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Escolha

Afinal, o Ricardo é casadíssimo… suspirava Beatriz, sentada num banco do Jardim da Estrela, apertando no bolso a guia para a consulta.
As colegas do quarto na residência invejavam-na sempre que a viam acompanhada por aquele moreno irresistível, bem barbeado e de olhos claros, achavam que ela tinha dado o golpe de sorte com tal cavalheiro. Inveja para quê, perguntava-se agora.
Beatriz estremeceu ao lembrar-se do primeiro e último encontro com a esposa do Ricardo, que a apanhou à porta da fábrica para pôr os pontos nos is.
Então olá! Beatriz, certo? começou a mulher.
Desculpe, quem é você? perguntou, tensa ao encarar aquela mulher esguia, com cabelo louro platinado digno de cabeleireiro caro.
Sou eu, Patrícia. A mulher do Ricardo Cruz.
Como?
Ouviste bem.
Mais uma ingénua disse, sem alterar o tom. Quantas já passaram por ele? Nem dá para contar nos dedos das mãos e dos pés.
Olhe que está a passar dos limites…
Sou eu que passo dos limites? Patrícia agarrou-lhe o braço, num misto de ternura e ameaça. Eu sou a esposa, vi-te com o meu marido e ainda tens coragem de me enfrentar, em vez de desaparecer de vergonha? Esse papel é para quem tem decência, mas não é o teu caso.
Vê lá tu, já perdi a conta às aventuras dele. Achas que és especial? Só mais um caso, menina! Uma distração para ele. Depois nem te conhece! Mantém-te longe.
Aliás, temos duas filhas. Se quiseres, mostro-te uma foto da família. Patrícia sacou do telemóvel e mostrou um retrato tirado no Algarve duas semanas antes. Olha, que bela família.
E o que quer de mim? Resolva lá com o seu homem.
Já tratei disso, descansa. Ele entrou há pouco para esta fábrica, tem bom salário e tu vieste só atrapalhar.
Larga isso. Nem penses. O Ricardo não vai divorciar-se. Não percas tempo à toa. Que idade tens tu? Trinta?
Vinte e cinco! protestou Beatriz, ofendida.
Vês então? Tens tempo para casar e fazer a tua vida. O Ricardo deixa-o estar quieto.
Beatriz já não quis ouvir mais. Saiu dali a tremer, como se tivessem roubado todo o calor do mundo, com a mulher do namorado a varrer as ilusões cor-de-rosa dos últimos meses.
Traidor… murmurava Beatriz, o nó na garganta crescendo. Mas não choraria ali, com medo dos boatos no trabalho.
À noite, Ricardo chegou a casa dela como se nada fosse, flores na mão. Beatriz, olhos inchados, pôs-no na rua apesar das juras de amor eterno e das promessas de divórcio (supostamente ele já nem falava com a mulher).
Duas semanas custou-lhe a recompor-se. Ricardo nunca mais a incomodou. Passaram a cruzar-se sem troca de palavras.
Nunca vem só uma desgraça… O enjoo matinal e as tonturas, achava ela que eram só nervos. Mas não: a paixão ingénua deu frutos.
Seis semanas , soava a sentença.
Beatriz não queria ser mãe solteira. Apavorava-se. Parecia que toda a gente sabia, agora a fitá-la com desconfiança. Confiou em quem não devia, não suspeitara nem por um momento que um tipo daqueles escondesse o estado civil. Pediu-lhe o bilhete de identidade? Não. Ele andava sem aliança não é toda a gente casada que usa.
Por que não suspeitara quanto ao segredo sobre a relação deles no trabalho? Ele enganou-a, mas ela sentia-se ainda pior por ter sido apanhada desprevenida e para piorar, já toda a firma murmurava sobre a aparição da Patrícia.
Estou grávida murmurou Beatriz à hora de almoço ao ex-namorado, sentindo-se encurralada.
Dou-te dinheiro. Arranja uma solução atirou-lhe ele, seco.
No dia seguinte, Ricardo desapareceu da fábrica e da vida dela.
Beatriz, não querendo arrastar mais aquilo, apanhou a guia e decidiu avançar com a tal solução, apesar dos avisos da médica.
Lá estava ela, no banco do jardim, a apertar o papel como se fosse uma bóia de salvação.
Está com pressa? perguntou um tipo de fato, caindo pesadamente ao lado dela com um ramalhete enorme de crisântemos cor-de-vinho.
Como? olhou para ele, olhos mortos.
O seu relógio está adiantado. Sorriu, apontando para o relógio dourado que ela usava.
Está sempre dez minutos à frente… Ando sempre a acertar, mas nunca acerto nada. Respondeu sem emoção, olhando para o lado.
Que dia maravilhoso, não acha? Que outono lindo! A minha mãe diz sempre que um dia assim é feito para se tomar boas decisões e não se arrepender depois.
E sabe? continuava ele, desfiando conversa, a minha mãe é a maior! E fez o gesto do polegar. Devo-lhe tudo.
E o seu pai? saiu-lhe, sem querer.
Sobre ele… a minha mãe nunca fala. E nem faço perguntas, nota-se que não lhe traz boas recordações.
Venho duma entrevista, acredita? Escolheram-me de entre dez para um lugar top numa empresa. Logo eu, que nem experiência tenho.
Quem me pôs esta confiança? A minha mãe.
E a primeira coisa que vou fazer com o ordenado? Comprar uma viagem ao Algarve para ela. Nunca viu o mar!
E você, conhece?
Nunca fui. Beatriz olhou para o rapaz reparou no laço vinho do fato.
O moço, visivelmente feliz, sorriu.
Presente da minha mãe. Passou a mão pelo tecido, atento ao olhar dela.
Se calhar já lhe aborreci com isto tudo, mas está cá de uma cara… apeteceu-me fazer conversa. Só achei que precisava de ouvir alguém. Fui chato?
Beatriz abanou a cabeça, em silêncio. Aquele estranho, longe de a irritar, puxou-a das profundezas sombrias dos seus pensamentos. O amor dele pela mãe, isso sim, era admirável.
Que entrega, pensava ela agora, observando-o. Que sorte, aquela mãe… Assim tivesse eu um filho assim…
Bem, vou andando. Mamã está à minha espera. Mas não se despache!
O quê?
Falava era do seu relógio, veja lá.
Ah respondeu, com um leve sorriso.
Passados minutos, ele foi-se embora. Beatriz olhou o papel na mão, antes tão temido, e rasgou-o devagar.
Ficou ainda ali por muito tempo, a respirar o ar de outono, apanhando sol.
No coração, um alívio leve, quente, graças a um estranho que, sem saber, lhe devolveu a vontade de viver.
Não estava, afinal, sozinha. Aquela mulher criou e educou um bom filho sozinha e todo o tempo Beatriz nunca pensou em perguntar o nome do rapaz, agora percebeu que isso pouco importava…
Estava feito o seu caminho.

