Ora, se és assim tão esperta traduz! riu-se o diretor, atirando o contrato para as mãos da funcionária da limpeza. Uma semana depois, ele já estava a fazer as malas.
Inês olhava para a marca esborratada de uma bota no linóleo acabado de lavar. O cheiro a lixívia e sabonete barato subia-lhe à garganta. Aos trinta e dois anos, os últimos cinco da sua vida mediam-se por degraus esfregados e baldes cheios.
Almeida, adormeceste aí? A voz abrupta do diretor da Fábrica Metálica do Tejo, António Silva, soou-lhe como uma chapada. Daqui a dez minutos vêm cá uns alemães à sala de reuniões. Não quero ver um grão de pó.
Inês endireitou-se, calada. Há muito que se habituara a ser invisível. Ninguém, no edifício, sabia que debaixo da bata azul estava uma mulher que um dia sonhara ser advogada internacional, lia Goethe no original e fazia traduções académicas. A vida trocou-lhe as voltas com brutalidade: o enfarte da mãe, a cadeira de rodas, as contas da fisioterapia devoraram o apartamento e os sonhos. O alemão ficara esquecido, submerso por horários de turnos.
A sala de reuniões estava abafada. Sobre a mesa envernizada, polida por Inês há minutos, repousava uma pasta cara, de pele. Primeira folha: letras miúdas em alemão, idioma que já não ouvia há anos.
Vertrag über die Übertragung von Anteilen as palavras ganhavam significado. Inês ficou imóvel, lendo cada linha. Não era um simples contrato; era a sentença de morte da fábrica. António Silva transferia ativos de forma ilegal, deixando aos investidores uma empresa vazia, carregada de dívidas salariais.
Então, Almeida, reconheces as letras? Silva entrou, endireitando a gravata com pose de dono. Atrás, seguia o engenheiro-chefe, Sérgio Santos.
Inês não chegou a recuar; ergueu o olhar, e no reflexo dos olhos viu surgir um brilho de orgulho antigo, quase esquecido.
O contrato está mal, senhor António. No ponto doze. Os alemães assumem o controlo ao primeiro atraso no pagamento. Se assinar, daqui a um mês atiram-no para a rua.
Silva empalideceu, depois corou de raiva, sem responder. Olhou para Sérgio, esboçando um sorriso de escárnio.
Ouviste, Sérgio? Agora temos uma perita em direito internacional aqui nas limpezas. Olha para ela! Bata manchada, balde na mão mas conselhos não lhe faltam!
Aproximou-se, respirando-lhe o cheiro caro do perfume e do conhaque.
Vá, já que és tão inteligente traduz! riu-se o diretor, largando o contrato ao lado dela.
Quero ver isso traduzido e explicado em português até amanhã às oito da manhã, com as tuas correções. Se não, entregas o material e vais pedir esmola. O que vai ser da tua mãe sem medicamentos?
Sérgio desviou o olhar. Inês recolheu o dossiê, silenciosa. Pesava-lhe, como a própria vida.
Essa noite, Inês não dormiu. Sentada à mesa da cozinha, sob o candeeiro fraco, ouvia a mãe ressonar baixinho no quarto ao lado. À sua frente, o contrato e o velho dicionário da universidade.
Trabalhou como se estivesse possuída. Cada cláusula, cada artimanha jurídica, desmontava-a. Viu como Silva enganara todos, ocultando empréstimos acumulados em relatórios forjados.
Na manhã seguinte, não pegou na esfregona. Vestiu o único vestido decente que lhe restava preto, austero, guardado para emergências sociais.
Às oito em ponto, entrou no gabinete do diretor.
Aqui está a tradução, senhor António. E o meu conselho: não assine. Contém uma cláusula de responsabilidade pessoal sobre todos os seus bens.
Silva nem olhou para os papéis. Soprou o fumo do cigarro de luxo.
Vai lavar o chão, conselheira. Ainda não te despedi porque amanhã não tenho quem esfregue as escadas. Podes ir.
No dia seguinte, chegou a delegação. Era liderada pelo senhor Schneider, rosto inexpressivo como granito. As negociações decorreram à porta fechada, mas Inês, polindo rodapés no corredor, ouvia a voz de Silva fina e aguda.
De repente, a porta abriu-se. Schneider trazia na mão os documentos traduzidos por Inês.
Wer hat das geschrieben? perguntou, olhando à volta. Quem fez isto?
O tradutor oficial, um jovem pálido, ficou atrapalhado. Silva, suado, apareceu de rompante.
Isto não tem valor, senhor Schneider! A mulher da limpeza andou a brincar Vou despedir já esta incompetente!
Schneider gesticulou para o travar e foi ter com Inês, que segurava os panos de limpeza.
Foi você? perguntou em português com um sotaque arranhado.
Fui, respondeu Inês num alemão impecável. Se fosse a si, verificava o anexo quatro as dívidas não batem certo com a realidade.
Silva estremeceu de raiva, preparando-se para reagir, mas Schneider travou-o, firme.
Basta. Suspeitávamos de fraude. Esta análise técnica confirma o pior. Senhor Silva, os nossos advogados preparam um processo. O senhor não perde só o negócio. Perde tudo.
Depois fixou o olhar nas mãos gretadas de Inês.
Precisamos de alguém que conheça a fábrica por dentro e saiba de leis. Vamos nomear administração provisória. Aceita trabalhar connosco? Precisamos de uma auditoria jurídica honesta.
Inês olhou para Silva encostado à ombreira, prestes a colapsar. Os olhos perdiam o brilho do poder só restava o medo.
Aceito, disse, muito baixo.
Passou uma semana. O gabinete do diretor estava silencioso. Inês sentava-se à secretária onde, há pouco tempo, Silva atirava papéis. Vestia um fato novo, comprado com o primeiro adiantamento.
Bateram à porta, cautelosamente. Sérgio Santos, o engenheiro-chefe.
Dona Inês hesitou. O Silva veio buscar os pertences dele. Os seguranças não o deixam entrar sem autorização sua.
Inês atravessou o corredor. António Silva aguardava junto ao elevador com uma caixa de cartão estatuetas, um diploma emoldurado, uma garrafa de conhaque começada. Parecia dez anos mais velho, barba grisalha, fato disforme.
Olhou para ela sem raiva, só um desalento surdo.
Traduziste mesmo, murmurou. Estás satisfeita?
Só quis o melhor para a fábrica, senhor António. Que as pessoas recebam o salário, em vez dos seus bónus às custas do trabalho delas.
Acenou aos seguranças, que abriram passagem. Silva entrou no elevador. As portas fecharam-se, cortando-lhe o acesso ao mundo que julgara controlar.
Inês voltou ao gabinete. Espreitou pela janela para o pátio da fábrica. Lá em baixo, à entrada, uma nova funcionária de limpeza rapariga jovem, igual bata azul. Mexia desajeitada a esfregona sobre o mármore.
Sentiu dentro de si algo, apertado há tanto tempo, finalmente libertar-se. As pernas fraquejaram; deixou-se cair na cadeira. Não era uma vitória numa guerra; era apenas um regresso a si própria.
Pegou no telefone e marcou o número de casa.
Mãe? Sou eu. Sim, está tudo bem. Amanhã vai aí um médico verdadeiro, do centro. Não te preocupes. Vamos conseguir. Já não precisas de poupar nos remédios.
Inês pousou o telefone e olhou para os papéis. Havia muito para fazer. Mas agora era trabalho por que valia a pena respirar.






