Trouxemo-lo para casa para que pudesse partir em paz.
Era assim que estava escrito, em letras grandes carimbadas nos documentos do abrigo:
CUIDADOS PALIATIVOS.
Três semanas depois, aquele velho Golden Retriever passeava pelo corredor arrastando um ouriço de pelúcia como se fosse um troféu.
Foi nesse instante que percebemos porque antes mal se levantava.
Quando o telefone tocou do canil municipal em Lisboa, disseram apenas:
O cão é idoso. Precisa de pessoas que estejam ao lado dele e o tratem com carinho.
Nem eu nem a minha mulher hesitámos.
Tínhamos espaço.
Tínhamos tempo.
E casa parecia ter silêncio a mais, há demasiado tempo.
Chamava-se Baltasar.
Quinze anos. Um Golden com o focinho salpicado de branco, como se tivesse caído farinha.
Olhos apagados. Passos duros, presos. Anca cansada.
Na ficha, simples e seco: Cuidados Paliativos.
Os donos anteriores deixaram-no no canil porque era letárgico e mal se levantava.
Palavras meticulosas.
Gélidas.
Como se falassem de um electrodoméstico avariado, não de um ser vivo.
Preparámo-nos como quem se prepara para dizer adeus.
Estendemos tapetes para que não escorregasse no chão frio de pedra.
Pousámos um colchão baixo e macio junto à janela.
À noite, as luzes ficavam amenas, a televisão calada.
Até o café eu passava devagar, temendo que qualquer ruído o incomodasse.
Só queríamos oferecer-lhe um abrigo quente e quieto,
onde repousasse o cansaço,
o tempo que sobrasse.
Mas Baltasar não estava pronto para desistir.
Na primeira semana, dormiu quase sempre.
Um sono pesado o sono de quem finalmente entendeu que já não precisa ficar alerta.
De vez em quando abria apenas um olho, certificava-se de que estávamos por perto e dormia outra vez.
Como se dissesse: Eu não mexo, mas vejo-vos.
Na segunda semana, algo mudou.
Numa manhã, veio, devagar, atrás de mim até à cozinha.
Dois passos pausa.
Mais dois pausa.
Quando peguei na taça, a cauda dele mexeu ligeiro.
Não como um cachorro,
mas com verdade.
Baltasar entendeu: aquilo não era passageiro.
Não era uma transição.
Era casa.
Na terceira semana, renasceu o cão que fora um dia.
No canto da sala repousava um cesto cheio de brinquedos antigos das crianças.
Baltasar enfiou lá o nariz e tirou de lá um ouriço de pelúcia gasto, quase todo desfeito e com uma orelha caída.
Não era novo.
Nem bonito.
Mas agarrou-o com a boca macia, com o jeito só dos goldens,
e nunca mais largou.
Foi nesse momento que desapareceu o cão que estava a acabar.
Aquele que já não conseguia levantar-se, começou a andar. Lento sim.
Mas a andar.
Desfilava pelo corredor com o ouriço nos dentes, a cauda a bater nas portas,
como se tivesse acabado de ganhar prémio na feira da vila.
Aquele que dormia demais passou a acordar-nos às seis da manhã.
Nariz molhado na palma da mão.
Ouriço na boca.
Sem ladrar. Sem pedir nada.
Só: Estou aqui. Tenho fome. E, talvez eu queira mais um dia.
À noite enrola-se no colchão, brinquedo junto ao queixo.
E se me levanto, ele abre o olho.
Não por medo.
Só para saber que continuamos ali.
Foi aí que me caiu uma verdade simples, dolorosamente honesta.
O Baltasar não morria de velho.
Morria de ter sido deixado para trás.
Estava exausto do chão frio.
Exausto de chamar e ninguém escutar.
De sentir-se peso morto.
Às vezes, um cão pára de se levantar não por não poder,
mas por já não ter para quem.
Hoje Baltasar continua com os seus quinze anos.
E está bem naquele jeito terno e desajeitado com que os velhos voltam a permitir-se viver.
É exímio a roubar comida da mesa.
Faz as suas corridas trapalhonas no terraço: duas voltas e pára,
satisfeito como se corresse a maratona de Lisboa.
E o tal ouriço sujo, remendado, caricato não larga por nada.
Devíamos ser apenas temporários.
Aqueles que o acompanhavam até ao fim.
Falhámos por completo nessa missão.
Mas fizemos algo melhor:
Demos a um velho cão uma razão para ficar.
E ele, sem dizer uma só palavra, ensinou-nos:
às vezes o amor não serve para suavizar o fim.
Às vezes, acende de novo o princípio. E agora, todas as manhãs, antes do mundo acordar, ouvimos as patinhas de Baltasar passarem ligeiras pelo corredor, marcando o compasso suave da persistência. Já não é silêncio a mais, nem medo do fim é casa cheia de passos, de respiração leve e daquele olhar curioso de quem desafia o tempo, como se dissesse: Enquanto houver amor, ainda não é a última volta. Porque, no fundo, há vidas inteiras que começam outra vez, mesmo quando todos já tinham decidido acabar.







