Uma Manhã de Sol, Uma Floresta Misteriosa e a Baba Yaga Portuguesa: Conta de um Rapazinho Alentejano…

A mosca na janela zumbia, fina e aguda. O Gonçalo abriu os olhos. O raio de sol matinal deslizava suavemente pela almofada e pelo seu narizinho arrebitado. Sorriu e espreguiçou-se gostosamente. Debaixo dos cobertores, estava quente e acolhedor. Era preciso levantar-se, mas não lhe apetecia nada!

Mãe, chamou baixinho. E mais alto: Mãeee!

A mãe entrou no quarto, a secar as mãos ao avental.

Já acordaste? Para que é esse berreiro? Aproximou-se da cama, inclinou-se e deu-lhe um beijo carinhoso no nariz sardento.

Bom dia, meu filho! Vá, levanta-te, meu traquinas!

O Gonçalo enlaçou a mãe pelo pescoço. Ela cheirava a leite, pão fresco e algo mais, um cheiro único e reconfortante, impossível de confundir. Antes, quando viviam em Lisboa, era o pai que o acordava de manhã para o levar ao infantário. Juntos faziam ginástica, lavavam os dentes, jogavam água um ao outro e riam, enquanto a mãe ralhava e os apressava. Mas tudo mudou.

Um dia o pai não o foi buscar ao infantário, e ficou lá até tarde com o senhor do portão. A mãe apareceu já noite escura, com o rosto inchado e vermelho do choro, dizendo-lhe que o pai não voltava mais e que agora ele é que era o homem da casa. O que verdadeiramente sucedera, Gonçalo só descobriu mais tarde, ouvindo conversas de adultos: o pai morrera num acidente, conduzindo o carro de outra pessoa. Por causa dessa dívida terrível, uns senhores ficaram com o apartamento deles. Pouco depois, mãe e filho mudaram-se para o campo, para a aldeia da avó.

A aldeia era enorme. Alongava-se junto ao rio e terminava numa mata frondosa. Era lá, nos arrabaldes da floresta, que morava a avó Ana e agora Gonçalo e a mãe também. O avô não conheceu, pois tinha morrido quando ele era ainda pequenino; por isso, agora, o único homem da família era ele, claro!

A avó e a mãe trabalhavam numa quinta. Agora já sabia que uma quinta era como uma casa grande onde vivem porcos, vacas e até cavalos. A mãe mostrou-lhe todos os animais quando o levou consigo ao trabalho. Mas ele nunca achou graça àquele lugar. O cheiro, meu Deus! Ficava logo a tapar o nariz, enquanto a mãe e a avó soltavam gargalhadas

O rapaz calçou à pressa uns chinelos frios e correu, ainda em pijama, para fora da casa, para ir à casa de banho no pátio. O domingo de agosto, soalheiro, recebeu o miúdo, já de sete anos, com aquele friozinho matinal. Estremeceu. Aqui e ali cantavam galos. Ao longe, ouviam-se cães a ladrar e a ganir. A avó saiu do galinheiro contrariada:

Outra vez alguém fez buraco junto ao galinheiro Será que temos algum lobisomem por aqui?

“Está quase a chegar o outono”, pensou Gonçalo, sentindo, como gente grande, uma pontinha de tristeza e inquietação. “Que chegue depressa a escola!” O coraçãozinho dele saltou de alegria com este pensamento. Ele e a mãe, já tinham tudo preparado para o início das aulas. A mochila nova era tão gira! Aprendeu a ler durante o verão, mas a escrever… ainda era complicado!

O pequeno-almoço foi papas e filhoses.

Gonçalo, eu e a avó decidimos ir hoje procurar cogumelos. Vens connosco, ou ainda és muito pequeno? perguntou a mãe, piscando o olho à avó.

Vou claro que vou! protestou ele, de boca cheia, engolindo filhozes com leite frio.

Prepararam-se depois do meio-dia. A floresta recebeu-os fresca e verdejante, nos últimos dias de agosto. Cogumelos havia por todo o lado, mas a mãe explicava: não são todos iguais mostrava quais eram bons, e quais os venenosos. Andaram bastante. A avó afastou-se e deixaram de ouvir resposta quando a mãe gritava “ó-ó”.

O sol já se embrenhava por detrás das árvores quando a mãe disse, preocupada, que estava na hora de voltar. O cesto e o saco estavam cheios das dádivas da floresta. O balde do Gonçalo, com cogumelos, quase lhe caía das mãos mas não se queixava. Ele era um homem, afinal! Porém, onde era a saída? Parecia que se tinham perdido. A mãe ficou nervosa. Tropeçaram num pântano, num ramalhão sem saída… Voltaram atrás. O mato era áspero, o bosque parecia girar.

Chamaram a avó, mas o vento fazia sibilar as folhas dos choupos tão alto que quase nada se ouvia. A mãe sentou-se na erva, indecisa. Passaram uns minutos. Subitamente, atrás deles estalaram ramos secos. Um arbusto moveu-se e surgiu uma velhota… Era uma bruxa de verdade! A mãe saltou, assustada.

