AMOR COM O AMARGOR DO ABSINTO

AMOR COM AMARGOR DE ABSINTO
O amor deles não era perfumado de rosas nem de mel, mas exalava o cheiro seco da poeira dos caminhos e dos ramos esmagados de absinto. Na aldeia de Trás-os-Montes diziam: se se unirem, o mundo desaba; se se afastarem, o mato arde até ao fim.
Rosinha era curandeira, terceira geração de mulheres de mãos sábias. Ela conhecia o murmúrio de cada erva e sabia fechar feridas que teimavam em não cicatrizar. As suas mãos eram quentes e cheiravam sempre a tomilho.
Artur, por sua vez, era forasteiro. Feiticeiro, cuja força nascia não do sussurro da terra mas de ordens bruscas aos elementos. A sua magia era tão afiada como uma faca, tão fria como a água das ribeiras na madrugada.
Encontraram-se numa noite enevoada, ambos à procura do mesmo: raiz de bruxa, que floresce uma vez a cada década.
Não toques nisso, a voz de Rosinha cortou o silêncio. Não é para as tuas mãos cobiçosas, feiticeiro. A terra dá essa raiz para curar, não para os teus encantamentos.
Curar é apenas adiar, curandeira, sorriu Artur, sem se virar. Quero ver o que está por trás de tudo.
Não se tornaram inimigos, mas também jamais foram amigos. Eram atraídos um pelo outro contra toda lógica e bom senso. Era um amor de confronto, o eterno debate entre criar e dominar.
Ela trazia-lhe mel silvestre e infusões de cidreira quando via que a magia começava a consumi-lo por dentro.
Ele deixava junto à porta dela pequenas pedras preciosas, onde o brilho das estrelas parecia guardar-se, para que não lhe faltasse luz nas longas noites de inverno.
Mas o amargor do absinto estava sempre presente. Rosinha via Artur retirar força do vazio, e isso assustava-a. Ele irritava-se com a suavidade dela, achando que ela desperdiçava o dom cuidando de gente ingrata.
Num dia, a aldeia foi tomada por uma epidemia. Não distinguia bons de maus.
Rosinha deu tudo de si, absorvendo febre como quem bebe a tempestade. E Artur pela primeira vez sentiu medo. Não do mundo, mas por ela.
Para salvá-la, teve de fazer aquilo que mais desprezava: entregar a própria força à terra, para que ela nutrisse a curandeira exausta.
Quando Rosinha abriu os olhos, Artur estava à janela. Pela primeira vez, o cabelo dele mostrava fios prateados; nas mãos já não cintilava fogo.
Porquê? sussurrou ela.
O absinto é amargo, Rosinha, respondeu ele, sem se virar. Mas sem esse amargor, não há doçura verdadeira só pó. Escolhi-te a ti, e não a eternidade.
Vivem juntos no limite da floresta. Ela cura, ele aprende a ouvir o murmúrio das ervas que antes calava com a sua vontade. O amor entre ambos permanece difícil, áspero e intenso, tal como o aroma do absinto ao entardecer. Mas nenhum troca essa amargura pelo mais delicioso mel do mundo.
Habitaram uma casa antiga, à beira da Mata Rasa lugar que nem os madeireiros nem as velhas da aldeia se atrevem a visitar.
Artur, sem poder convocar relâmpagos, descobre que pode sentir o metal. Tornou-se ferreiro. Mas não um qualquer forja facas que nunca perdem o fio e ferraduras que trazem fortuna. Cada martelada ecoa um pouco da raiva do passado, convertida em obra. E assim foi o seu destino.
Rosinha plantou um pequeno jardim, ali lado a lado crescem acónito venenoso e salvia medicinal. Já não teme a sombra de Artur, pois sabe: a terra mais fértil é escura.
O amor deles nunca foi de açúcar. Era a convivência de duas personalidades firmes, ajustando-se uma à outra como dois moinhos de granito.
Às vezes Artur, por instinto, tentava forçar as coisas com vontade. Quando a seca ameaçava destruir o jardim, passava horas sentado à porta, punhos cerrados, tentando arrancar uma gota de chuva do vazio.
Para, dizia Rosinha suavemente, pousando a mão no ombro dele. A terra não é escrava. Pede-lhe, não lhe ordenes.
Eu não sei pedir, resmungava ele.
