— Avô, olha! — exclamou a Lília, colando o nariz à janela. — Um cãozinho! Atrás do portão, andava i…

Avô, olha! exclamou Mariana, colando o nariz na janela. Um cãozinho!

Do outro lado do portão, vagueava um rafeiro. Negro, sujo, de costelas à mostra.

Outra vez esse bicho resmungou António Duarte, calçando as botas de borracha. Já anda por aqui há três dias. Vai-te embora daqui, anda, rua!

Levantou o bastão no ar. O cão recuou, mas não fugiu de todo. Sentou-se a uns cinco passos e ficou ali; apenas observava.

Avô, não lhe faças mal! Mariana agarrou-se-lhe à manga. Ele deve estar com fome… está gelado!

Já tenho preocupações que chegue! afastou-se o velho. Ainda nos pega uma doença qualquer pulgas, sarna, essas coisas. Fora, vai-te!

O cãozinho, de rabo entre as pernas, retirou-se devagar. Mas, assim que António Duarte fechou a porta, voltou de mansinho…

Mariana já vivia com o avô há meio ano, desde que os pais tinham partido num acidente de automóvel. António trouxe a neta para o casarão na aldeia de Beirados, embora nunca tivesse tido muita mão para crianças. Sempre gostara do seu sossego e da sua rotina.

E agora, aquela menina, que chorava à noite e perguntava sempre: Avô, quando é que a mãe e o pai voltam?

Como explicar que nunca voltariam? O velho limitava-se a suspirar fundo e olhar pela janela. Custa-lhes aos dois, mas não havia alternativa.

Depois do almoço, enquanto o avô roncava diante da televisão, Mariana saiu sem se fazer notar. Levava uma tacinha com restos de canja.

Anda cá, Pretinha chamava em voz baixa Foi assim que te chamei, gostas? É bonito, não é?

O rafeiro aproximava-se muito devagar. Lambeu a taça até brilhar, e depois deitou-se, apoiando o focinho nas patas. E olhava, daqueles olhos enormes: com gratidão.

És tão boa afagou-a Mariana mesmo muito boa.

Desde aquele dia, Pretinha nunca mais se afastou. Ficava junto ao portão, acompanhava Mariana à escola, esperava por ela ao regresso. E quando António Duarte cruzava o quintal, ouvia-se alto:

Ainda aqui estás? Já chega!

Mas Pretinha aprendera depressa: aquele senhor resmungava, mas não era mau.

O vizinho, Manuel Ferreira, espreitava sempre do outro lado da sebe. E um dia comentou:

António, devias deixar o bicho estar.

Para quê? Um cão só me traz chatices!

Olha lá, e se foi Deus quem ta pôs à porta?

O velho só bufou…

Passou-se uma semana. Pretinha, chovesse ou ventasse, ficava sempre de guarda junto ao portão.

Mariana continuava a levar-lhe, às escondidas, restos de comida. António Duarte fingia que nada via.

Avô, posso deixar a Pretinha dormir na varanda? pedia Mariana ao jantar. Fica mais quente…

Não, e não! berrou ele, batendo na mesa. Não quero bichos cá em casa!

Mas avô…

Nem mas nem meio mas! Chega de teimosias!

Mariana calou-se, amuada. Nessa noite, António Duarte custou a adormecer. Ao amanhecer, espreitou pela janela.

Pretinha dormia enrolada na neve, mesmo ao portão. Qualquer dia sucumbe aqui…, pensou António, e ficou-lhe um peso no peito.

No sábado, Mariana foi ao lago gelado, patinar. Pretinha seguia-a, como sempre. Mariana ria-se, dava voltas e voltas, o cão sentado à sombra das canas, atento.

Avô, vê como sou rápida! gritou, patinando até ao meio.

O gelo gemeu. Depois, estalou. Mariana caiu na água escura, gelada.

Afundava-se, debatia-se, gritava. Mas os salpicos abafavam a voz. Pretinha ficou imóvel um instante. Correu então, disparada para casa.

António Duarte estava a partir lenha. Ouvia-se ladrar quase gritar. A cadela corria como doida, puxava-lhe a calça, empurrava-o para o portão.

Estás maluca, ou quê?

Mas Pretinha não desistia. Uivava, mordia, os olhos cheios de angústia. De repente António entendeu.

