A Filha Definhava, a Mãe Florescia Aquele outono em São Vicente foi agreste e triste. A chuva bati…

A filha definhava, a mãe florescia

Sabes, aquele outono em Oliveira das Flores foi mesmo daqueles frios de cortar, irritante, com um vento que parecia enfiar-se pelos buracos das janelas do posto de saúde desde manhãzinha. Eu lá estava, a passar os olhos pelas fichas dos pacientes, sentia só uma inquietação sabes quando o coração aperta, mas não há razão ao certo? Tudo calmo, ninguém doente a sério, mas uma angústia miudinha, como mosquitos a zunir antes da trovoada.

De repente, a porta rangeu não era daquelas aberturas leves, foi mesmo pesada. Na entrada, eis a Vera Figueiredo. Ah, Vera… Mulher com cinquenta e poucos, mas parece cada vez mais frágil, quase sem cor. O lenço cinzento torto, o casaco pendurado nos ombros finos como num cabide, olheiras tão fundas que quase parece carvão. E as mãos! Olha, estavam vermelhas, inchadas de lavar roupa na água gelada, tremiam, mexiam no botão do casaco.

Dona Isabel, murmurou, rouca. Dê-me qualquer coisa, sim? O coração parece que vai sair pela boca. E para a minha mãe umas gotas de calmante, por favor. Teve outro ataque esta noite, dormimos pouco…

Olhei para ela por cima dos óculos e senti logo um arrepio. Pensei: esta mulher está a gastar-se, não é vida, é sobrevivência. Parecia daqueles poços secos, com água só no fundo.

Senta-te, disse-lhe, a tirar o medidor de tensão. Como te deixaste chegar assim, Vera? Nem cor tens.

Não posso, Dona Isabel, nem se sentou, encostou-se à ombreira. A mãe está sozinha. E se lhe apetece água? Ou se a tensão sobe? Eu vou já. Só preciso dos remédios.

Dei-lhe os frascos, e ela agarrou-os com os dedos rígidos, mal conseguiu abrir a porta e lá foi ela. Só senti o vento gelado entrar, a varrer-me as pernas. Olhei pela janela Vera caminhava, curvada, pela lama na rua, e só pensei: Meu Deus, porque é que a vida lhe deu este fardo? Não é uma mãe, parece uma pedra atada ao pescoço.

A dona Matilde Figueiredo era daquelas senhoras grandes, voz potente. Sempre trabalhou no conselho da freguesia, adorava mandar. Mas mal se reformou, ficou presa à cama.

As pernas não me seguram. O coração vai parar! gritava.

Dez anos assim. Dez anos com Vera à volta dela, sempre a cuidar, sempre a correr.

No dia seguinte não aguentei, vesti o casaco e fui até à casa delas, fingindo que era para uma visita sabes como é. Entrei na casa, estava limpíssima, tapetes a cheirar fresco, e o aroma Não era cheiro a doença. Cheirava a bolos e couve estufada.

Matilde estava na cama, como rainha no trono. Almofadas por trás a dar apoio, a cara rosada, lisa, olhos brilhantes, atentos.

Oh, Dona Isabel! voz grave. Chegou, hein? Daquela desastrada ali nem ajuda espero! Digo-lhe: Vera, está-me a arder o peito. E ela: Espera mãe, vou já acabar de ordenhar a vaca. Parece que gosta mais da vaca do que da própria mãe!

Enquanto falava, Vera puxava um balde pesado, daqueles esmaltados, pernas trémulas, costas tortas. Deixa o balde e põe-se de joelhos a esfregar o chão. Sem uma palavra. Só dava para ouvir a respiração dela, quase a silvar.

Dona Matilde, disse-lhe, séria. Ao menos tens pena da tua filha… Olha que está a ficar transparente.

Pena? Matilde levantou-se um pouco nas almofadas. E quem tem pena de mim? Eu fiquei acordada a criá-la! Agora nem um copo dágua consigo pedir? Isto é o meu fado, Dona Isabel, esta doença… E ela, filha, que cumpra o seu dever!

