Para que é que um rapaz tão bonito e bem-sucedido como eu há de querer casar-se? – ponderava ele. – Quando é que finalmente vamos ter netos? – pensavam os pais.

Para que há de casar-se um rapaz tão bonito e bem-sucedido como eu? pensava ele. Quando será que teremos netos? perguntavam os pais.

O Tiago levou a amiga a casa e regressou ao seu apartamento em Lisboa.

Preparou uns ovos mexidos com presunto. Sentado à mesa, ligou o telemóvel, desligado durante toda a noite, e foi ver as chamadas não atendidas.

A mãe ligou murmurou Tiago. Deve ser para ralhar, a dizer que eu sou um desgraçado

Desgraçado, de facto, Tiago não era. Tinha um bom emprego, um T2 em Lisboa e um carro que atestava o contrário. Mas já ia nos vinte e cinco anos, e continuava solteiro.

Para que hei-de eu casar, sendo tão charmoso e bem posto? voltava ele a pensar.

Quando é que teremos netos? suspiravam os pais lá na aldeia.

Tiago marcou o número da mãe:

Bom dia, mãe! Estás boa? perguntou ele.

Está tudo bem comigo.

E o pai?

O teu pai também está. Mas podias cá vir ver-nos. São só trinta minutos de carro e já nem nos vemos há meses. Teu pai vai lavrar o quintal, e está na altura de plantar as batatas.

Ó mãe, hoje não consigo. No próximo fim de semana vou, prometo.

E já prometeste tantas vezes. Disseste que vinhas com a tua namorada.

Então pronto, mãe, no próximo fim de semana vou com a minha namorada. Palavra! saiu-lhe isto sem dar conta.

Com a tua noiva?

Ainda não, mãe.

Ai filho, fico tão contente! Vamos esperar-te no sábado. Faço-te aquelas comidas de que tu gostas!

Depois da chamada, Tiago ficou a matutar:

Para quê fui eu prometer isto? E quem hei de eu levar como noiva? A Rita? Por que não?! Quando acordar ligo-lhe. Os meus pais não vão gostar dela, e ela detesta tudo o que cheire a campo, mas para uma visita serve. Vai, Tiago, vai dormir

Deixou a frigideira com os ovos por comer na bancada e foi para o quarto.

Reposto, lembrou-se da promessa à mãe e ligou à Rita.

Olá, bela! disse ele ao telefone.

Olá, Tiago respondeu ela friamente.

Rita, não dormiste bem? Vou já aí.

Tiago, acho melhor não nos vermos mais. A minha vida mudou.

Como assim, mudou? aquilo já o estava a irritar.

Vou casar.

Agora vou aí e falo contigo e com o teu noivo

A chamada caiu de imediato.

Com raiva, Tiago pousou o telefone no sofá. Ele, que sempre era ele quem deixava as raparigas, agora tinha sido trocado.

Foi à casa de banho e depois à cozinha. Fez um café e ficou a pensar:

E agora, onde vou eu arranjar uma noiva para levar aos meus pais? Das amigas antigas? Vão pensar que quero casar a sério.

Nem acabou o café, porque de repente a alarme do carro disparou. Correu para a janela. O carro, estacionado atrás do prédio, estava sempre à vista. Havia um homem de uns quarenta e tal anos a olhar para a janela dele.

Quem será este? pensou Tiago, desconfiado.

Calçou os ténis e desceu.

O que está aqui a fazer, senhor? perguntou.

Ouve lá, rapaz! respondeu o outro, com arrogância Se te vejo ao pé da Rita outra vez, vê lá se não te acontece pior!

Vai-te embora!

De repente, apareceu um tipo forte ao lado do estranho. Tiago quis responder mas de repente tudo escureceu

Tiago! Ouves-me?

Por cima dele, inclinava-se uma rapariga discreta. Uma ideia cruzou-lhe a mente:

Já a vi algures.

Precisas de ajuda? Mando vir uma ambulância?

Não é preciso. Tenho tudo no carro, sorriu ele. Podes tratar disto?

Posso sim, acabei o curso de Enfermagem.

Tiago olhou com mais atenção e lembrou-se: ela morava no outro prédio, cumprimentava-o sempre, mas ele julgava que ela era ainda uma miúda. Tentou lembrar-se do nome. A rapariga notou-lhe o embaraço:

Sou a Efigénia. Moro aqui ao lado.

