Ó Rui, estás a ouvir-te? Queres que eu ande de barriga aos quarenta, só para corrigir os erros da tua juventude?
Mas porque razão tenho eu de pagar por teres achado mais piada ao teu barracão do que ao teu próprio filho? a Inês perguntava, com uma sinceridade e um espanto no tom de voz bem visíveis.
Inês, já chega com isso! resmungava Rui. Fui parvo, pronto! Não entendia, não sabia o que estava a perder. E agora perdi tudo, o Tomás nem me vê como pai!
E onde é que ele está errado? atalhou Inês, soltando um sorriso amargo. Ele passou dezassete anos a viver contigo como se fosses colega de quarto, não pai. Achavas que um filho pode-se desligar e ligar, como se fosse a televisão, só porque te apetece brincar ao pai?
Rui ficou com o olhar carrancudo e aquela expressão irritada que a Inês já conhecia bem nos momentos em que se falava dos deveres de pai.
Inês, pára lá! Isso já foi há muito tempo. Dá-me só mais uma oportunidade, insistia ele.
Para depois brincares um bocadinho e deixares tudo para mim? Para haver mais uma criança a crescer sem pai a sério? Inês cruzou os braços, firme. Olha, chega. Uma experiência dessas já me chegou, Rui. Nem sequer quero discutir isso.
A cara dele encheu-se de mágoa e raiva, e ele ficou calado, a teclar com força no telemóvel.
A discussão ali acabou. Por agora. Mas o problema estava longe de resolvido. Aquela conversa deixou a Inês com o coração pesado. Nem era tanto por causa dos disparates do Rui, mas sim pelo Tomás, o filho deles.
Lembra-se como se fosse hoje, tinha vinte e três anos quando o Tomás nasceu. Ainda sente a felicidade, o cansaço, os braços colados àquele embrulhinho de gente, enfiado numa mantinha branca à porta do Hospital de Santa Maria.
O Rui nem lhe largava o pé. Olhava para os dois, orgulhoso. Dava jeito à manta, beijava-a na testa, pegava no filho como se tivesse ali o tesouro do mundo.
É igualzinho a mim! Com a mesma covinha no queixo dizia Rui, todo contente. Já sou pai, Inês!
Só agora é que me caiu a ficha. Vou fazer tudo por ele, com ele! Levo-o ao Jardim da Estrela, faço as trocas de fraldas, ensino a jogar à bola Vou ser o melhor pai do mundo, vais ver!
E a Inês acreditava em cada palavra, emocionada. Via uma família perfeita amorosa, cúmplice, cheia de alegria e de pequenas ternuras.
Mas, como tantas vezes acontece, a realidade foi bem diferente
Noite funda. Inês, com olheiras profundas, revezava-se de um lado para o outro da casa, embalada no choro insistente do menino com cólicas. Terceira vez nessa noite. O Rui só resmungava na cama, enfiado debaixo da manta.
Faz qualquer coisa, por amor de Deus! Amanhã acordo cedo para o trabalho! sussurrava com pouca paciência.
No fim, a Inês lá ia para a sala, a chorar de cansaço, tentando não acordar ainda mais o Rui. Fechava a porta, embalava o Tomás durante uma eternidade, só para o marido poder dormir.
Chegava ao sábado, e ela, completamente estoirada, pedia:
Ó Rui, não podes ficar com ele uma horita ou duas? Já nem sinto as pernas, precisava dormir só um bocadinho
Agora não dá, Inês Combinámos que vinha cá o Luís, vai trazer-me o carro para reparar.
Mas já não aguento mais
És forte, Inês! Aguentas-te! Depois ajudo-te, juro!
Fechava a porta, e deixava a Inês só com a sua força e aquela maternidade enlouquecedora. E o depois nunca mais chegava.
O tempo passou, o Tomás foi crescendo. A Inês fazia de tudo para que Rui e o filho se aproximassem. Chegava-se ao Rui, sentado a ver o Sporting na televisão, esticava-lhe o miúdo, bochechas rosadas esticadas para os braços do pai.
Fica um bocadinho com ele, brinca, pedia ela. Nem era tanto por descanso, mas para ver se criavam laços.
O Rui lá pegava nele, sem grande vontade, com ar de quem mexe num saco estranho. Segurava-o à distância, a ver o jogo por cima do ombro do filho. Um minuto, dois e punha-o na carpete e voltava ao futebol.
O rapaz foi crescendo. Aos cinco anos, sentava-se no chão da sala, a montar castelos de legos. O Rui passava por ele a caminho do sofá e nem olhava. O Tomás já nem estranhava estava habituado à ausência do pai.
Não se pode dizer que o Rui fosse um completo inútil como marido. Trouxe dinheiro para casa, até ajudava de vez em quando na cozinha e na limpeza. Mas a infância do filho passou-lhe ao lado. Era de admirar que, agora crescido, o Tomás nem o quisesse como pai?
Então, Tomás, como vai a escola? perguntava Rui, a tentar puxar conversa.
Eh Vai bem. Está tudo certo. o miúdo respondia, embaraçado.