***
Vinte e três anos depois…

Mãe, estou a ir! Luís estava ao espelho e ela ajeitava-lhe o laço vinho do novo fato, escolhido para a entrevista importante.
Deixa lá isso, rapaz.
Dá-me confiança, mãe. Vai correr bem. De certeza. Olha-me agora! disse ela, afastando-se e admirando o filho como só as mães sabem fazer.
Fico nervosa. E se…
É o teu lugar. Confia em ti, responde com calma e sorri sempre. És irresistível!
Está bem, mãe. Luís deu-lhe um beijinho e saiu a correr escadas abaixo.
Beatriz, à janela, viu o filho a sair de casa com energia.
De repente, sentiu uma descarga.
Já tinha vivido aquilo…
O rapaz do jardim, há mais de vinte anos…
O Luís, de fato, era igualzinho!
Tanto tempo esquecido e aquele momento renascia na memória, como se a vida lhe piscasse o olho e dissesse: viste?
Teria sido o destino a mostrar-lhe, tantos anos antes, de quem ela quase abriu mão? Que escolha estranha e certa, no fundo.
Mas, enfim, o nome da mãe do rapaz, saber ou não, já não importa.
Tudo correu bem. Muito bem até.
Ao fim do dia, Luís voltou, um enorme ramo de crisântemos vinho igual ao laço, e anunciou que ficara com o emprego.
E prometeu logo: Mãe, vamos finalmente ao Algarve! Chegou a tua vez.
Agora era o Luís, homem adulto, a prometer fazer tudo por ela. Por aquele filho, Beatriz deslocaria montanhas, mudava rios de sítio. Tal é o filho que teve.
A vida não foi só fácil, mas quando encostava o nariz ao cabelo dele, tudo melhorava.
Aguentaram tudo. Nunca desistiram.
Beatriz nunca se arrependeu de ter tido o filho. Fez well feito. Tal era para ser.

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