Não Quero

Não Quero

Já chega tudo estar sempre comigo! O que mais querem? indignou-se Mariana.

O marido nada respondeu. Preferiu, como sempre, meter a cabeça na areia, esperando que, por milagre, tudo se resolvesse sozinho. Mas raramente se resolvia assim. Quase sempre, era Mariana quem tomava as rédeas e punha ordem nas confusões. Trabalhava remotamente de casa, no computador. O horário era flexível. Inicialmente, o salário era modesto, mas Mariana investiu na sua formação e, com o tempo, passou a ganhar bem mais do que o marido. Era com o dinheiro dela que pagavam a prestação do carro, as férias, eletrodomésticos e roupas. Depois chegou a licença de maternidade. Mariana, sem nunca abrandar demasiado, levou a gravidez até ao fim e trouxe um filho ao mundo. Andava exausta, mas não queria de modo nenhum abdicar de um bom rendimento.

O pequeno foi para a creche. Sentiu algum alívio, e, feliz por poder respirar, atirou-se ainda com mais afinco ao trabalho. Agora, era também preciso pagar a creche, mas não era uma instituição qualquer. Mariana escolheu com todo o rigor, queria o melhor para o seu filho. O marido, Miguel, como noutras decisões, confiava plenamente nela.

Viviam num T2 recebido por Mariana da avó. Miguel não tinha casa própria. Antes do casamento, morava com a mãe, Dona Alice, e a sobrinha Leonor, filha da irmã mais velha. Essa irmã tinha falecido há três anos, um vazio doloroso. Isso abalou profundamente Dona Alice; a saúde dela nunca mais foi a mesma, e a tensão estava sempre nos píncaros.

Quando Miguel casou com Mariana e saiu de casa, Leonor já frequentava a universidade e era bastante autónoma. Tinha a sua vida, as suas amigas, fazia viagens, conhecia rapazes, não se privava de nada e praticamente não aparecia em casa.

Dona Alice recorria ao filho para tudo, mas quem resolvia mesmo os problemas era Mariana. Os outros, sinceramente, serviam de pouco. Só que para Leonor, a neta, Dona Alice nunca se esquecia de ajudar: custeava-lhe todos os caprichos, sempre justificando que era órfã, que a filha de Alice a criara sozinha num contexto difícil, que preferia esquecer. E compreendia-se: não era fácil.

Foram levando assim, até ao dia em que Dona Alice ficou internada. Uma crise de tensão séria, consequências pesadas. Ficou acamada. Três semanas de hospital deram-lhe alguma estabilidade, mas o prognóstico continuou reservado.

Miguel, como sempre, afastou-se das decisões, deixando tudo às mãos de Mariana.

As mulheres é que lidam melhor com estas coisas disse ele, encolhendo os ombros.

Que coisas? perguntou Mariana.

Sabes, tomar conta dos doentes, reabilitação murmurou Miguel, coçando a cabeça.

Sou designer, não sou enfermeira. Não percebo mais do que tu suspirou Mariana. Enfim. Vou ao hospital ver o que o médico diz.

A relação da nora e da sogra era, no melhor dos dias, diplomática. Chegaram a discutir feio no início, mas, estando cada uma na sua casa, mantinham as diferenças engolidas. Mariana respeitava Dona Alice por cortesia, e Dona Alice tolerava a nora sabendo que era uma excelente mulher para Miguel e que dificilmente ele encontraria melhor. Além disso, era claro: o rendimento da casa vinha do esforço da nora, já que o filho não era grande sustentáculo.

A sogra só via o neto de vez em quando; ou tinha crise de tensão, ou dores de cabeça e, curiosamente, sempre que havia oportunidade de ajudar com a criança. Mariana, por isso, nunca contou com ela.

Agora, esperava-se é que Mariana cuidasse de Dona Alice. Foi ela que a foi buscar ao hospital (afinal, já que trabalha em casa, pode ausentar-se, ao contrário de Miguel). E mudaram-se, como família, para casa da Dona Alice para prestar auxílio.

Três semanas depois, Mariana estava com um ar de quem tinha estado doente. Conseguia, não se sabe como, dar conta do trabalho e cuidar da sogra: fazia caldos, passava legumes e frutas, dava-lhe à boca, lavava-a, virava-a na cama.

Leonor, a neta, sempre discretamente desaparecia para o quarto e só saía de madrugada, como quem não quisesse ser chamada a ajudar. E depois universidade. E depois passeios. A vida segue; a avó, coitada, não era com ela.

O marido também pouco colaborava. Mariana apelava ao coração dele:

É a tua mãe! Ajuda-me. Sozinha não consigo!

Eu não sei isso são coisas de mulheres dizia Miguel, encolhendo-se. Fui ao supermercado, comprei o que era preciso. O que mais queres?