E as notas, estão bem? Se precisares, posso ajudar. É importante, sabes? Não te quero ver a trabalhar num quiosque a vida toda!
Não, obrigado, pai, está mesmo tudo bem. Resumia o Tomás, querendo desaparecer rapidamente para o quarto.
Olha que se quiseres, vamos à pesca este fim de semana! atirava Rui quando o miúdo já estava a sair.
Mas o rapaz nem respondia. Só a Inês é que sabia que nesse dia havia baile na escola, que o Tomás tinha convidado uma rapariga da turma do lado e que ela lhe disse que não. E que a pesca não lhe dizia nada.
O comboio tinha passado. O Tomás já não era aquele menino que pedia pelo pai, e a infância, que o Rui queria emendar, não voltava atrás.
Quando percebeu isso, o Rui quis ter um segundo tempo, uma segunda criança. Só que a Inês, recordando cada noite mal dormida, era totalmente contra.
Com o tempo, toda a gente à volta ficou a saber dos conflitos lá em casa.
Minha filha, já percebi tudo, o Rui contou-me. Escuta a tua mãe, atreve-te ao segundo filho. O Rui mudou, cresceu! Não lhe tires esse direito, é uma bênção enorme ter um bebé outra vez!
A sogra também meteu a colher.
Inês, pensa bem no que fazes, arriscas-te a perdê-lo disse ela. O homem sonha ser pai.
Se tu não quiseres, outra há-de querer. Olha que até para ti é melhor. Já viste que o Tomás está quase a voar do ninho? Outro filho junta o casal e, na velhice, tens quem olhe por ti.
Doía ouvir tudo aquilo dito por outra mulher, parecia que a sua vida e o seu corpo eram moeda de troca numa feira de saldos.
Viam nela só a mãe e a esposa. Nunca a mulher esgotada, que já fez aquele caminho e não esqueceu como acabou.
No meio de tudo, a Inês teve uma ideia meio louca, mas para mostrar ao Rui o que custava. Foi à arrecadação, buscou a velha caixa das coisas de bebé do Tomás e encontrou lá um tamagotchi ainda a funcionar.
Era um bichinho virtual tinhas de alimentá-lo, brincar, dar medicamentos, tudo isso, senão morria. Quando o Rui chegou do trabalho, ela pôs-lhe aquele ovo de plástico na mão.
O que é isto? perguntou ele, desconfiado.
O teu período de experiência. Tenta, só por um décimo, fazer o que seria tua obrigação como pai. Tens de cuidar dele certinho e direitinho. Se, ao fim de um ano, o tamagotchi ainda estiver vivo, acredito que estás pronto para um filho.
O Rui riu-se, pensando que era brincadeira, mas a cara da Inês estava séria.
Estás mesmo a comparar um bebé com esta coisa?
Olha, começa por aqui. Se não consegues nem manter este bicho vivo, como será com uma criança de verdade?
O Rui encolheu os ombros. Agarrou naquilo e pôs no bolso.
Nos primeiros três dias, até se esforçou, acordava de madrugada para alimentar a criatura virtual. Ao quinto já bufava, mas não largava. A semana passou e queixava-se de andar arrasado no trabalho, cheio de sono.
Ao oitavo dia, chegou a casa, atirou o tamagotchi para cima da mesa. No ecrã, uma cruz o bicho tinha morrido.
Esqueci-me de dar de comer. No trabalho foi só confusão, resmungou, sem olhar para a Inês.
A partir daí, as discussões acalmaram, mas a distância ficou. E, sem grandes dramas, o Rui foi desistindo do sonho do segundo filho.
Três anos depois, a vida pôs tudo no sítio. O Tomás, já estudante universitário, apareceu lá em casa com a namorada e, pouco tempo depois, deram a notícia: iam ser pais.
O Rui transformou-se outra vez. Todo entusiasmado, a falar do novo papel de avô.
Passava cheques com o que tinha no fundo da conta, ofereceu-lhes um carrinho de bebé, roupinhas demais e brinquedos pequenos. Jurava ser o melhor avô do mundo, estar sempre presente, ajudar em tudo.
A Inês via aquilo com um sorriso de quem já assistiu ao filme.
Quando nasceu o neto, a história repetiu-se. Nas primeiras semanas, Rui até ajudou, andava a embalar o bebé, a tirar selfies. Mal a novidade se esfumou, o entusiasmo perdeu-se. Convenceu os miúdos a alugarem casa própria e, depois disso, só aparecia de vez em quando ao domingo, quando a criança estava de bom humor.
Bastava o neto choramingar, o Rui lembrava-se logo de que tinha de atender uma chamada, resolver algo ou ir ver a mãe à Ericeira.
Quem lá esteve sempre? A Inês. Viu o filho, adulto e presente, ajudar a companheira sem fugir. E percebeu que tinha decidido bem.
O Tomás tornou-se um homem atento e responsável, nunca deixou a namorada sozinha. E o Rui? Continuou o mesmo de sempre alguém apaixonado pela ideia de ser pai, mas sem nunca perceber o que isso realmente significa.
O que achas disto tudo? A Inês fez bem? Conta-me a tua opinião, deixa um gosto!