Mas ao cair da noite, juntos, traziam água da nascente distante e nisso havia mais magia que em qualquer feitiço.
Sombras vinham à casa deles com frequência. Antigos discípulos de Artur, querendo recuperar o mestre perdido, ou enfermos que Rosinha não conseguia curar sozinha.
Um dia, chegou um velho rival de Artur feiticeiro envergando um manto negro.
Não veio para matar, mas para exigir o que Artur devia à magia. Queria a voz de Rosinha em troca de devolver a força de Artur.
Artur olhou para as mãos calejadas, depois para Rosinha, que naquele momento preparava uma infusão de absinto. Ela não pediu proteção; apenas olhou para ele com confiança infinita.
Força comprada com o silêncio da pessoa amada não é força, é servidão, disse Artur.
Não utilizou magia. Pegou apenas no pesado martelo de ferreiro e saiu para fora. Dizem que naquela noite a floresta tremeu não de encantamentos, mas de pura raiva humana de um homem a defender o lar. A sombra recuou.
Envelheceram de maneira bonita. Os cabelos de Rosinha ficaram brancos como as flores de cerejeira; a barba de Artur, grisalha como cinza arrefecida.
Dizem que, quando chegou o momento, não morreram separados. Simplesmente entraram juntos na floresta, durante a floração do absinto. Agora ali se erguem duas árvores: um robusto carvalho, cujas raízes se prendem ao veio de ferro, e um salgueiro flexível, enlaçando o seu tronco.
Se alguém colher uma folha desse salgueiro, sentirá nos lábios aquele amargor o amargor do amor verdadeiro, mais forte que qualquer magia.

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AMOR COM O AMARGOR DO ABSINTO
SEM ALMA… Cláudia Vasconcelos voltou para casa. Mesmo aos 68 anos, não abria mão de ir ao salão de cabeleireiro com frequência, cuidando do cabelo e das unhas, para se sentir melhor. — Claudinha, veio cá uma senhora que disse ser tua parente. Avisei que só ias chegar mais tarde, ela prometeu voltar — comunicou-lhe o marido, Jorge. — Parente? Já não tenho família. Deve ser uma “parente de sétimo grau”… provavelmente para pedir alguma coisa. Devias ter dito que fui para os confins do mundo! — respondeu Cláudia, aborrecida. — Ora, para quê mentir? Pareceu-me da tua família, alta e elegante, lembra até a tua mãe, que Deus a tenha. Não me parece que tenha vindo pedir nada. Muito distinta, bem vestida — tentou acalmá-la Jorge. Meia hora depois, a tal parente bateu à porta. Cláudia abriu. De facto, parecia-se com a falecida mãe, vestia-se com requinte: sobretudo caro, botas de couro, luvas, brincos com pequenos diamantes — em matéria de joias, Cláudia entendia bem. Sentaram-se à mesa já posta. — Vamos nos apresentar, já que somos parentes. Eu sou Cláudia, esqueça o formalismo dos sobrenomes, vejo que temos idades próximas. Este é o meu marido, Jorge. Por que lado da família és minha parente? — perguntou Cláudia. A mulher hesitou e corou ligeiramente. — Eu sou Galina… Galina Vilhena. Temos realmente pouca diferença de idade. Fiz 50 anos no dia 12 de junho. Reconhece essa data? — Cláudia empalideceu. — Vejo que se lembra. Sim, sou tua filha. Mas não se preocupe, não quero nada de ti. Só precisava ver minha mãe biológica. Passei a vida sem saber porquê a mãe nunca me amou. Aliás, já lá vão oito anos que partiu. Por que só o pai me amava? Ele também faleceu recentemente, há dois meses. No fim, contou-me sobre si. Pediu que a perdoasse, se possível — Galina falava emocionada. — Não entendo nada! Tens filha? — perguntou o marido, surpreso. — Parece que sim. Depois explico-te tudo — respondeu Cláudia. — Então és mesmo minha filha? Muito bem, já olhaste para mim? Se pensas que vou pedir desculpa ou me arrepender, enganas-te. Não tenho culpa nenhuma nisso! Espero que papá tenha explicado tudo. Se pensas que vais despertar sentimentos de mãe em mim, nem sonhes, nem um grama! Desculpa — — Posso voltar a visitar-vos? Moro aqui perto, numa casa grande de dois