O Sem-Abrigo

Olha, deixa-me contar-te a história da Leonor, que ficou sem ter para onde ir. A sério, nem um cantinho no mundo… Pensou Bom, posso passar uns dias na estação, mas e depois? De repente, lembrou-se de algo: A casa de campo! Como é que pude esquecer disso? Mas também, chamar aquilo de casa de campo era exagero Uma cabana meio caída, mas enfim, melhor ir lá que dormir na estação, pensou ela.
Entrou no comboio regional, encostou-se ao vidro gelado e fechou os olhos. Vieram-lhe à cabeça todas aquelas memórias recentes, tão pesadas Há dois anos perdeu os pais, ficou sozinha, sem ninguém. A faculdade era demasiado cara, teve de abandonar e procurar trabalho no mercado.
Depois de tanta luta, parecia que algo bom acontecia, conheceu o amor de verdade. O Tomás era um homem honesto, querido e simples. Dois meses depois casaram-se de forma muito discreta, só com os mais chegados.
Parecia que tudo ia melhorar, mas a vida trocou-lhes as voltas de novo. Tomás sugeriu vender o apartamento dos pais, bem no centro de Lisboa, para abrir um negócio próprio. Ele pintou tudo com tanta esperança que a Leonor não hesitou, pensava que era o caminho certo e que rapidamente iriam esquecer dificuldades financeiras. Quando estivermos bem, podemos pensar num bebé. Era tão bom ser mãe logo! sonhava ela.
Mas o negócio correu mal. Começaram a discutir por causa do dinheiro perdido e, de repente, o relacionamento desmoronou. Tomás trouxe outra mulher para casa e mostrou-lhe a porta, sem mais conversas. Primeiro pensou em chamar a polícia, mas acabou por perceber que não tinham nada contra ele, ela própria tinha vendido o apartamento e entregado todo o dinheiro ao Tomás…
***
Chegando à estação, Leonor caminhou sozinha pelo cais vazio. Era início de primavera, ainda ninguém ia para as casas de campo. O terreno estava cheio de ervas, tudo em ruína. Não faz mal, arranjo tudo e volta a ser o que era, pensou ela, embora soubesse que nada voltaria a ser igual.
Encontrou facilmente a chave debaixo da escada, mas a porta de madeira estava torta e não queria abrir. Tentou com todas as forças, mas foi impossível. Sentou-se no degrau e desatou a chorar.
De repente, viu fumo e ouviu barulho no terreno vizinho. Ficou tão feliz por saber que havia alguém, correu até lá.
Dona Rosa! Está aí? chamou Leonor.
Na varanda apareceu um homem idoso, com barba comprida e roupa gasta, mas limpa. Ele tinha acendido uma pequena fogueira e aquecia água numa caneca velha.
Quem é? Onde está a dona Rosa? perguntou a Leonor, recuando com medo.
Não tenha medo. Por favor não chame a polícia, não faço mal a ninguém. Não entro em casa, só vivo aqui no quintal…
Apesar de tudo, ele tinha uma voz calma e culta, típica de quem é educado.
É sem-abrigo? perguntou Leonor, sem filtro.
Sou, sim. Mas estou só de passagem, não se preocupe, não incomodo ninguém.
Como se chama?
Manuel.
E sobrenome? insistiu ela.
Sobrenome? ficou surpreendido o idoso. Rodrigues.
Leonor reparou bem no Manuel Rodrigues. A roupa era gasta, mas limpa, e ele estava asseado, no limite do possível.
Não sei a quem pedir ajuda suspirou ela.
O que aconteceu? perguntou ao jeito de quem se preocupa.
A porta está empenada Não consigo abrir.
Deixe-me tentar, se quiser ofereceu-se.
Muito obrigada! disse desesperada.
Enquanto o Manuel tentava abrir a porta, Leonor sentou-se e pensava no estranho: Quem sou eu para julgar ou desprezar alguém? No fundo, somos dois sem-abrigo parecidos.
Leonor, pode entrar! sorriu o Manuel, empurrando a porta. Tenciona ficar aqui esta noite?
Sim, claro! Onde mais iria? respondeu ela, surpreendida.
Tem aquecimento?
Deve haver um fogão a lenha disse, sem certeza do que dizia.
E lenha? perguntou ele.
Não sei murmurou ela.
Não faz mal. Entre, eu vou tratar disso afirmou o Manuel, saindo do quintal.
Leonor passou uma hora a limpar. Estava frio e húmido, nada acolhedor. Não sabia como iria sobreviver ali. Manuel voltou com alguma lenha, e Leonor sentiu uma alegria inesperada por ter alguém por perto.