Sobe, Efigénia! abriu-lhe a porta de trás. A mala de primeiros socorros está aí.

Entretanto, sentou-se à frente. Ela tratou dos ferimentos.

Não é nada de grave, explicou-lhe.

Obrigado!

Tiago olhou para o retrovisor e viu nos olhos dela uma expressão de pergunta:

Já posso ir?

Vem beber um café comigo, que nem cheguei a tomar pequeno-almoço.

Agora, assim vestida? Efigénia reparou na t-shirt e calças de fato de treino.

Eu também estou assim. Qual é o problema?

Não vou assim.

Então vá lá mudar de roupa, sorriu Tiago.

Meia hora depois, ela apareceu de vestido, maquilhada de forma modesta. Tiago sentiu vontade de antes só passear a pé.

Efigénia, queres ir a pé pelo bairro?

Vamos respondeu, e deu-lhe o braço.

Todo o caminho, Efigénia foi-lhe contando episódios. Foram ao café, sentaram-se à mesa. Tiago passou-lhe o menu:

Efigénia, escolhe o que quiseres.

Ela analisava o menu, mais atenta aos preços do que aos pratos. Percebendo que ela raramente ia a lugares daqueles, Tiago chamou o empregado.

Traga qualquer coisa bem saborosa para a menina e um café, por favor.

E para si?

Só café.

Temos um bolo caseiro maravilhoso.

Traga então!

Depois, voltaram a casa. Despediram-se à porta do prédio dela

Passou-se uma semana de trabalho. Sexta-feira, Tiago chegou a casa.

Tinha prometido à minha mãe visitar os meus pais com uma rapariga amanhã. E agora?

Foi à cozinha, ligou a chaleira elétrica, fez umas sandes, sempre a pensar na visita.

Vou sozinho. A mãe vai ficar triste. Tenho de arranjar uma solução

Subitamente, ocorreu-lhe uma ideia.

E se eu levasse a Efigénia? Mas desde domingo nem voltei a vê-la. Digo que estive muito ocupado

Rapidamente comeu, barbeou-se, vestiu-se melhor e saiu.

Sabia qual era o prédio, mas havia quinze apartamentos, só sabia o nome. Ficou uns minutos à espera. De repente, a porta abriu-se e lá saiu a Efigénia.

Pelas calças de fato de treino e t-shirt, vinha direta de casa e viu-o da janela.

Ficou hesitante.

Olá, Efigénia!

Olá, Tiago! o rosto dela iluminou-se.

Venho convidar-te para um passeio.

Nem estou arranjada

Eu espero, disse o rapaz a sorrir. Meia hora chega?

Sim, e correu para cima.

Filha, o que foi? espantou-se a mãe.

Mãe, vou sair um pouco.

Por que toda essa pressa?

Mas a filha não respondeu, corria entre as divisões a escolher roupa. A mãe foi à janela e ficou alerta.

Vais sair com o Tiago?

Sim, mãe.

Pra quê queres tu esse rapaz tão jeitoso?

Já tenho vinte anos, mãe, disse Efigénia, envergonhada.

Já viste bem as raparigas que lhe andam atrás?

Não sejas má, mãe!

És teimosa!

Mas Efigénia já corria para o quarto. Sabia bem que aquela conversa seria conhecida por todo o prédio e as velhotas do bairro logo inventariam histórias. Toda a gente conhecia Tiago, e com ela, tão simples, a novidade ia dar de falar. Mas não queria saber.

Saiu do prédio, convicta, imaginando a mãe a espreitar pela janela. Agarrou-se ao braço de Tiago e perguntou:

Para onde vamos?

Vamos passear pelo jardim, sentar-nos noutro café, parar sob a lua

Foram ao parque, lancharam num café, abraçaram-se debaixo da luz do luar. Até que o telemóvel tocou era a mãe.

Efigénia, já passa da uma!

Estou a ir, mãe! Efigénia baixou os olhos, desconcertada. Tiago, tenho de ir.

Vamos.

À porta do prédio, voltaram a abraçar-se. E Tiago sugeriu, ou melhor, decretou com voz decidida:

Amanhã vamos juntos a casa dos meus pais

António! gritou a mulher ao ver o filho estacionar o carro. O Tiago está a chegar!

Finalmente lembra-se de nós!

Ele vem com uma rapariga! exclamou a mãe, correndo para o pátio.