Eram coisas de mulheres: Dona Alice não melhorava, resmungava, azedava com Mariana, com o filho, com todos à volta. Fazia birras, e dizia coisas que Mariana nunca esperaria ouvir. A sogra repetia que Mariana tinha tido sorte em conseguir um bom emprego, em trabalhar de casa e ganhar tanto. Enquanto Miguel tinha sido, coitadinho, vítima do destino; maus professores, não entrou na universidade à primeira. Ela própria endividara-se a pagar os estudos dele, que eram um suplício pois Miguel fazia tudo menos estudar. Só tirou o curso à rasquinha, pago a muito custo. Culpa da escola, dos professores. E a filha mais velha que falecera, tantas provações Graças a Deus, Leonor entrou na universidade por mérito, no público, e isso, segundo a avó, era uma prova do peso dos bons e maus professores. Leonor andara numa escola de referência, paga pela mãe.

Mariana ouvia isso tudo pela enésima vez. Estava esgotada. Toda a gente era extraordinária, menos ela. A ela, só lhe tinha calhado sorte.

Sorte, pois… especialmente com o marido, pensava Mariana amarga, que raio de escolha a minha Ultimamente pensava nisso demasiadas vezes.

A certa altura sugeriu a Miguel contratar uma cuidadora profissional e voltarem para o seu apartamento.

Cuidadora?! admirou-se o marido. Isso é caro Eu não consigo pagar Vê tu. Se queres mesmo, contrata e paga tu.

Havia muito que tinham acordado: ele pagava as contas da casa e comprava o básico. Mariana, tudo o resto. E, claro, a cuidadora teria de ser paga por ela. É óbvio, revoltou-se. Mas o tom dele! Acham que sou obrigada a tudo? Quero viver! Agora mal existo, sou só uma sombra… Num dado dia, sentiu que não aguentava mais. Numa tarde, dizendo à sogra que ia só ao supermercado, escapou-se de mansinho, foi à creche buscar o filho, e regressou ao seu lar, os dois sozinhos.

Que maravilha…, pensava Mariana, deitada na sua enorme cama de casal, olhando o teto, Estou em casa! Não quero nada. Só descansar. Que cansaço…

Chamou o filho, Martim, para jantar. Enquanto comiam, pensava na certa aflição que reinava agora na casa de Dona Alice. Mas não a deixara desamparada: deixou-a alimentada, mudada, e dentro de uma hora Miguel já teria chegado. Escreveu um bilhete ao marido, dizendo que não queria nem podia mais continuar assim. Que saía. A Dona Alice, desejou as melhoras e pediu que não lhe guardasse rancor. Desligou o telefone.

O marido chegou nessa noite. Mariana não o deixou sequer entrar. Falaram à porta. Nem havia muito que dizer. Miguel não se preocupava com ela, nem com o que sentia. Não disse nada sobre amor à Mariana nem ao filho. Só queria saber como iria fazer sem ela.

O melhor é contratares uma cuidadora. O cuidado profissional é melhor, acredita sugeriu Mariana. E, olha, vou avançar com o divórcio. Não quero ser a besta de carga de toda a família. Adeus.

Miguel saiu, sem resposta. Mariana, depois, ligou o telefone podia precisar para o trabalho.

Dona Alice ligou-lhe. Pedia-lhe para voltar, para não abandonar nem ela nem o Miguelzinho. Pedia desculpa, mas no tom ainda se sentia um certo desdém, como quem diz vá, despacha lá isso e volta aos teus deveres.

Mariana explicou que não era obrigada a nada. Que Dona Alice tinha um filho e uma neta dedicada. Que estava na altura de serem eles a ajudar como deviam, pois tinham-lhe ficado a dever muito. A sogra desligou abruptamente.

O divórcio aconteceu.

E assim, inesperadamente, Mariana ficou solteira. E percebeu, com espanto, que quase nada mudou. Sempre se habituara a fazer tudo sozinha só que agora tinha menos preocupações. Agradeceu ao destino por lhe abrir os olhos quanto àqueles que, supostamente, lhe eram próximos.

Dona Alice, com o tempo, melhorou. Uma enfermeira cuidadora fez toda a diferença: cuidados atentos, exercícios de reabilitação, empenho. Miguel, afinal, arranjou um extra (afinal, dava, quem diria, sorriu Mariana ao saber por Leonor, a quem encontrou no supermercado) e conseguiu pagar a cuidadora. Antes disso, foi a própria Leonor que ajudou. Cuidou, alimentou, sempre soube fazer tudo só não o mostrava antes.

E ficou tudo bem.

Acabou por ser o melhor para todos, pensava Mariana, cumprindo outro projeto ao computador. Despachei-os todos das minhas costas. E ganhei juízo: nunca mais deixo que me usem assim.

Na vida, é preciso lembrar que cuidar dos outros começa, também, por cuidar de si. E nunca devemos esquecer o nosso próprio valor.

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