O HOMEM COM O REBOQUE
Recordo como se ainda estivesse a sonhar, aquela noite de novembro, húmida e estranha. Chovia e nevava ao mesmo tempo, batendo nas janelas e rodopiando pelos cantos o vento gemia na chaminé, tal e qual um lobo esfomeado à porta de casa, mas na minha enfermaria reinava um calor aconchegante, cada estalo da salamandra embalava-me numa modorra fantástica. Eu já me preparava para fechar tudo, quando a porta rangeu e surgiu o Álvaro Aguiar. Alto e largo, parecia que poderia aguentar um vendaval, mas havia um quê de desamparado nele, como se pudesse voar com a primeira corrente de ar. Nos braços, apertava um embrulhinho pequeno: a filha dele, Guiomar.
Pousou-a com cuidado na marquesa, ficou encostado à parede, imóvel e grave. Olhei para a menina e o meu peito encheu-se de angústia as bochechas tão vermelhas, os lábios secos, todos gretados, tremendo de frio ou febre, e apenas sussurrava baixinho: Mãe mamã Nem cinco anos tinha a pequena. Tirei-lhe a febre Santo Deus, quase quarenta!
Álvaro, algum juízo Há quanto tempo está a menina assim? perguntei já a arregaçar as mangas e a arranjar a seringa.
Ele nada, cabeça baixa, punhos cerrados, olhos presos no chão, como se estivesse longe dali, perdido no seu desespero. Vi logo: a alma dele estava a sangrar por dentro, as feridas da alma são piores que qualquer doença.
Dei a injeção, esfreguei bem a miúda Ela lentamente acalmou-se, respirava melhor. Sentei-me pertinho dela, afaguei-lhe o cabelo ensopado de febre e cochichei para o Álvaro:
Fiquem aqui. Com esta ventania, para onde iriam? Tens o divã para ti, eu fico a tomar conta da Guiomar.
Ele só acenou com a cabeça e nem se mexeu. Ficou junto à parede até de manhã, duro como uma estátua. Passei a noite a mudar compressas, a dar-lhe agua à boca, a pensar, sempre a pensar
Na aldeia, de Álvaro diziam de tudo um pouco. A mulher dele, Bernardete, afogara-se no Mondego no ano anterior. Bonita como ninguém, cheia de vida. Desde então, o Álvaro transformou-se em pedra: apenas vivia, já não era vida, trabalhava desenfreadamente, tentava manter a casa e a filha a salvo, mas os olhos os olhos só guardavam tristeza. Não conversava com ninguém, respondia sempre de fugida.
As más línguas sussurravam que tinham discutido à beira-rio, que ele no calor da bebida lhe dissera coisas más, e que ela, desesperada, entrou rio dentro. Que ele não fez nada, não tentou ajudar. Desde essa noite, nunca mais tocou em álcool, mas o remorso corrói mais do que qualquer aguardente. Olhavam para ele e a filha como o homem com o reboque mas esse reboque não era a criança, não: era uma desgraça presa a ele, que arrastava por onde fosse.
De manhã, a Guiomar melhorou, baixou a febre. Abriu os olhitos tão, mas tão azuis igual aos da mãe dela , piscou para mim, depois fixou o pai, e tremeu-lhe outra vez o lábio. O Álvaro aproximou-se, tocou-lhe na mão, mas logo a retirou, assustado com a própria ternura. Nela, via sempre a lembrança dolorosa da Bernardete.
Ainda os guardei em casa mais um dia. Fiz caldo de galinha, dei à Guiomar colher a colher. Ela comia calada, quase sem nada dizer, como desde o dia da tragédia. Apenas sim, não. O pai era igual: preparava-lhe a sopa, cortava-lhe o pão tudo em silêncio. Trançava-lhe as melenas com os dedos grossos e gretados, mas sem uma palavra mais meiga. E nesse silêncio pairava sempre uma tristeza palpável, um ar pesado.
Assim continuavam, ela foi recuperando e eu nunca os largava de vista. Ora enviava-lhes empadas acabadas de sair do forno, ora um frasco de doce, sempre com o pretexto de não saber o que fazer com tanto. Espreitava, observava: viviam como dois estranhos partilhando o mesmo espaço. Entre ambos havia uma muralha de gelo; ninguém parecia conseguir derretê-la.
Um dia, chegada a primavera dos jacarandás, veio para a aldeia uma nova professora primária, Dona Hermínia, vinda de Lisboa. Era calma, de olhar sereno, mas com tristeza escondida lá dentro. Devia ter passado por muito para trocar a grande cidade pela solidão do interior. Fora ela a nova mestra da turma da Guiomar.
Sabem, às vezes acontece: um raio de sol fura o nevoeiro. Dona Hermínia cativou de imediato a menina, percebeu-lhe a mágoa. Foi-lhe ganhando, devagarinho um livro ilustrado, uns lápis coloridos, um conto contado junto à lareira depois das aulas. E a Guiomar começou a aparecer, como quem vai rompendo uma crosta de silêncio.
Um dia, fui à escola medir a tensão ao diretor e vi-as: as duas sentadas na sala vazia, Dona Hermínia lia baixinho, Guiomar encostada a ela, ouvindo, com um vislumbre de paz no rosto, algo que há muito não via.
O Álvaro, ao princípio, olhava para aquilo com maus olhos. Chegava para buscar a filha, via-a com a professora, ficava de pedra. Lançava-lhe apenas um Vamos, puxava a menina pela mão. Nem um boa tarde, nem um obrigado. Via apenas pena nos gestos da professora, e para ele compaixão era pior que um estalo.
