Lisboa, 16 de julho
Às vezes pergunto-me porque é que os homens acham que, só porque casaram, a mulher tem de andar sempre atrás deles. Hoje foi um desses dias em que me senti uma figurante na minha própria história. O Nuno sim, meu marido, sempre tão cheio de si andava pela casa a arrastar os pés atrás do relógio, a reclamar porque queria ir sozinho ao churrasco do Pedro em Sintra. Fica em casa, Matilde. Não preciso de te levar a todo o lado. Vai lá dar uma corrida no jardim. Olha que com o teletrabalho já notam uns pneuzinhos. Era só o que faltava!
Eu nem ouvi metade, porque andava a preparar a cesta com tudo o que é preciso para não morrer de fome num churrasco onde a Inês, mulher do Pedro, achava que frango no churrasco era banquete digno de imperador. Fiz saladas, piquei batatinhas novas, bolei um empadão de frango Ao ouvir o Nuno entrar na entrada com a sua camisa de linho branca, fiquei logo de pé atrás. Nuno, vais de branco? Nem penses que vou esfregar nódoa de vinho ou gordura! Pega nos sacos, que assim fugimos ao trânsito. Ele olhou para as sacolas e fez-se de surpreendido, quase como se não soubesse que dois adultos a ir para uma tarde de jardim não se alimentam só de bifanas do Lidl.
A meio da arrumação, saiu-lhe que ia ao churrasco sozinho. Deixa lá, Matilde. Isto hoje é coisa de amigos. Aliás, preciso de ajudar o Pedro no churrasco! Duvido que alguém faça grelhados como eu! Riu-se daquela forma vaidosa tão sua, tentando empurrar os sacos de volta para mim. Insisti, algo dentro de mim dizia que devia ir.
Pensei logo no imbróglio da casa de Campo de Ourique, que andava a ver se vendia porque os inquilinos decidiram desaparecer sem avisar, deixando uma espelunca de bradar aos céus. Com o trabalho, as chatices domésticas, não tinha tido tempo para ligar à Inês e, de repente, o Nuno larga: O Pedro divorciou-se, foi atrás de outras aventuras. Fiquei sem palavras. Não éramos íntimos, mas ninguém espera ver a tal família perfeita desmoronar assim de um dia para o outro. O pior nem foi a novidade, foi a sensação de sermos todos peças de um puzzle que já não encaixava.
Fiz beicinho e forcei o Nuno a levar-me com ele. No carro, o ambiente era denso. Ele bufava pelo trânsito da Marginal, eu trocava mensagens com a Catarina, a agente imobiliária. E então, consegues vender o apartamento? lançou o Nuno com aquele ar de quem está sempre a vigiar. Expliquei-lhe as condições dos interessados, uns queriam obras, outros não tinham dinheiro para as garantias. Sempre o mesmo dilema.
Chegámos finalmente a Sintra. Fomos recebidos pelo Pedro, agora single e com ar de adolescente tardio. T-shirt justa, calças rasgadas nos joelhos a Inês nunca deixaria! A nova paixão do Pedro estava lá: uma loira plastificada, cheia de unhas postiças, tanas de silicone, riso fácil e tagarelice de quem acha que é dona da festa.
No alpendre, o ambiente era mais barulhento do que divertido. O Nuno esforçava-se nas atenções às novas amigas, esquecendo-se completamente de mim. Ser invisível com desconhecidos é uma coisa, em casa dos amigos custa mais. Sentei-me e observei, tentando não embirrar com as pizzas frias e fast-food no prato de plástico tão diferente dos piqueniques que a Inês sempre preparava.
O Pedro apresentou-me de modo zombeteiro como a freelancer, isto é, desempregada, fazendo-me corar de vergonha. A tal nova conquista, a Andreia, era esteticista claro, agora tudo fazia sentido. Ofereceu-me cartão de descontos, como se me estivesse a fazer um favor ou, pior, a sugerir transformação urgente. Ao lado dela, a amiga, Marta, lançou charme para o Nuno descaradamente, falando sobre cortes de cabelo da moda.
Tentei manter o ar digno, mas cada sorriso delas parecia um desafio. Disse-lhes sem meias palavras que não tinha interesse no seu clubinho de piscina, nem gostava de piadas amargas encapotadas. O Pedro ainda tentou defender as amigas, dizendo que ninguém tinha más intenções. Não adiantou: o ambiente azedou.
Pedi ao Nuno para me levar para casa, mas ele foi ficando, afável, agarrado às piadas do Pedro e ao olhar quase lascivo das loiras. Na volta, o silêncio foi de chumbo. Pensei em como a nossa vida se afastou: o Nuno parecia querer a emoção do proibido, eu, paz de espírito.
Mais tarde, já em casa, liguei à Inês. Atendeu em modo furacão: “-O teu Nuno meteu aquela serpente plastificada na nossa vida! Depois de tudo, e nem me avisaste!” Chorei com ela ao telefone, convencidas ambas de que nunca conhecemos verdadeiramente quem temos ao lado.
Decidi ir para casa da minha mãe, em Almada, buscar os meus rapazes e despejar os desabafos à mesa com uma chávena de chá. A mãe, D. Graça, ouviu-me, abraçou-me e disse: Matilde, a vida é tua. Mas lembra-te que férias a solo custam a engolir quando se tem marido. Mal sabia ela que o Nuno nem dava por mim em casa!
Voltei de cabeça feita: ia de férias, sim, comigo e com os meus filhos, para o Algarve. Aproveitava o dinheiro que estava para o tal grande arranjo do apartamento e estava feito. Voltei a Lisboa, arrumei as coisas, desliguei o telefone ao Nuno e partimos.
O Nuno, claro, ficou passado. Durante uma semana andou de cara fechada, alimentando-se de comida da mãe e da raiva de ter sido ignorado. Quando voltei, o menino queria contas: Despejaste a nossa poupança! esbravejou. Nossa não, Nuno. Minha. Tu contribuíste com cinco mil euros, eu pus cinquenta. Não me venhas dar lições de matemática! Não lhe dei tréguas.
Ele exigiu a venda do apartamento, disse que tinha direito a metade do que era meu. Ri-me na cara dele toquei-lhe de volta as palavras dele, O que é meu é meu; o nosso é nosso. Não contei que já tinha posto o apartamento a render, aluguei-o à filha da vizinha em pouco tempo e a conta estava feita. Fiz questão de não lhe contar nada antes para o picar mesmo. A essa altura, não me restava qualquer vontade de salvar aquela paródia de casamento.
O Nuno, contrariado, acabou por ir para casa da mãe. Dormiu uns dias enrolado na varanda, depois à conta dela. A sogra, santa paciência, sempre a culpabilizar-me por não saber manter um homem feliz. Ele andava azedo, eu finalmente mais leve.
Quando, passado algum tempo, tentou reaproximar-se daquela Marta do churrasco, esta tratou logo de lhe cortar as pernas. Olha, Nuno, foi só conversa da tarde. Tudo de bom. E nem se dignou a responder às mensagens dele. A verdade é que estavam todos a ver onde ele ia parar menos ele próprio.
No fim disto tudo, penso na tranquilidade de ouvir o mar à noite com os meus filhos, na calma de quem finalmente percebeu que não tem de andar sempre atrás de um homem só porque casou com ele. E, sobretudo, que não devo reportar os meus passos, nem aceitar que o meu valor seja posto em causa nas piadas de mau gosto de ninguém. Não sou invisível, nem figurante. Sou, simplesmente, Matilde. E, desta vez, quero viver a minha própria história.