Mariana! gritou, correndo atrás do animal.

Pretinha ia à frente, voltava para trás, certificava-se de que o humano a seguia. Até chegarem ao lago.

Lá ao fundo, uma mancha escura, pequenas ondas.

Aguenta, pequena! António Duarte arremessou um varapau. Segura, filha!

Arrastou-se pelo gelo, que rangia ameaçador, mas cedeu. Agarrou Mariana pela gola, puxou-a até à margem. Pretinha sempre a rodar em volta, lata, animando-os.

Tirou-a azul de frio. António esfregava-lhe as mãos com neve, assoprava-lhe no rosto, rezou à Senhora de Fátima, prometendo-lhe tudo.

Avô… murmurou Mariana Pretinha… onde está a Pretinha?

O cão estava ali, tiritando de frio ou de susto, ninguém sabia.

Está aqui disse António, rouco aqui, contigo.

Depois desse dia tudo mudou. António já não ralhava com Pretinha. Só não a deixava entrar em casa.

Avô, porquê? insistia Mariana. Ela salvou-me!

Salvou, sim. Mas não temos lugar… resmungava ele.

Porquê, avô?

Porque sempre fiz assim! atirava, mais alto.

António zangava-se consigo mesmo, e nem sabia porquê. Por fora, parecia ter razão: Uma casa não é canil! Mas cá por dentro… sentia um aperto.

Manuel Ferreira passou, um dia, para beber chá e molhar uma broa.

Ouvi dizer do que se passou… disse, cauteloso.

Ouviste, pois rosnou António.

Cão esperto. E fiel.

Pois.

Merece ser bem tratado.

António encolheu os ombros:

Não a enxoto.

Não enxotas, não… mas a dormir ao relento, à geada?

É cão, não é? É lá fora que deve ficar.

Manuel abanou a cabeça.

És estranho, António. Salvou-te a neta! Deviam-lhe ser gratos.

Não devo nada a essa cadela! Alimentamo-la, não a batemos já é muito!

Deves ou não deves, mas olha que contas com ela na tua vida. E de pessoas se gosta, não de todos os bichos, é?

Manuel calou-se, olhos de reprovação.

Veio fevereiro rigoroso. Neves sem fim, como se o inverno quisesse mostrar quem mandava.

António mal tinha mãos a medir para abrir caminho; de manhã, tudo de novo coberto.

E Pretinha, sempre junto ao portão. Magra de doer, os olhos já sem brilho. Mas não cedia.

Avô Mariana puxava-lhe pela manga. Vê como ela está. Mal se aguenta.

Ninguém a mandou cá ficar respondia o avô, seco. A escolha foi dela.

Mas avô…

Basta! cortava ele. Já chega da tua conversa!

Mariana calava-se. À noite, quando António lia o jornal, disse baixinho:

Hoje não vi a Pretinha.

E então? grunhiu António, sem levantar os olhos.

Nem de manhã nem agora. Será que está doente?

Se calhar foi-se embora. Era o melhor.

Avô, como consegues dizer isso?

E como queres que diga? Não saiu daqui por nossa vontade! Não temos culpa dela…

Temos, sim respondeu Mariana, baixinho. Salvou-me, e nunca lhe demos um canto quente.

Já disse, não temos espaço!

Mariana fugiu para o quarto, soluçando. António ficou à mesa, mas a leitura do jornal já não lhe preenchia o serão.

Nessa noite, abateu-se uma tempestade como há muito não se via. O vento gemia na chaminé, as janelas a tremer, o nevão caía de cortar o rosto. António revirava-se na cama.

Tempo de cão, pensou. E logo se corrigiu: O que me importa? Mas importava-lhe.

De manhã, acalmada a tormenta, António levantou-se, ferveu água para o chá, espreitou pela janela. O quintal estava coberto até meio da parede, sem rasto de trilhos. Só no portão…

No portão, algo negro emergia da neve. Deve ser lixo, pensou… mas o peito apertou-lhe.

Vestiu o casacão, calçou as botas, saiu. A neve engolia-lhe as pernas. Chegou ao portão e parou.

No monte de neve jazia Pretinha: imóvel, quase coberta. Só se viam orelhas e a ponta do rabo.

