Senhora, não percebe… Este cão é um verdadeiro problema. Ele é selvagem e está sempre a ladrar às …

Senhora, não faz ideia… Este cão é mesmo um caso complicado. É selvagem e está sempre a ladrar às pessoas.

Nesse dia, uma rapariga numa cadeira de rodas decidiu, pela primeira vez, visitar um canil em Lisboa. Sonhava há muito ter um cão, não só para companhia e passeios, mas para ter um verdadeiro apoio na vida.

As rodas da sua cadeira chiaram baixinho ao longo do corredor daquele abrigo, ecoando num espaço amplo repleto de jaulas.

Os cães latiam, saltavam e tentavam chamar a atenção uns abanavam alegremente o rabo, outros latiam alto, alguns saltavam para as grades, desesperados por liberdade. A rapariga parava junto de cada jaula, observava com atenção, mas o coração permanecia calmo. Nenhum lhe falava à alma.

Quase convencida de que a visita tinha sido em vão, os olhos pousaram num canto mais sombrio da sala. Ali, resguardado nas sombras das grades, estava um pastor alemão.

O cão não correu nem latiu, sequer olhou à sua volta. Era um animal grande, imponente, com uns olhos carregados de inteligência, que parecia alheio à agitação em volta, como se estivesse apenas alí a descansar.

É este. Quero este, disse a rapariga com uma decisão inesperada, apontando para o pastor alemão.

O funcionário do canil ergueu as sobrancelhas, incrédulo.

Senhora, não entende… Este cão é mesmo um verdadeiro problema. É selvagem, ladra a toda a gente. Ninguém consegue controlá-lo. Até pensámos que teríamos de o abater.

A rapariga sorriu, abanando a cabeça com leveza.

Não faz mal. Todos temos as nossas fragilidades, disse, indicando a cadeira de rodas. Quero conhecê-lo pessoalmente. Olhe só para o olhar dele.

Bem… como queira, respondeu o trabalhador, soltando um suspiro fundo. Mas aviso-a: isto pode não acabar bem.

Quando a jaula foi aberta e trouxeram o pastor alemão à presença da rapariga, instalou-se um silêncio denso no abrigo. Funcionários pararam, visitantes afastaram-se, assustados. Todos temiam que o cão corresse, rosna-se ou atacasse a rapariga, levando a uma tragédia.

O pastor alemão manteve-se à distância, tenso, as orelhas espetadas, fitando-a na cadeira de rodas. Os segundos arrastavam-se. De repente, o cão soltou um latido forte e aproximou-se a passos lentos. O eco do latido preencheu a sala. Toda a gente prendeu a respiração alguns cobriram a boca, temendo o pior.

Mas o cão surpreendeu a todos.

Deu mais um passo, devagar. Outro. Ia aproximando-se resguardado. A rapariga não se mexeu, manteve o sorriso e olhou-o nos olhos.

Então, perante o espanto geral, o pastor alemão chegou junto dela, baixou a cabeça e encostou-se com todo o cuidado às pernas da rapariga. Cheirou-lhe os joelhos, a cadeira, e subitamente deitou-se aos seus pés, fechando os olhos.

A rapariga, sem perder o fôlego, estendeu a mão e o cão não rosnou, não mordeu. Deixou-se acariciar. Respirou fundo e, surpreendentemente, adormeceu ali, rendido.

Instalou-se um silêncio absoluto no corredor. Ninguém queria acreditar no que via. Alguém até murmurou:

Isto nunca aconteceu… Esse cão mordia toda a gente e não confiava em ninguém.

A rapariga inclinou-se e, num sussurro, disse:

Agora és meu. Vamos sempre estar juntos.

E, de facto, nesse dia os dois foram para casa. A rapariga e o selvagem pastor alemão de que todos tinham medo.

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