Boa tarde, minha senhora, diga-me por favor, o que tem de mais barato aí? — perguntava a velhinha se…

Bom dia, minha senhora, diga-me lá, o que tem de mais barato? perguntava Dona Otília cada vez que entrava no talho de bairro.

Todas as semanas, à mesma hora, a porta do talho abria-se para deixar passar uma velhinha de figura pequena, costas vergadas pelo peso dos anos e da vida.

Nunca pedia nada de especial.
Não se queixava.
Nunca fazia alvoroço.
Parava apenas em frente à montra cheia de carne e ficava a olhar, demoradamente, como se os olhos dela contassem não pedaços de carne, mas sonhos por realizar.

Depois tirava da carteira.
Uma carteira velha, já gasta, cantos amachucados de tantas preocupações.
Abri-a devagar e todas as vezes espreitava lá dentro, com a mesma tristeza resignada.
A tristeza de quem já não espera milagres, apenas torce para que chegue para mais um dia.

E dizia baixinho, quase envergonhada:
Tem aí qualquer coisinha mais em conta?

O senhor José, o talhante, já a conhecia de ginjeira.
Sabia que não pedia lombo, não pedia costeleta, não procurava o melhor do dia.
Comprava sempre do que ficava, o mais barato: ossos de frango, cartilagens, restos.

E todas as vezes, quando juntava a saca para lhe passar para o outro lado do balcão, apertava-lhe no peito uma coisa difícil de explicar.
Porque não era só pobreza
Era dignidade.

Dona Otília não pedia esmola.
Dona Otília pagava.
Mesmo que isso significasse sair dali com quase nada.

Num desses dias, o senhor José viu-a a sair e, sem saber bem porquê, seguiu-a discretamente com o olhar.
Não foi para casa.
Foi para um beco, atrás dos prédios, onde poucos passam e quase ninguém repara.
Ali, parou ao pé de uma caixa de cartão humedecida, encostada a um portão.
Ajoelhou-se com esforço, os joelhos a doerem-lhe de tantos anos
E tirou os ossos da saca.
Dispôs-nos no chão com uma delicadeza estranha, quase como quem deixa flores numa sepultura.

E foi então que apareceram elas
Três gatas.
Magras. Famintas. Tremulas.
Esquecidas por todos.

Começaram logo, à pressa, a comer.
E Dona Otília afagava-as com o olhar, sorria-lhes de leve, um sorriso pequeno, triste e tão bonito.
Comam, minhas meninas comam que eu sei o que é não ter nada

O talhante ficou parado, quase sem respirar.
Na sua cabeça, Dona Otília era uma mulher que mal conseguia sobreviver
Mas ali à sua frente via alguém que, tendo pouco, ainda encontrava espaço no coração para os outros.
Alguém que não tinha suficiente para ela própria mas conseguia arranjar para umas almas esquecidas.

Nessa tarde, o senhor José foi saber aos vizinhos.
E descobriu.
Dona Otília, afinal, não estava só embora parecesse.
Em casa, esperava por ela um menino.
O neto.
Sete anos feitos, órfão de pais.

É ela que o cria, contaram-lhe.
Sozinha.
Com uma reforma pequena.
Compra-lhe cadernos antes sequer de comprar os remédios que lhe faziam falta.
Põe-lhe o melhor prato na mesa e ela consola-se com pão e chá.

E então o talhante entendeu.
Dona Otília não comprava ossos porque gostava.
Comprava ossos porque não podia pagar outra coisa.
E, mesmo assim
Conseguia dar o pouco que tinha.

No dia seguinte, Dona Otília voltou.
Parou em frente à montra.
Tirou a carteira do bolso.
E olhou para ela do mesmo jeito triste e resignado.
O senhor José reparou bem nela.
As mãos gretadas.
As unhas cortadas rente.
O casaco velho.
E aqueles olhos que já só pedem à vida o suficiente para aguentar.

Antes que ela tivesse tempo de pedir alguma coisa mais barata, o talhante disse-lhe:
Minha senhora hoje não paga nada.

Dona Otília assustou-se.
Como assim?
Hoje é oferta.

E começou a encher um saco com boa carne.
Perna, peito, alguns pedaços bonitos.
Dona Otília levantou as mãos, trémulas.
Mas eu não tenho como pagar
O senhor José abanou a cabeça.

Eu sei. É precisamente por isso.

Depois aproximou-se e sussurrou, para que não ouvissem os outros clientes:
Ontem vi-a com as gatas.

Dona Otília ficou gelada.
Os olhos encheram-se de lágrimas, como se lhe rebentasse o coração.

Eu só lhes dou de comer fazem-me pena não têm ninguém por elas

O talhante cerrou os dentes para não se deixar abalar:
E a senhora, tem quem olhe por si?

Dona Otília acenou devagar.
Tenho o meu neto.

Só isto disse.
Mas dentro daquele tenho o meu neto, cabia uma vida inteira.
Uma história de sacrifícios.
Noites sem dormir.
Medo do que é amanhã.
E um amor maior que tudo.

O talhante empurrou-lhe o saco pelo balcão.
Leve. Para o menino.

Dona Otília começou a chorar.
Calada.
Chorava de modo discreto, lágrimas que caíam por tudo o que nunca dissera.

Mas por que faz isto?

O talhante respondeu simples, como adulto verdadeiro:
Porque a senhora, não tendo nada, dá sempre o melhor.

E sabe o que é mais duro?
Que as pessoas melhores são as que mais sofrem.

Dona Otília apertou o saco ao peito, como um tesouro.
E murmurou:
Não tenho muito mas tenho alma.
Se posso dar, eu dou

O senhor José olhou-a, com a vista quase turva.
Naquele dia, não se vendeu só carne.
Vendeu-se humanidade.
Distribuiu-se esperança.

Talvez o mundo não se mude por discursos
Mas muda-se com pequenas escolhas.
Com um gesto singelo.
Com um saco a mais.
Com um coração que diz:
Nunca estás só.
Se leste até aqui, por favor: não ignores a bondade. Hoje pode ser ela amanhã pode ser a tua mãe.
Se leste até ao fim faz uma pausa e deixa um para esta avó e um Que Deus ajude para todos os que carregam a vida em silêncio.

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