Um fim de tarde, toparam-se junto ao talho. Hermínia e Guiomar saíam, lambendo juntas um gelado. Álvaro viu-as e carregou o sobrolho ainda mais:
Doutora Hermínia, boa tarde. Demos um miminho à sua menina, disse ela, sorridente.
Ele cortou-a com o olhar, tirou o gelado da mão da Guiomar e lançou-o ao lixo.
Isso não é da sua conta. Nós resolvemos os nossos problemas.
A miúda chorou, Hermínia ficou estátua, olhos doridos. Álvaro virou as costas e puxou a filha a soluçar. E ao vê-los, mesmo em sonho, o sangue ferve. Ó homem, fazes mal a ti e à tua cria!
De noite, foi ter comigo: Preciso de comprimidos para o coração, sinto-o apertado. Enchi-lhe um copo de água, sentei-me em frente.
Isso não é o coração, Álvaro. É o teu luto, é o remorso. Pensas que defendes a tua filha com silêncio? Mataste-lhe o brilho, afogas-lhe o peito. A menina precisa de amor, precisa de palavras quentes, não de gelo. Aprende a deixar a Bernardete partir! Os mortos já têm o seu lugar, os vivos precisam de ti.
Ele ouviu-me de cabeça baixa, ficou mudo. Depois levantou o olhar, e nele vi uma dor sem fim.
Não consigo, Maria do Céu. Não consigo…
Foi-se embora. E eu fiquei a olhar o escuro. Porque, meus amigos, por vezes é mais fácil perdoar o outro do que a si próprio.
A vida foi correndo, até ao dia em que tudo virou do avesso. O fim de maio cheirava a terra molhada e cerejeiras em flor. Hermínia ficou com Guiomar depois das aulas, sentadas nos degraus da escola, a desenhar. E Guiomar fez um desenho: uma casa, um sol, junto do pai e ao pé dele, um borrão de lápis negro, mesmo negro.
Hermínia olhou para o desenho, suspirou. Pegou na mão da menina, foram até à casa dos Aguiar.
Passava eu nesse instante, ia perguntar se precisavam de algo. Vi Hermínia, indecisa, junto do portão. Dentro, Álvaro serrava lenha com raiva, como se quisesse partir o mundo.
Hermínia ganhou coragem, cruzou o quintal. Ele desligou a serra, virou-se, rosto carregado de nuvens.
Eu disse para… começou ele.
Desculpe interromper. Vim só trazer a Guiomar. Mas quero que saiba de uma coisa, disse ela, serena mas firme.
E começou a falar. Contou sobre ela própria: também tinha tido um marido, o amor da sua vida. Também o perdera, num acidente. Ficou meses a olhar o teto, a desejar desaparecer. Chorou, concentrou toda a dor e a culpa em si mesma: se o tivesse retido naquele dia, se lhe tivesse dito para não sair de casa Afundou-se. Mas, um dia, percebeu: era uma traição à memória do marido, essa dor. Ele queria que ela vivesse. E então, obrigou-se a levantar-se, a respirar de novo. Pelos vivos, pela memória do amor.
Álvaro ficou petrificado, a máscara desfez-se lentamente. Depois, cobriu o rosto com as mãos e tremeu, não chorou estremeceu dos pés à cabeça.
Fui eu sussurrou. Não discutimos. Rimo-nos aquele dia, ela entrou no Mondego a brincar, a água estava gelada, gritei Ela escorregou nas pedras, bateu com a cabeça, caiu. Mergulhei, procurei-a mas já não havia nada a fazer. Não consegui salvá-la.
Nesse instante, na soleira, surgiu a pequenina Guiomar claramente ouvira tudo pela janela entreaberta. Olhou o pai sem medo, só com uma ternura infinita. Abriu os braços, abraçou-lhe as pernas e disse, alta e clara:
Papá, não chores. A mamã está nas nuvens. Ela olha para nós. Não está zangada.
Álvaro ajoelhou-se, abraçou a filha, chorando alto, sem vergonha. E ela passava-lhe a mão nas faces ásperas, repetindo: Não chores, papá, não chores. Hermínia chorava também, mas com lágrimas que limpam, que renovam.
O tempo passou. O verão deu lugar ao outono, que depois cedeu à primavera. E, tal como num sonho bonito, a nossa aldeia Crespos ganhou mais uma família não por papéis, mas pelo coração.
Certa tarde, sentei-me ao sol, as abelhas dançavam na cerejeira, e vejo-os a caminhar pela estrada: Álvaro, Hermínia e Guiomar, de mãos dadas. Guiomar falava e ria, riso límpido de criança. Álvaro era outro homem: ombros erguidos, olhos vivos, sorria-lhes com uma alegria de quem, finalmente, encontrou o que mais vale no mundo.
Pararam junto a mim.
Boa tarde, Maria do Céu, saudou Álvaro, a voz tão quente que até o vento parecia brando.
Guiomar correu, ofereceu-me um ramalhete de malmequeres.
É para si!
Abracei o ramo, olhos cheios de água. Vi-os afastarem-se para o rio. O rio deixou de ser lugar de dor agora é só um rio, para sonhar, conversar baixinho, ver a água a levar tudo de mau.
E pergunto-vos, sonhadores: será que alguém sai sozinho do labirinto do desgosto, ou precisamos sempre de uma mão para nos puxar ao sol?







