Quando tinha 23 anos, trabalhava como empregada de mesa num restaurante popular no centro de Lisboa….

Quando tinha 23 anos, trabalhava como empregada de mesa num restaurante famosíssimo no centro de Lisboa. Daqueles sítios sempre cheios, com menu barato, música alta e fila até à esquina na hora do almoço. Não tinha contrato, não tinha segurança social, não tinha nada. Recebia à diária. Se faltasse não pagavam. Se ficasse doente ninguém queria saber. Mesmo assim, era sempre a primeira a chegar e a última a sair. Decorava as comandas, aguentava clientes rudes, limpava mesas de barriga vazia e cansada, mas o dinheiro fazia falta.

No dia em que descobri que estava grávida, fiquei com medo. Não do bebé, mas da fossa do emprego. Decidi ser honesta. Entrei no gabinete da gerente, fechei a porta e disse:
“Estou grávida, mas quero continuar a trabalhar.”
Ela nem pestanejou. Olhou-me com um ar de gelo e atirou:
“Isto não é creche. Grávidas atrasam, adoecem, pedem licença. Eu preciso de gente produtiva.”
Tentei explicar-lhe que me sentia bem, que podia cumprir horários, que precisava do trabalho. Ela cortou logo:
“Faz-me um favor e entrega hoje o avental.”

Acabei o turno a chorar na casa de banho. Saí pela porta dos fundos, de uniforme na mão e um saco de plástico com as minhas coisas. Ninguém se despediu. Ninguém perguntou nada. Cheguei a casa, sentei-me na cama e pela primeira vez senti verdadeiro medo: como é que ia sustentar o meu filho?

Os meses seguintes foram os mais difíceis da minha vida. Limpei casas alheias, vendi marmelada, pastéis e bolos pelos cantos da cidade. Estava sozinha. Houve noites em que dormi sentada, com o bebé nos braços, porque nem berço tinha. Mas foi nessa altura que comecei a cozinhar a sério. Uma vizinha pediu-me almoço para o marido, depois outra para um escritório pequenino. Comecei com cinco almoços por dia, depois dez, depois vinte.

Com o tempo aluguei um espaço minúsculo com um fogão, duas mesas e um frigorífico mais velho que o Adamastor. Dei-lhe o meu nome Rita Silva. Passei a vender pequenos-almoços, menus de almoço, pastéis, sobremesas. Abria às seis da manhã e fechava às sete da noite. O trabalho era contínuo. O meu filho cresceu a ver-me trabalhar. Aos três já me ajudava a passar copos, a contar as moedas. Depois contratei uma ajudante. Depois outra.

Hoje tenho um pequeno negócio de refeições rápidas e eventos preparo pequenos-almoços para empresas, almoços de encomenda, catering modesto para aniversários e reuniões. Não sou rica, mas vivo tranquila. Pago renda, escola do miúdo, contas, e até consegui comprar equipamentos próprios.

Cinco anos depois, uma mulher entrou no meu estabelecimento e perguntou pela dona. Levantei os olhos e reconheci-a. Era a antiga gerente, aquela que me pôs porta fora por estar grávida. Eu estava diferente mais magra, vestida simples. Ela olhou-me surpreendida e perguntou:
“És tu a proprietária?”
Respondi:
“Sou.”
Sentou-se com nervosismo. Contou-me que o restaurante onde trabalhava já tinha fechado há mais de um ano. Que o negócio faliu. Que saltou de emprego em emprego, nada duradouro. Olhou-me nos olhos e disse:
“Preciso de trabalho. Estou em dificuldades. Sei que não nos despedimos bem, mas venho pedir uma oportunidade.”
Fiquei calada uns segundos e perguntei:
“Lembras-te do dia em que me despediste por estar grávida?”
Ela baixou os olhos. Disse “sim”. Admitiu que na altura só pensava no negócio, não nas pessoas. Disse-lhe que naquele dia me deixou sem chão com medo, barriga e sem explicação. Que nunca me deu uma oportunidade.

Ela pediu-me perdão. Não chorava, mas a voz dela estava quebrada. Contou-me que a vida lhe deu uma lição dura e que agora compreende mais do que nunca. Respirei fundo e disse que não guardava rancor, mas hoje o meu negócio tem outras regras. Que os meus funcionários têm horários definidos, respeito e dignidade. Que sei bem o que é trabalhar com fome.

No fim, ofereci-lhe um turno à experiência mas sob as minhas condições: pontualidade, respeito e zero humilhação a quem quer que seja. Ela aceitou. Saiu de olhos molhados.

Fiquei atrás do balcão, a olhar para a minha cozinha, as mesas, as panelas e o caminho que percorri até ali.
Não senti vontade de vingança. Só percebi que não sou pessoa que cura dores fazendo com que outros sofram.

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