar de olho, São os pequenos gestos, sabe?

E lá seguiu ele, a saltitar para dentro da carrinha e a continuar estrada fora.

Fiquei plantado, com a pá na mão e o ar de quem apanhou uma surpresa no Natal. Não foi um gesto de herói do bairro, sem holofotes nem palminhas. Simplesmente um ato pequenino de bondade. Mas, para mim, valeu por mil. Eu não pedi ajuda, ele não estava obrigado, e fez-se.

Foi aí que me caiu a ficha: é fácil perdermo-nos no rebuliço do quotidiano, sempre a correr atrás das grandes coisas, e esquecermo-nos que são mesmo os pequenos gestosdaqueles que podem parecer pouco ao mundoque ficam connosco no coração. O senhor António não esperava medalhas, nem likes no Facebook. Fez porque sim, porque achou que era correto. E lembrou-me que a gentileza, por mais mínima que seja, é sempre bem-vinda.

Dei por mim a pensar quantas vezes ando tão focado nas minhas tarefas que deixo escapar oportunidades de ajudar os outros. Aquela manhã de calçada inspirou-me a estar mais atento ao que posso fazer para aliviar o dia de alguém, mesmo que seja só um bocadinho.

Nessa tarde, tratei do resto da calçada com um sorriso de orelha a orelha. O frio já não parecia tão cortante e Lisboa ganhou um brilho diferente. E desde esse dia, prometi a mim mesmo que ia procurar estas oportunidades de fazer a diferençaporque se o senhor António podia, porque raio não podia eu?

Fica assim o brinde aos pequenos gestos, aqueles que nunca vão parar às manchetes mas tornam os dias bem mais leves. Porque, às vezes, são mesmo as pequenas coisas que mudam tudo. No dia seguinte, tomei coragem e preparei uma dúzia de pastéis de nata receita da minha avó, daquelas que têm o dom de arrancar sorriso até ao mais sisudo dos vizinhos. Fui cedo esperar o carteiro, junto ao portão, com a bandeja coberta de pano florido. Quando o senhor António virou a esquina e viu-me ali de pé, franziu o sobrolho, desconfiado e curioso.

Hoje quem entrega é você, hã? gracejou.

Estendi-lhe um pastel ainda morno e vi os seus olhos brilharem, e naquele instante compreendi: a gentileza é contagiosa, espalha-se como o cheiro de café acabado de fazer numa manhã gelada. Ficámos os dois a rir, partilhando histórias enquanto mastigávamos aquela doçura caseira, e pensei que talvez fosse assim que se vai construindo uma cidade melhor de gesto em gesto, de pessoa em pessoa.

E à medida que o nevoeiro ia abrindo caminho ao sol, reparei que a rua parecia mais luminosa. Talvez não fosse Lisboa que tinha mudado talvez fosse só eu, ao descobrir que ser gentil, afinal, é a maior surpresa que podemos dar (e receber) num simples dia qualquer.

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Ao ver quem o marido trouxe desta vez, a esposa riu tanto que três gatinhos, assustados com o barulho, correram e esconderam-se atrás das suas pernas.