Manuel limpou o fogão e pôs a lenha a arder. Em pouco tempo, a casa ficou quente.
Pronto! Sempre que precisar, vá colocando lenha, à noite pode apagar. O calor aguenta até de manhã explicou ele.
E o senhor, vai para outro quintal? perguntou Leonor.
Sim, não tem problema. Prefiro ficar por aqui, não quero ir para a cidade, é só tristeza e memórias más.
Espere, Manuel Rodrigues. Jantamos e tomamos um chá quente, e só depois é que vai disse Leonor, decidida.
Ele nem protestou, tirou o casaco e sentou-se perto do fogão.
Desculpe meter-me, mas não parece nada um sem-abrigo. Porquê viver assim? Onde está a família?
Manuel contou que foi professor no Instituto Politécnico toda a vida. Dedicou-se à ciência e ao ensino. Quando percebeu que envelheceu sozinho, já era tarde para mudar.
Há pouco mais de um ano, a sobrinha começou a visitá-lo. Dizia que cuidava dele se ele lhe desse o apartamento da herança. Manuel ficou feliz e concordou.
Depois, a Tatiana convenceu-o a vender o apartamento e comprar uma casa nos arredores, com jardim e uma pequena pérgula, já tinha visto um negócio ótimo. Ele aceitou, sempre sonhou com ar puro e sossego. Vendendo o apartamento, Tatiana sugeriu abrir uma conta bancária para guardar o dinheiro.
Manuel, sente-se ali, eu vou ao banco tratar de tudo. Levo o saco, nunca se sabe, pode haver alguém a seguir-nos sugeriu ela.
Ela entrou e desapareceu. Manuel esperou horas, um, dois, três… Tatiana nunca saiu. Quando entrou no banco, viu que havia uma porta de saída atrás. Tatiana desapareceu, fugiu com tudo.
No dia seguinte foi à morada dela, mas outra senhora explicou que Tatiana já não morava ali e vendera o apartamento há dois anos…
Uma história triste suspirou Manuel. Desde então, vivo na rua. Ainda não acredito que perdi tudo.
Sabe, pensei que era só eu Passei algo parecido contou Leonor, relatando tudo.
Olha, no teu caso é pior. És jovem, saíste da faculdade, ficaste sem casa Mas não percas a coragem, ainda tens tudo pela frente, há sempre solução tentou confortá-la.
Chega de tristeza. Vamos jantar! sorriu Leonor.
Ela reparou no apetite com que Manuel devorava massa com salsichas. Naquele instante teve pena dele. Via-se que era um homem solitário e vulnerável.
Que medo, acabar sozinho, sem ninguém, e ver que já não és necessário para ninguém, pensou ela.
Leonor, posso ajudar-te a voltares à faculdade. Tenho bons amigos lá, talvez consigas bolsa disse Manuel, de repente. Claro, não posso aparecer assim, mas posso escrever ao reitor, é meu amigo de longa data. Ele vai ajudar-te.
Obrigada, seria maravilhoso! ficou radiante.
Obrigado pelo jantar e pela companhia. Vou-me embora, já é tarde disse ele, levantando-se.
Espere, não vá. Não é justo, para onde vai? falou ela baixinho.
Não te preocupes, tenho um abrigo quente aqui ao lado. Amanhã venho ver-te prometeu, sorrindo.
Não vá para a rua. Tenho três quartos, escolha um, fique connosco. E, honestamente, tenho medo de ficar sozinha, aquele fogão deixa-me nervosa! Não me abandone, por favor.
Não te deixarei sozinha respondeu Manuel, com seriedade.
***
Passaram-se dois anos Leonor terminou os exames, ansiosa pelas férias de verão. Continuou a ir para a casa de campo nos fins de semana e nas pausas, mas vivia em Lisboa, no alojamento de estudantes.
Olá! disse feliz, abraçando o avô Manel.
Leonor! Meu tesouro! Porque não avisaste que vinhas? Ia buscar-te à estação. Então, correu bem? Manuel estava radiante.
Sim! Quase tudo com boas notas! sorriu ela. Trouxe bolo, põe o chá ao lume, vamos celebrar!
Leonor e Manuel Rodrigues tomaram chá e partilharam novidades.
Plantei videiras e ali vou construir uma pérgula. Vai ser tão acolhedor! contava ele.
Que ótimo! Olhe, esta casa é sua, faça o que quiser. Eu venho e vou riu-se ela.
Manuel já não era o mesmo homem. Tinha casa, tinha neta, Leonor. Ela também voltou a sorrir. Manuel tornou-se família, substituiu-lhe os pais e esteve ao lado nos piores momentos. Leonor sentia-se grata à vida por ter encontrado um avô que a amparou quando mais precisou.

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