Olhei para Matilde e vi logo: energia sobrava-lhe para três homens. O nome da sua doença era amor-próprio sem medida. Sugava a vida da Vera como aranha. E acredita tanto que está doente, que acaba por convencer toda a gente.

Vera, cabeça baixa, só esfrega o chão. Shhh-shhh, shhh-shhh… Esse som ainda me ecoa. Som de quem já perdeu toda esperança.

Passou um mês. O inverno bateu à porta, começou a cair o primeiro granizo, duro.

Uma noite estava eu a beber chá com bolachas, quando bum bum batem à janela, parece que vai deitar o vidro abaixo.

Abro era o Tiago, da casa ao lado, olhos arregalados.

Dona Isabel! Venha rápido! A tia Vera caiu no poço! Não consegue levantar!

Nunca corri tanto. Cheguei, Vera estava ali, caída na terra gelada, os baldes derramados, água a congelar já. Cara branca como neve, lábios azuis.

Juntamos forças, com alguns homens, levámos-na para dentro.

Matilde berrava do quarto:

Que barulho é este? Vera! Onde estás? Preciso da botija quente!

Inclinei-me sobre Vera, procurei o pulso era só um fio, quase nada. Chamámos a ambulância, levaram-na para o hospital. Infarte agudo.

Matilde ficou só.

Entrei no quarto dela. Estava sentada, olhos arregalados.

Onde está a Vera? Quem vai limpar a minha bacia? Quem faz o meu papas?

Vera está no hospital, disse-lhe, já sem paciência. Matilde, tu rebentaste com ela. Está a morrer!

Mentira! gritou. Ela fez de propósito! Só quer fugir! Deixar a mãe, egoísta!

Fiquei com nojo, amiga. Só não disse nada, porque sou enfermeira, sabes Dei-lhe um copo de água, os comprimidos, e fui embora. Pensei: Como é que vais sobreviver…?

Mas há sempre surpresa. No dia seguinte chega o autocarro à aldeia, desce dele a Leonor neta de Matilde, filha da Vera.

Leonor nunca foi bem vista por lá. Partiu para Lisboa assim que acabou a escola, nunca voltou. Diziam que era orgulhosa, não queria saber da terra. Vera sempre chorou por ela em silêncio, escreveu cartas, nunca respondeu.

Agora estava ali, casaco de pele, cabelo curto à moda, olhar firme, determinado. Não era parecida com a mãe nem com a avó.

Entrou logo por minha casa.

Como está a mãe? perguntou, seca.

Está mal. Em cuidados intensivos. O corpo não aguenta mais.

Leonor apertou os lábios, músculos tensos.

Vou falar com a avó.

O que se passou lá dentro, ninguém sabe. Passados dois dias, passo em frente à casa, ouço gritaria. Matilde berra, pensei logo: estão a matar a velha. Entrei a correr.

Cena de filme. Matilde sentada na cama, vermelha, braços no ar. Leonor à frente dela, calma como uma rocha, com um prato de sopa nas mãos.

Não vou comer isso! gritava a avó. Está sem sal! Está fria! Vera sempre me dava tudo quentinho! Onde está a minha filha?!

A tua filha está no hospital porque tu a destruíste, respondeu Leonor, pausada. Eu não sou a Vera. Não vou pôr sal. Não gostas? Não comes. Quando tiveres fome, comes.

Pousou o prato na mesa de cabeceira e saiu.

Água! gritou Matilde, furiosa Dá-me água, cruel! Estou a morrer!

Leonor parou na porta, virou-se:

Está lá o jarro. Está lá o copo. As mãos ainda funcionam? Força.

Achei que Matilde quase ia ter um ataque. Dez anos sem pegar num copo!

Dona Isabel! viu-me. Seja testemunha! Ela quer que eu morra à fome!

Leonor olhou para mim com aqueles olhos cinzentos e vi neles uma dor tão funda que deu vontade de chorar. Não era crueldade, era uma espécie de cirurgia limpar o pus, para salvar.

Durante duas semanas, Leonor domou a avó. Rigorosa.

Não levo a bacia. Tens a cadeira sanitária, não tens? Se te consegues sentar lá, também consegues mudar.

