Ai, essa avó casou de novo e magoou os filhos! No fim de semana, como sempre, a filha vai visitar …

Ai, essas avós, casam-se novamente e acabam magoando os filhos!

No fim de semana, Amélia, como sempre, vai a casa da mãe. Dona Maria tem 78 anos e vive sozinha há muito tempo.

Em dois dias, a filha consegue fazer a limpeza da casa, lavar a roupa toda à mão, já que não há máquina automática nem água canalizada. No verão, ainda há o quintal para cuidar.

Bem que podias vir morar comigo, ficava tudo mais fácil, até descanso terias, pobre de ti diz-lhe a mãe.

Mãe, trabalho em Lisboa, tenho a minha filha, as netas suspira Amélia.

O Estêvão voltou. Tirou as tábuas das janelas do antigo casarão. Cinquenta anos ficou vazio depois da morte da Luzia. Ele diz que já andou por esse mundo fora e agora quer cá passar o resto da vida. Perguntou por ti, deve vir cá cumprimentar-te conta-lhe Dona Maria.

Estêvão Foi o amor de juventude da Amélia. Ela sempre gostou dele, mas ele pouco lhe ligava. No último ano da escola, Amélia fez uma loucura: deixou cair o balde no poço e correu para pedir ao Estêvão que o resgatasse, senão seria castigada pela mãe.

Estêvão pegou numa vara e foi ao poço. Ficou meia hora a tentar apanhar o balde, mas conseguiu.

Achas que vai dar sorte? perguntou, rindo, ao despedir-se.

Quem tira o balde, casa contigo, era o que diziam as raparigas da aldeia.

Mas o ditado não funcionou para Amélia. Estêvão foi para o Porto, terminou a universidade, mudou-se várias vezes, e percorreu o país inteiro. Casou, divorciou-se e agora voltou.

Amélia, após a escola, foi para o curso técnico de contabilidade em Santarém, perto da aldeia natal. Ainda trabalha como contabilista. Casou-se, teve uma única filha, Fátima. Há oito anos ficou viúva.

Estêvão apareceu ao entardecer. Mudou, claro, envelheceu e ficou grisalho.

Continuas bonita como sempre diz ele, abraçando Amélia.

Ora, até aprendeste a mentir Também já passei dos cinquenta! Amélia ri, cortando-lhe a conversa.

Depois, sentaram-se à mesa de pedra no quintal. Provaram a ginja caseira da Dona Maria e quiseram pôr a conversa em dia.

Estêvão contou que se divorciou de duas esposas, sempre de bons modos. Nunca magoou ninguém. Deixou a cada uma o apartamento e o que tinham construído juntos.

O filho adulto do primeiro casamento está na Alemanha com a mãe, que era de uma família de alemães do Volga, exilados para o interior durante a guerra.

A segunda esposa pediu o divórcio porque se apaixonou por outro homem, mais novo, e Estêvão não impediu. Não tiveram filhos.

Estêvão está reformado por ter trabalhado no Norte e em produção perigosa. Agora quer montar uma equipa de homens da terra para construir casas, moradias, anexos e fazer reparações. Há procura, tem uma pequena poupança.

Mas e tu, Amélia? Ouvi dizer que te deixaste sozinha insiste Estêvão.

Amélia, sem saber bem porquê, contou-lhe tudo. Talvez porque chegou o momento de desabafar ou porque a ginja ajudou.

Não estou sozinha, Estêvão. A família é grande. Mas parece que sou a criada de todos começa Amélia.

A minha filha não quis estudar depois da escola, casou de imediato. Trouxe o marido para nossa casa, que tem três quartos, espaço para todos. Eles tiveram a Leonor, a minha neta.

E de alguma forma, todas as tarefas domésticas ficaram por minha conta. A filha cansada, sofre de depressão e tem uma criança pequena.

O meu marido, era um homem de ouro Sempre me ajudava. Mas nunca se queixava da saúde, e um dia, de manhã, não acordou. Foi um choque. Mas não tive tempo para lamentar.

Trabalhava, cuidava da casa e das contas que aumentaram. O genro ganha pouco. Todo o meu salário é para o orçamento familiar.