andares, porque não vens tu e o Jorge? Quero que se acostume ao facto de que existo. Trouxe fotos do teu neto e bisneta, talvez queiras ver? — pediu Galina, timidamente. — Não. Não quero. Não venhas. Esquece que existo. Adeus! — respondeu Cláudia friamente. Jorge chamou um táxi para Galina e foi acompanhá-la. Ao voltar, Cláudia já tinha tirado tudo da mesa e via televisão, tranquila. — Que sangue-frio! Deviam pôr-te a comandar exércitos, será que não tens mesmo alma? Sempre achei que eras fria, mas nunca pensei que fosse tanto — disse Jorge. — Conhecemo-nos quando eu tinha 28 anos, certo? Pois bem, a alma foi tirada de mim muito antes disso. Fui criada numa aldeia, sempre quis vir para a cidade. Era a melhor aluna e só eu entrei na faculdade. Aos 17 conheci o Vítor. Amava-o loucamente, era 12 anos mais velho. Depois de uma infância pobre, o mundo da cidade era um conto de fadas. Mal dava para comer com a bolsa. Vítor nunca me prometeu nada, mas estava certa que, com tanto amor, casaríamos. Quando me levou pela primeira vez à casa de campo, nem hesitei. Achei que, a partir dali, estava presa ao coração dele. Os encontros tornaram-se regulares. Logo notei que ia ser mãe. Disse a Vítor. Ficou feliz. Como a barriga cresceria, perguntei quando iríamos casar. Eu já tinha 18, podia ir ao registo. — Prometi-te casamento? — respondeu com outra pergunta. — Não prometi. Nem vou casar. Já sou casado… — disse, friamente. — E o bebé? E eu? — — E tu? És jovem, saudável, poderias ser escultura de uma rapariga robusta. Pedes licença da faculdade, estudas até não dar mais, depois, eu e a minha mulher levamos-te para casa. Não conseguimos ter filhos, a minha mulher é bem mais velha. Quando nascer, ficamos com ele. Como vai ser, não te interessa. Trabalho na câmara e ela dirige um serviço hospitalar, tudo seguro. Depois de parires, vais à faculdade, e ainda te pagamos. Na época, ninguém falava em maternidade de substituição. Provavelmente fui das primeiras “mães de aluguer” sem querer. E voltar à aldeia, envergonhar família? Morei na casa deles até o parto. Ela nunca entrou no quarto, talvez ciúmes. Tive a filha em casa, trouxeram uma parteira, tudo correto. Não amamentei, levaram-na logo — nunca mais a vi. Passada uma semana, conduziram-me à porta, Vítor deu-me dinheiro. Voltei à faculdade. Depois, trabalho na fábrica, deram-me um quarto no dormitório para famílias. Fui subindo até chefe de secção. Tive muitos amigos, mas ninguém quis casar até encontrares tu comigo. Já tinha 28, nem queria mais casar, mas era preciso. O resto sabes. Vivemos bem, sempre com o que precisávamos. Três carros, casa cheia, quinta cuidada, férias todos os anos. A fábrica sobreviveu aos anos 90 porque só ali fazem peças especiais para tratores. Ainda está cercada de arame farpado e torres de vigia. Reformámo-nos com benefício. Temos tudo. Não temos filhos, nem precisamos. Olha as crianças de hoje… — terminou Cláudia a sua confissão. — Vivemos mal. Amo-te. Passei a vida a tentar aquecer o teu coração, nunca consegui. Não é pelos filhos, mas nunca tiveste pena de ninguém, nem de um gatinho ou cãozinho. A minha irmã pediu ajuda para a sobrinha, não deixaste cá nem uma semana. Hoje veio cá a tua filha e como a recebeste? É tua filha! Sangue teu… É triste, se fôssemos mais novos, pedia o divórcio, mas agora é tarde. És fria como gelo — disse, revoltado, Jorge. Cláudia até se assustou, nunca o viu tão duro. Toda a sua vida calma foi virada pelo regresso da filha. Jorge mudou-se para a quinta, onde vive até hoje com três cães que recolheu da rua e vários gatos. Vai raramente a casa. Cláudia sabe que ele visita a filha Galina e já está íntimo dos netos e bisnetos. — Sempre foi despassarado, e assim ficou. Que viva como quiser — pensa Cláudia. Nunca sentiu vontade de conhecer melhor a filha, o neto, ou a bisneta. Viaja sozinha até à praia. Descansa, recupera-se e sente-se ótima.