Trocar lençóis? Tens mãos.

Berra, e eu saio para a horta.

A aldeia falava: Vai acabar com a velha! cochichavam ao pé da fonte. Mas eu calava. Vi bem: Matilde começou a levantar-se!

Primeiro, só raiva. Depois, fome pegou na colher sozinha. Depois, quando Leonor não lhe dava água de propósito, vi-a levantar-se, agarrar-se à cama e ir até à mesa.

Um mês, talvez mais, e Vera regressou.

Foi Leonor que a trouxe de táxi. Vera ainda frágil, mas não parecia já só um fantasma. Entrou no braço da filha, com medo de voltar para casa, achava que ia ouvir de novo: Onde estiveste, preguiçosa? Dá-me chá.

Entraram na casa. Silêncio.

O quarto da mãe, vazio. Cama feita.

Vera com a mão ao peito:

Morreu?

Não, Leonor sorri. Está na cozinha.

Foram até lá, e lá estava Matilde. Sentada à mesa, de óculos, a descascar batata. Sozinha!

Quando viu Vera, pousou a faca.

Fez-se um silêncio tão estranho que até se ouviu o relógio. Tic-tac, tic-tac.

Vera encostou-se ao vão da porta, lágrimas a rolar.

Mãe levantaste-te

Matilde olhou para Vera, depois para Leonor. O olhar era diferente não zangada, mas confusa, como se acordasse depois de muitos anos.

Levanta-se mesmo, murmurou, sem veneno. Com esta capitã de saias.

Depois, baixinho:

Senta-te, Vera. Isto vai arrefecer.

Olhei para elas, novas e velhas, e pensei: Quanto tempo se perde nas manipulações e dramas. A vida não é rascunho só há uma. Por vezes, para salvar alguém, não é ajeitar-lhe a almofada, é tirá-la mesmo.

A primavera chegou. As águas limparam tudo, levaram a vida velha.

Maio em Oliveira das Flores, sabes como é? O ar tem um cheiro doce, a dar vontade de comer à colher. As noites azuladas, e os rouxinóis cantam tanto que até o coração dói.

Passava eu ao lado da casa dos Figueiredos. Portão novo, pintado. No jardim, tulipas vermelhas orgulho da Vera.

No quintal, mesa posta. Samovar lá, a brilhar ao sol do fim da tarde.

Três sentados.

Matilde na cadeira de rodas (ainda não anda grandes distâncias), mas segura a chávena, come bolacha. Lenço bonito, com fios dourados.

Leonor ao lado, a rir de algo, portátil no colo agora trabalha de casa.

E Vera Vera caminha no jardim. Não corre, nem está curvada anda, devagar, toca nos ramos das macieiras, cheira as flores brancas. A cara está calma, luminosa. As rugas mantêm-se, mas os olhos os olhos são vivos.

Vera viu-me, acena:

Dona Isabel! Venha tomar um chá! Abrimos o doce de groselha, aquele que gosta!

Entrei, o portão rangendo num som que já é de casa. Sentei-me com elas. Chá quente, cheiroso, a fumegar.

Sabe, Dona Isabel, disse Matilde, olhando o pôr do sol. Sempre pensei que o amor era fazer tudo por mim, receber tudo de mão beijada. Afinal, o amor é fazer-nos levantar, mesmo quando não há forças.

Vera abraçou-a por trás. Leonor pôs a mão sobre a da avó.

Ficámos ali, silêncio bom, só o grilo a cantar no canto da lareira, e uma vaca a mugir lá longe o rebanho a voltar.

Que maravilha, meu Deus. Paz, e a sensação de que agora tudo vai correr bem.

Olho para o posto de saúde, para as estradas poeirentas da aldeia, casas com janelas trabalhadas, e penso: não há lugar melhor do que o nosso, quando há harmonia em casa. Aqui, até o ar cura, e a terra faz crescer força se soubermos arrancar a erva daninha da maldade do coração.

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O meu marido não gostava do meu corpo cheio e deixou-me por uma mulher magra, mas cinco anos depois voltámos a encontrar-nos.