O Gonçalo gelou. A velha, curvada e toda cheia de trapos, deixou cair o molho de vides secas que trazia às costas e aproximou-se sorrindo com dentes em falta.

Então, assustaram-se? Não tenham medo, há muito que não como meninos! resmungou, piscando o olho à mãe antes de se rir com o seu riso roufenho, o nariz enorme a tremer-lhe com os tremeliques.

Perderam-se, foi? continuou, sem ligar às caras pasmadas dos dois.

De quem são, hein? Da Ana, será? perguntou ou declarou, nem se soube bem, repondo o molho teimoso às costas e desandando pelo mato fora. Deu-lhes um olhar de revesgueio, pesado, e atirou:

Ora, deixem-se de fitas, venham atrás de mim, vá.

A mãe, com Gonçalo, agarrou melhor os cogumelos e seguiu atrás da velhota. Ela abria caminho pelo mato, e logo surgiu uma clareira. Ao longe aparecia já a aldeia deles. Do outro lado do campo, despontava a avó Ana. A bruxa deu uma gargalhada rouca, acenou-lhes e lá foi, curvada debaixo do feixe de lenha.

Obrigada, murmurou a mãe, sem jeito, mas a velha afastou-se, acenando displicente, desaparecendo a passos curtos.

Chegou a avó.

Mãe, andavas onde? Ficámos perdidas, só graças à velha saímos do bosque! lamentou a mãe.

Oh, Catarina, como é que te perdes logo neste mato? Sempre andaste aqui em miúda!

Avó, era mesmo uma bruxa?… perguntou o Gonçalo, assustado e maravilhado.

Que nada, Gonçalo! Aquela é a Ti’Pepa do fundo. É rezingona como meia dúzia de feiticeiras…

À noite, ao jantar, Gonçalo perguntou de repente:

Avó, porque é que a chamam Ti’Pepa?

Não sei bem, mas já em nova era assim tratada. Diziam que em criança era muito gorducha. Os pais tinham posses, a quinta era grande. Ia para a rua com um naco de pão com chouriço, comia sentada ao banco ao pé de casa. Por vezes, a mãe barrava pão com manteiga e polvilhava açúcar. Os putos descalços passavam com olhos a brilhar, ela nunca dava nem uma migalha. Por isso nunca teve muitos amigos. Era mesmo grande, levava a barriga à frente. Os rapazes chamavam-lhe “barriguda” e “patusca”, e gritavam: Olha o recheio a rebentar, o umbigo a saltar!

Eu lembro-me dela já feita, talvez trinta e poucos anos, e eu aí uns dez. Tinha namorado o António, o tractorista, mais novo que ela. Ela já não era magra, mas também não era aquela bola da infância. Bonita não era, mas feiosa também não. Tinha o nariz comprido, lembro-me disso. Casaram. Tiveram um filho. O rapaz tinha uns oito anos naquele ano. Na primavera, o rio ia alto. Os homens resolveram construir casa, cortaram grandes troncos e fizeram flutuar madeiras pelo rio. Os miúdos, nos intervalos, saltavam entre troncos, principalmente onde faziam remoinhos. Os grandes, se caíssem, safavam-se e subiam de novo. O miúdo dela, pequenino e franzino, escorregou e foi arrastado. Um tronco bateu-lhe na cabeça Afundou-se. Procuraram-no três dias. Encontraram-no muito depois, já longe na corrente. A Ti’Pepa ficou transtornada. O António, desolado, entregou-se à bebida.

No inverno, encontraram-no congelado junto à mata. Vinha dos armazéns, bebera com os camaradas, não aceitou ficar lá a dormir. Na encruzilhada perdeu-se, sentou-se, ficou ali enterrado pela neve. A Ti’Pepa acabou internada, mas lá voltou à vida. Tornou-se estranha e calada, vive sozinha há quase cinquenta anos. Tem uma cabra. Anda sempre a recolher ervas e ajuda quem lhe pede um chá.

A avó calou-se. A mãe começou a arrumar a louça.

Pois poucos têm vida fácil, disse a mãe, pensativa. Gonçalo sentiu pena da Ti’Pepa.

O setembro foi soalheiro e claro. As manhãs já traziam frio, às vezes geada, e de dia cheirava a verão. O ar era limpo e transparente. O bosque vestia-se de tons dourados e vermelhos. Já tinham colhido as batatas. Gonçalo andava na escola já há duas semanas. Nunca esqueceria a entrada no primário, nem a professora, bondosa mas exigente, que o levou pela mão no primeiro dia, pois era o mais pequeno do grupo.

Os do primeiro ano não tinham ainda notas, mas a Dona Teresa estava sempre a elogiá-lo e dizia-lhe que precisava treinar mais a escrita. Fez dois amigos da mesma rua Simão e Rui , alunos do segundo ano, e voltavam juntos a casa, quando as aulas coincidiam. Como a escola era no outro extremo da aldeia, os rapazes mostraram-lhe um atalho pelo baldio e pelo quintal da Ti’Pepa. Às vezes, era a avó ou a mãe que o iam buscar.