Pronto, terminou aqui…, pensou António. E sentiu algo quebrar-se.

Afastou o gelo. O bicho mal respirava, gemia baixinho. Não abria os olhos.

Eh, tonta… porque não foste embora? murmurou o velho.

Ao ouvir a voz, Pretinha tremeu, tentou levantar a cabeça, mas não conseguiu.

António ficou a olhar… Ao diabo, murmurou por fim, debruçando-se. Pegou nela, leve como uma pena, só ossos e pêlo. Mas quente ainda. Viva.

Aguenta, patuda, aguenta… dizia, cavando pela neve até casa.

Entrou na varanda, depois para a cozinha. Deitou-a numa manta velha, junto ao fogão.

Avô? Mariana surgia, de pijama. Que se passa?

Nada, só estava a tremer lá fora. Vai aquecer um pouco.

Mariana ajoelhou-se junto à cadela:

Está viva? Avô, está viva?

Está, sim. Vai lá buscar leite quente, depressa.

Já vou!

António ficou a acariciar-lhe a cabeça, murmurando: Que homem sou eu, para quase a perder? Ela nunca desistiu de mim.

Pretinha abriu os olhos. Mirou-o grata, fiel. António sentiu a garganta prender-se-lhe.

O leite já está, aqui vai… Mariana pôs a tigela à frente da cadela.

Pretinha, com esforço, bebeu. Primeiro um gole, depois outro. O avô e a neta ficaram ali, em silêncio, a ver e a sorrir como se presenciassem um milagre.

Ao almoço já a cadela se sentava sozinha, ao jantar arrastava-se trémula em volta da mesa. António rosnava sempre:

Isto é só enquanto recuperas! Ficas forte, voltas lá para fora!

Mariana só sorria. Já via que o avô escondia os melhores pedaços de carne para a cadela. Tapava-a melhor, acariciava-a quando achava que ninguém reparava.

Não a vai mandar embora, nunca, sabia a menina.

Na manhã seguinte, António acordou cedo. Pretinha estava deitada no tapete, junto ao fogão, olhando-o com atenção e cautela.

Já recuperaste, não foi? perguntou ele, vestiando-se.

A cadela abanou a cauda, devagarinho, como receosa.

Depois do pequeno-almoço, António pegou na casaca e saiu ao quintal. Passou pela velha casota, abandonada há dez anos.

Mariana! chamou.

A menina apareceu, com a Pretinha colada às pernas.

Olha, apontou para a casota o telhado tem buracos, as tábuas estão podres. Acho que está na hora de o arranjar.

Para quê, avô?

Está vazio, não está? É uma vergonha.

Foi buscar tábuas, martelo, pregos. Berrava às tábuas e aos pregos, dizendo pragas baixinho.

Pretinha observava. Sabia bem quem ele arranjava abrigo.

Ao almoço a nova casota parecia nova. António pôs dentro uma manta antiga, duas tigelas de barro.

Pronto, está arranjado.

Avô, é para a Pretinha? Mariana, baixinho.

E para quem havia de ser? Dentro de casa não fica, mas vai viver como deve ser como um cão a sério.

Mariana abraçou-o:

Obrigada, avô! Obrigada!

Já chega, menina, afastou-se ele não chores. E lembra-te: é só até arranjar dono para ela.

Mas ele sabia bem: nunca procuraria outro dono. Nem Pretinha queria mais ninguém.

Nessa tarde, o vizinho Manuel aproximou-se. Olhou para a casota, para o cão, para Mariana feliz. E sorriu astuto:

Estás a ver, António? Talvez Deus soubesse o que fazia…

Deixa-te disso, Manuel resmungou António. Tive pena, só isso.

Claro, claro… Homem de coração fundo, tu.

António nem respondeu. Ficou só a ver Pretinha a explorar o novo abrigo, Mariana a acariciá-la, e sentiu agora eram uma família. Estranha talvez, mas família.

Pronto, Pretinha disse ele, muito baixo esta também é tua casa agora.

O cão olhou-o com um calor nos olhos que o velho nunca esqueceu e deitou-se junto à porta da casota, vigiando o lar onde viviam os seus humanos.

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— Avô, olha! — exclamou a Lília, colando o nariz à janela. — Um cãozinho! Atrás do portão, andava i…
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