A Caixa das Promessas Esquecidas Há algum tempo, Vera começou a suspeitar que, além dela e do marid…

A CAIXA DAS PROMESSAS ESQUECIDAS

Há algum tempo, Inês começou a desconfiar de que, lá em casa, além dela e do marido, havia mais alguém a viver. Não, não era um fantasma. Fantasmas, na opinião dela, eram seres sérios: se apareciam, era por algum motivo grave, não para se meterem em insignificâncias.

O que se passava era pura arrumação doméstica. Como se tivessem duende caseiro.
Primeiro, desapareceram meias de desporto. Uma de cada vez, claro. Se fosse na máquina de lavar, nem estranhava qualquer dona de casa sabe que às vezes acontece. Mas estas, brancas com uma risca vermelha, que ela costumava usar para o ginásio, estavam sempre ali à vista na gaveta. Era como se a censurassem: “E então, quando foi a última vez que nos calçaste?”

Subitamente, já lá não estavam. Primeiro uma, no dia seguinte a outra.
Apareceram uma semana depois. No mesmo sítio. Enroladas como caracóis. E por cima, um pedaço de papel acinzentado com letras impressas, um pouco tortas:

“Deixaste-nos esquecidas durante 127 dias. Nós contámos.”

Foste tu? atacou ela o marido, que folheava notícias no telemóvel na maior das calmas. Andas a dar-me indiretas sobre apanhar-me mais gorda e ir ao ginásio?

Ele olhou-a sem entender e negou categoricamente.

Não foste, pronto… encolheu os ombros Inês, embora não acreditasse totalmente. O Rui era conhecido por pregar partidas.

Depois, desapareceu a mola preferida para o cabelo aquela que ela deixava sempre em cima do espelho no hall. E o batom caro, para ocasiões especiais, perdido dentro da carteira.

Encontrou-os no armário da cozinha, entre caixas de arroz e pacotes de massa. Também com bilhetinhos.

Na mola:

“Decide-te queres cabelo curto ou comprido? Estou farta de ficar esquecida durante meses só para depois sentires a minha falta.”

No batom:

“E o tal ‘momento especial’, foi quando mesmo? Estou a secar de tanto esperar…”

Isto já não tem piada! sibilou Inês, sacudindo o Rui, que adormecera no sofá à espera do almoço.

Estás bem da cabeça? indignou-se ele. Acreditas mesmo que fazia uma coisa dessas?

Não era parvo, o Rui, e Inês começou a ficar inquieta.

Tentou memorizar onde deixava cada coisa, chegava a voltar atrás e verificar tudo outra vez. Até foi ao médico. Depois das análises, o médico de família, já de certa idade, disse-lhe que tinha melhor memória do que ele.

Mas os desaparecimentos continuaram.

Canetas favoritas. Camisa às riscas. O creme de mãos.

E, para culminar, o molho de chaves da casa de campo. Daqueles casos em que o Rui andou a bufar uma semana seguida.

Inês ficou nervosa: dormia mal, assustava-se com qualquer ruído, mudava constantemente o telemóvel, as chaves e a carteira de sítio.

Mas naquele sábado tudo tomou um rumo ainda mais estranho.

Decidiu aproveitar o dia para organizar o closet tarefa adiada há demasiado tempo. E, dentro de uma caixa de botas vazia, deu de caras com todos os objetos desaparecidos. Arrumadinhos, como numa montra de loja de velharias.

A camisa abraçada a uma saia plissada curta. Bilhete:

“Será que ainda sabes dançar?”

As canetas, alinhadas por cor:

“Mastigas-nos sempre que estás nervosa. Ficámos fartas deste stress todo.”

As chaves, seguras por um porta-chaves, como quem dá as mãos:

“Ficámos simplesmente aborrecidas com tanto abandono há meses que ninguém vai ao campo. Mas, ao contrário de certas pessoas, voltámos por nós mesmas.”

Inês ficou atónita.

Aqueles recados tinham algo de sarcástico, uma sabedoria pequenina com um fundo de tristeza como se ela mesma os tivesse escrito, numa outra vida em que houvesse tempo até para conversar com os objetos.

Estava já a fechar a caixa, quando reparou noutro quadradinho cinzento lá no fundo. Sem objeto preso. Só um bilhete.

As letras tremiam e estavam um pouco borradas, como se tivessem lágrimas:

“Prometeste àquela menina do espelho que ias ser pintora.
Eu sou essa menina.
E sinto-me muito sozinha nesta caixa de promessas esquecidas e sonhos por cumprir.”

Inês ficou muito tempo sentada no chão do closet, encostada às prateleiras cheias, a recordar.

Recordou-se do jardim de infância, a desenhar com a língua de fora casas, sol, pai, mãe, e a irmã, tudo com marcadores.

Recordou-se das aulas de Educação Visual, o prazer de ver a aguarela espalhar-se suavemente na folha molhada.

Do cheiro das tintas a óleo no ateliê. O silêncio do museu. Cada pincelada como se fosse uma melodia. As explicações vibrantes da guia.

Primeiro, achava que essa seria a sua vida.

Depois um passatempo. Um escape.

Depois…

Nada.

Não foi por falta de tempo. Simplesmente foi sempre adiando, cada vez arranjando algo mais urgente e importante, até que aquela sensação quente de antecipação também se foi tão sem deixar rasto quanto as meias, as canetas, as chaves.

Passou o dedo pelo último bilhete.

Quase parecia que o papel estava vivo mais quente do que os outros, a vibrar ligeiramente. Ou talvez fossem as suas mãos que tremiam.

Será mesmo que uma ida extra ao centro comercial ou mais um policial valem mais do que um sonho?

Naquela noite, Inês rebolou na cama sem conseguir dormir. Às duas da manhã, suspirou e saiu debaixo dos lençóis.

Vais aonde? murmurou Rui, meio acordado.

Dorme, dorme… balbuciou ela.

Lá para os lados das caixas no closet, ainda tenho as tintas antigas, pensou Inês, e ao passar pelo espelho do hall, apanhou o olhar daquela menina. Assustado. Mas com esperança.

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