Conheci-o no secundário, ambos tínhamos 15 anos e começámos a namorar após alguns meses. No penúltim…

Conheci-o no secundário, ali pelos bancos da Escola Secundária de Coimbra. Tínhamos ambos quinze anos e, passados uns meses de trocas de olhares e umas mensagens trapalhonas pelo WhatsApp, tornámo-nos namorados. No penúltimo ano chegou à turma uma nova colega, a Filomena, que logo conquistou a simpatia de metade da escola eu, ingénua, achei logo que ali ia nascer uma amizade daquelas para a vida.

O fim desse ano letivo trouxe-me uma reviravolta digna de novela portuguesa: o meu namorado, com aquela descontracção típica de quem perde sempre as chaves, esqueceu-se do telemóvel em cima da secretária, e eu, quase como quem não quer a coisa, espreitei as mensagens. Aquilo era conversa que não acabava mais, com a Filomena sempre na linha da frente para correr para o peito dele às primeiras lágrimas. E eu a fazer-me de parvinha, achando que era tudo camaradagem.

Tinha eu os meus dezoito aninhos e o medo de perder o único gajo que julgava amar calou-me. Fui engolindo sapos atrás de sapos, até que, a meio do 12º ano, quando finalmente ganhei coragem para acabar tudo, descubro que estou grávida. E pronto fiz o choro da minha vida. Sabia que aí vinha tempestade: a família ia ficar uma fera, a universidade tinha de esperar, os sonhos enfiados numa gaveta basicamente, tudo a descambar num minuto.

Acabámos o secundário e a nossa filha, Margarida, nasceu uma galega de olhos vivos e cabelo despenteado, igual ao pai. Ele foi logo estudar para Lisboa e, como tal, só vinha a Coimbra de quinze em quinze dias. Eu, do meu lado, passava o tempo num vaivém de fraldas e desenhos animados, sentindo-me invisível sempre que não estava a cumprir o papel de mãe.

Iludi-me, claro, a pensar que, terminado o curso, o drama da Filomena acabaria por si. Mas não. Passados dez anos, a rapariga ainda era o fantasma cá de casa mandava mensagem atrás de mensagem e, pior, ele respondia com o mesmo entusiasmo que um miúdo recém-chegado ao parque de diversões. Se havia jantar de turma, formatura ou o que fosse, arranjava logo uma desculpa: “Ai, não temos com quem deixar a Margarida!” Mal eu sabia que era a deixa perfeita para sair de casa e encontrar-se com a tal.

Por muito que me custasse engolir, nunca chegou a acontecer uma traição física não fosse falta de vontade dela, que adorava andar a brincar ao faz-de-conta, provocando e depois ignorava-o, só para manter o poder.

Cansada de ser a capitã da polícia dos telemóveis, de confrontos, promessas de nunca mais, em 2021 pus um ponto final. Voltei-me para a terapia, agarrei-me ao teletrabalho, e dediquei-me à Margarida mais do que nunca. Declarei ao meu ex que o ciclo estava fechado, e jurei nunca mais voltar atrás.

Mas ele não foi de me deixar em paz. Insistiu, tornou-se mais presente, disse que me queria reconquistar. Seis meses de tentativas depois, dei-lhe uma última hipótese mas com regra nova: tínhamos de viver juntos, a sério. Ele aceitou. Juntámos o que cada um pôde do ordenado, fomos ao IKEA e comprámos tudo o que faltava para montar o nosso pequeno lar.

No início, andava nas nuvens. Finalmente, a família junta, com uma rotina decente, sem me sentir uma ilha. Só que, em fevereiro de 2025, deitei-me com aquele desconforto que só quem já apanhou sustos entende. Não sabia o que era, mas não preguei olho. Do nada, decido pegar no telemóvel dele. E pronto, lá estava o desastre em bytes e megabytes: um chat bloqueado, que eu nem estava a procurar, mas que apareceu à frente, qual anúncio do Lidl.

Descobri que andava a trocar mensagens com a Filomena há meses, com convites para encontros e tudo. Fui apanhando pistas desse agora, desse antes: dois meses antes de morarmos juntos, dançaram a noite toda num encontro de ex-colegas, e no fim ele ofereceu-se para a levar a casa, ainda teve lata para lhe pedir um beijo recusado, claro, porque a Filomena é daquelas que gosta é do jogo. No meio disto tudo, ainda vi uma mensagem para o melhor amigo: Ela é o impossível e tu és o meu lar. Coisas de poeta de tasca.

Mas nada bateu mais forte que o email que ele escreveu à Filomena em dezembro de 2024. Palavras bonitas, e eu que achava que nem escrevia tão bem: Foram belas as minhas escolas contigo, mais de duas mil noites a pensar em ti. Dizia que sempre quis sentir-lhe o pescoço, ver-lhe a roupa espalhada no chão, fazer amor. Que o que os impediu de tudo foi ele cumprir o papel de pai e estar comigo por causa da filha.

Fiquei em choque, parecia ter levado com um balde de água fria. Tremia por dentro. Senti-me um remendo, ali por obrigação, não por desejo. Havia ainda 15 minutos de áudios a que nunca cheguei. No segundo seguinte, despachei-o de casa. Era meia-noite.

Nos dias seguintes, continuei a trabalhar, cuidar da Margarida já com nove anos, uma tagarela e ele andava como um zombie. Pediu desculpa mil e uma vezes, iniciou terapia, e eu, parva ou corajosa, decidi tentar perdoar. Falámos, esclarecemos, até melhorámos algumas coisas. Mas o estrago já estava feito. A minha autoestima ficou em frangalhos, e agora olho-me ao espelho e vejo uma mulher que não reconheço.

Hoje, saímos mais vezes e até há momentos agradáveis, mas algo ainda está errado. Talvez seja instinto de autoprotecção, ou só medo de voltar a acreditar. O tal fogo que sempre senti esfumou-se há um ano, depois de mantê-lo aceso onze anos seguidos. Sinto-me meio perdida.

Ele trabalha como um mouro, tem sonho e objetivos. É um pai atento, cuida da Margarida, brinca, ouve, leva-nos a passear, ri-se connosco até paga metade, tanto nas despesas como nos pequenos extras, quando se pode.

No fundo, somos aquele casal típico português: parece estável, tem dias felizes, mas anda com uma nuvem por cima, daquelas que teimam em não largar, mesmo quando parece que o sol já brilhou outra vez.

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