Gertrudes foi ao encontro do filho, respondeu-lhe ao cumprimento, mas fitava apenas a companhia dele.

Aproximou-se da rapariga:

Como te chamas, filha?

Efigénia, respondeu ela, atrapalhada.

Eu sou a tia Gertrudes. Entra, filha!

Obrigada!

O pai saiu da casa, dirigiu-se logo a Efigénia e disse jovial:

Até que enfim aparece uma boa rapariga para o nosso Tiago. Como te chamas, linda?

Efigénia.

Eu sou o António. Podes chamar-me tio António.

Efigénia não esperava tanta simpatia. Imaginava os pais de Tiago austeros, a torcerem o nariz à sua simplicidade. Mas estavam felizes, via-se nos seus rostos.

Entraram na casa e Efigénia ficou boquiaberta.

A mesa já posta, comida caseira como se esperassem visitas ilustres!

Começaram as perguntas.

Efigénia vinha de família modesta e achava que os pais de Tiago seriam altivos, mas eram tão simples como os dela.

Além disso, parecia que estavam contentes de ela ser de origem humilde.

Depois do almoço, Tiago e o pai foram lavrar o quintal. Efigénia aproximou-se da dona da casa:

Tia Gertrudes, posso ajudar a levantar a mesa e a lavar a loiça?

Vamos juntas! e a mulher sorriu, feliz.

Quando os homens acabaram de lavrar, todos juntos foram plantar as batatas.

Quando terminaram, Efigénia disse com tristeza:

Tenho de ir para casa, a mãe preocupa-se.

Fica cá connosco, sugeriu Gertrudes. Agora jantamos e pernoitas cá. Amanhã vais.

Não sei, via-se que queria ficar.

Liga-lhe, insistiu Gertrudes.

Efigénia pegou no telemóvel e telefonou:

Mãe, posso ficar cá a dormir?

Filha, olha lá o que dizes! Disseste que voltavas hoje.

Como se chama a tua mãe? Gertrudes tirou o telefone à Efigénia.

É Lídia.

Bom dia, dona Lídia! Fala Gertrudes, mãe do Tiago.

Olá!

Deixe a Efigénia ficar esta noite. Fica sob minha responsabilidade. A casa tem espaço, eles dormem em quartos separados.

Não sei o que dizer

Tem uma filha excelente, dona Lídia

A conversa prolongou-se, animada.

Só começaram a preparar-se para voltar a Lisboa no dia seguinte ao final da tarde. Gertrudes encheu dois sacos com enchidos e legumes do quintal, dirigindo-se sobretudo a Efigénia:

Este é para o Tiago e estes dois são para vocês.

Não exagere, tia Gertrudes!

Vocês na cidade só comem coisas industriais, é por isso que estás tão magrinha.

Depois, Gertrudes aproximou-se do filho, que conversava com o pai.

Já deram entrada nos papéis no registo civil?

Mãe, que ideia! Ainda nem falámos nisso.

Fala, rapaz!

Pensarei nisso, mãe.

Perdes uma rapariga assim e não te apresentes cá com outra!

Assim que o carro arrancou, Gertrudes pegou no telefone:

Lídia, já os mandámos, está tudo bem. Mandei-lhe também uns produtos do campo.

Gertrudes, não era preciso

Descanse! E talvez em breve sejamos família.

Não diga disparates mas sentia-se aprovação na voz de Lídia.

O meu já tem vinte e cinco, já tem casa, tem carro. Que falta mais? Não sei o que se passa na cabeça da tua Efigénia.

Na cabeça dela? Acho que perdeu a cabeça de amores.

Pois, se não ajudamos nós, quem é que os ensina?

O teu Tiago é um rapaz bem-apessoado

E a tua Efigénia é uma moça trabalhadora e muito boa rapariga.

É verdade. Limpa a casa, cozinha…

Tiago conduzia, sorrindo de um modo quase enigmático. Efigénia não resistiu:

Tiago, porque sorris assim?

Os meus pais gostaram muito de ti.

Isso dizem eles

A mãe pediu-me para não perder uma rapariga como tu.

E tu

Não te perco!

E ficaram-se a olhar, olhos brilhantes de pura felicidade

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Para que é que um rapaz tão bonito e bem-sucedido como eu há de querer casar-se? – ponderava ele. – Quando é que finalmente vamos ter netos? – pensavam os pais.
O rapaz estava disposto a tudo pela saúde da sua mãe