Nesse dia, Gonçalo teve sorte. A professora pôs-lhe duas estrelas vermelhas nos trabalhos e inscreveu-o na biblioteca. Emprestaram-lhe o livro “A Palavra Mágica”. Saiu da escola contente. O Simão e o Rui ainda tinham aula, e ele pôs-se a caminho sozinho, pelo baldio, por entre latas e trapos velhos, escolhendo o melhor percurso para não pisar nada perigoso.

De repente ouviu um estranho ruído. Olhou e gelou: um bando de cães apareceu ao fundo. Eram muitos. Tentou voltar atrás, mas já estava cercado. O maior dos cães aproximou-se, cheirando o chão, dentes à mostra. Gonçalo gritou sem perceber o som. O cão atirou-se a ele. Tentou proteger-se com a mochila, mas a besta desenfreada rasgou-lha das mãos e atirou-a ao chão.

Caiu, pôs-se a cobrir com os braços, mas uns dentes cravaram-se-lhe fundo no ombro e perdeu os sentidos. Não viu a Ti’Pepa, encurvada e veloz, a correr pelo quintal com uma pá. Saltou o muro num ápice e pôs-se a golpear os cães, ora à esquerda ora à direita. Os animais pararam, mas eram muitos e já sentiam o cheiro do sangue. Cercaram a velha e o miúdo caído, prontos à investida. A Ti’Pepa transformou-se também, aos berros, a retorcer a pá. Um cão enorme saltou-lhe para as costas e cravou-lhe as presas no pescoço. Antes de desmaiar, Ti’Pepa tombou sobre o Gonçalo, cobrindo-o com o corpo e com a longa saia

Por essa altura, havia pouco movimento na aldeia. Os jovens ainda na escola, os adultos na quinta ou nos campos. O veterinário e o ajudante regressavam da vila, já com as encomendas e as novas vacinas para as vacas. Pela vereda, avistaram rebuliço entre os matos junto aos quintais, ouvindo ganidos e ladridos.

Zé, gira ali para o quintal da TiPepa. Vê lá aquilo! disse o veterinário.

O Zé manobrou o carro em direção ao local. A cena que descobriram foi de arrepiar: a matilha preparava-se para novo ataque. Por todo o lado, sangue espalhado. O chão coberto de folhas e livros rasgados. A velha tombada rosto ao chão, com um braço já em osso à vista. Ganhou coragem, correu e, sem hesitar, meteram-se a afastar os cães como podiam. Os bichos mordiam-lhes as pernas, atiravam-se ao peito. O Zé, ensanguentado, levantou a pá caída e girava-a de um lado para o outro, para dispersar os animais. Os cães gemiam e rosnavam, o chefe com sangue a escorrer-lhe da testa. Pela aldeia, corriam vizinhos de forquilhas e espingardas, disparando para o ar. O líder, com um uivo, fugiu em direção à mata. A matilha seguiu-o.

A velha gemeu. Só então viram que, debaixo dela, estava alguém mais.

Zé, chama a ambulância, a velha ainda está viva!

Quando afastaram a TiPepa e a deitaram na relva, viram um menino pálido, ensanguentado. Também ele estava inanimado

O sol de outono deslizou pela almofada e pelo nariz sardento do Gonçalo. O menino abriu os olhos. As paredes brancas do hospital metiam medo.

Onde estou…? O pensamento voltava devagar. Mexeu-se.

A mãe, sentada ao lado, soltou uma exclamação emocionada.

Gonçalo, meu filho, acordaste! e chorou.

O braço e o ombro de Gonçalo doíam imenso, todos enfaixados. Lembrava-se de tudo.

Mãe, os cães comeram-me a mão, não vou poder escrever?

Não, meu querido. Não to comeram. Só feriram feio. Fizeste uma operação. Vai sarar, antes de te casares já passou, sorriu a mãe. E agradece à TiPepa. Salvou-te, protegeu-te com o corpo. Dorme, meu amor.

A TiPepa foi enterrada por todo o povoado. Os cães tinham-lhe dilacerado as duas mãos e uma perna. O velho coração não resistiu à operação.

No dia seguinte, os homens da aldeia, zangados, mataram à socapa todos os cães da matilha. Uns quarenta foram amontoados numa vala na berma do bosque e cobertos de terra. Junto à mata encontraram tocas com cachorrinhos, que a vizinhança adotou.

Gonçalo faltou à escola só um trimestre. A mão custava-lhe a escrever, mas treinava todos os dias. Dona Teresa elogiava-o. Os rapazes achavam-no um herói.

Ele e a mãe foram ao cemitério e levaram à campa da TiPepa um ramo de flores bem grande.

Na pequena placa da cruz lia-se: “Josefa da Conceição Pinto”. No dia da sua morte, fez noventa anos. A mãe chorou.

Vê lá, como é o destino! Obrigada, TiPepa! Obrigada por nos mostrares o caminho na floresta e sobretudo, por salvares o meu filho. Que a terra te seja leve!

No Natal, durante a peça na escola, quando a bruxa saltou para o palco junto à árvore, Gonçalo desatou a chorar e saiu da sala. Dói-lhe o braço subitamente. Lembrou-se da TiPepa!

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