Esperava que a neta crescesse, que a filha a colocasse na creche para trabalhar e aliviar-me a carga, mas Quando a Leonor tinha quatro anos, nasceu a Sara.

A mais velha já vai à escola, a mais nova tem cinco anos. A filha continua sem trabalhar.

Todas as manhãs, preparo o pequeno-almoço para o genro e as netas, arranjo a Leonor para escola. A Sara fica com a mãe, mas brinca sozinha ou vê desenhos animados, porque a mãe dorme até ao meio-dia.

Despeço a Leonor e vou trabalhar. À noite, preparo o jantar para o dia seguinte, ajudo nas tarefas, lavo roupa, limpo a casa.

Cheguei a pedir à minha filha para fazer alguma coisa em casa mas é inútil. Está cansada das crianças.

O genro não se queixa: a sogra trabalha, há dinheiro e produtos frescos do quintal. Até já pediu dinheiro para um carro, sabem que tenho algum dinheiro guardado, mas tenho medo de ficar sem nada.

Cansada, sei que a culpa é minha. Criei uma filha preguiçosa e egoísta. Entendo tudo, mas não sei como sair deste círculo desabafa Amélia.

Sim, é uma história pesada Mas não te preocupes, vamos encontrar uma solução. Vamos ao lar, já amanhece diz Estêvão ao despedir-se.

No domingo à noite, Estêvão leva Amélia para Lisboa no carro dele. Amélia está feliz, conseguiu trazer muita comida fresca do campo. Estêvão ajuda-a a levar os sacos e as malas para casa.

Quando ele sai, a filha pergunta:

Onde é que arranjaste esse velho?

Amélia explica que é um antigo colega da escola e começa a arrumar os legumes.

Duas semanas depois, Estêvão volta, perto da hora de almoço, e começa a levar as coisas que Amélia já tinha preparado. O genro e a filha aparecem surpreendidos.

O que se passa? perguntam em coro.

Vou-me embora, casei-me. Vou para a minha aldeia, vou viver com o Estêvão e aproveitar o resto da vida responde Amélia.

Perdeste a cabeça, mãe, casar nesta idade! Noiva, sem casa! E fizeste o almoço, ou nem isso? As tuas netas vão ficar com fome! exclama a filha, Fátima, indignada.

Agora serás tu a cuidar das tuas filhas e do teu marido. Vivi para vocês dez anos, agora quero viver para mim. Vais ter de mexer-te, querida responde Amélia.

Traidora! Quero que não vejas mais as tuas netas! grita Fátima.

Também não quero vê-las agora, tenho muitos afazeres. Ao longo dos anos estive mais presente que tu e Amélia sai.

No carro, Amélia não consegue conter as lágrimas.

Devia ter avisado antes que ia embora diz a Estêvão.

Ias ouvir o mesmo, só que mais insultos. Era necessário um corte rápido. Ficam dependentes de ti, não havia outra maneira responde Estêvão.

Amélia tornou a casa do Estêvão acolhedora. Ele instalou um WC quente e uma cabine de duche. É verdade que têm de trazer água e encher o depósito, e o esgoto precisa de ser esvaziado duas vezes por mês, mas são pormenores.

Convidaram Amélia para ser encarregada na escola, aceitou. O salário é menor, mas a vida é mais tranquila. Estêvão trabalha com a sua equipa de construção. Há trabalho o ano todo. São felizes, vivem juntos com harmonia.

Depois de um mês, o genro levou as meninas para passar o fim de semana com a avó. Leonor contou que os pais discutem muito. O pai cozinha sopa, mas não sabe fazer mais nada. A mãe fica a pensar onde trabalhar.

No domingo, o genro quis que a Sara ficasse na aldeia, mas Amélia recusou:

Trabalho, o Estêvão também. As crianças devem viver com os pais. Podem vir visitar, mas cuidar é contigo. Tens filhos para ti, não para mim.

O genro e a filha ficaram aborrecidos, mas na semana seguinte as netas voltaram à casa da avó.

Só para o fim de semana explicou o genro, ficando também para matar saudades da comida da sogra.

Assim foi.

Uns acharão que Amélia foi dura com a filha. Outros dirão que foi justo. Cada um terá sua opinião, como sempre.

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