Diário de Maria do Céu, Lisboa
Então, afinal a certidão de casamento é mais forte do que viver junto, não é? gozam comigo os homens de antigamente, ainda hoje me lembro.
Faltava pouco para aquele convite que me fugia sempre: ir à comemoração dos trinta anos do final do curso.
Mas eu dizia sempre não, receando cair numa tristeza sem fim.
Melhor será irem aqueles que nunca falharam um ano; nesses nem se nota o passar do tempo, pensei cá para mim ao falar com a minha única amiga, Teresa, pelo telemóvel.
Mas Maria do Céu, estás com medo porquê?
admirou-se ela.
Olha que quando nos vimos há uns cinco anos atrás, continuavas bem!
Engordaste muito, foi?
Não é nada disso, Teresa.
Não insistas, não vou.
Não tenho vontade, pronto!
Dei quase por terminada a conversa, desejando que ela se desinteressasse e fosse ligar aos outros da lista.
Mas desta vez Teresa não me deixou escapar.
Céu, já somos poucos do grupo
Mas morreu alguém?!
assustei-me.
Pronto, pensava que era adulta, mas não tanto assim ao ponto de aceitar que colegas estejam a morrer.
Não, nada disso.
Uns emigraram, outros simplesmente não apareceram mais.
E lembras-te do Pedro Matias?
Faleceu há vinte e cinco anos, novo ainda, isso já te contei.
Vê lá, vão quatro turmas, mas ao todo quase só trinta pessoas.
O teu filho já não casou?
Agora podes relaxar e ir.
Teresa continuava, mas o meu pensamento fugia para Pedro Matias.
Sempre com aquele olhar triste e olheiras fundas.
Era tido como um fraco quem diria, tinha ele o coração frágil.
Sonhava construir uma bela ponte no nosso distrito, nunca chegou a tempo.
E eu, Maria do Céu, o que fiz?
Apaixonei-me pelo Vítor, mestre-de-obras, como eu, no fim do curso.
Trabalhava em regime de turnos, cá na nossa Lisboa e depois seguia de regresso ao norte.
Estivémos juntos anos.
Vítor chamava-me de mulher perante todos, dizia-se adepto do amor verdadeiro para quê papel, para quê certidão?
Vivemos juntos porque queremos, só isso, dizia ele.
Quando descobri que estava grávida, calhou com uma ausência prolongada de Vítor.
Logo soube: tinha três filhos e uma mulher doente lá em Braga.
Vítor despediu-se, alegou assuntos pessoais, não tive nem explicação.
Então percebi rapidamente: de um homem com mulher doente e três filhos, que exigiria eu?
Saí da obra antes que percebessem.
Ainda ouvi piadas:
Vês, a certidão é mais forte do que viver junto!
Mas já me era indiferente, arranjei trabalho numa mercearia de bairro, por indicação de uma vizinha do prédio.
Acordámos que mesmo mãe, ficava dois dias por semana.
A minha mãe aceitou ficar com o meu pequeno, Diogo, já de mau humor:
Foste criada para isto?
Eu a pagar os teus estudos, e tu a desperdiçar tudo!
Foi como me ensinaste a ser, mãe!
gritei eu, exausta.
Pensei que serias diferente, Céu!
Paguei tudo à custa da minha saúde, e tu…
gritava ela.
Pois, tal mãe tal filha, que querias tu?
atirei eu, já arrependida ao instante.
Acabámos a chorar juntas.
Mas, e agora?
Para onde me havia de virar
Por isso, declinava sempre o convite dos encontros de turma.
Falam de empregos, carreiras, família, mostram fotos de netos, e eu ando a lavar chão em três sítios: no prédio, na escola, no infantário.
Sobre o que eu, Maria do Céu, poderia conversar?
Tão pouco com eles tinham que falar comigo
Valia-me o meu Diogo, aquele miúdo era a minha razão de ser.
Quando foi para o infantário, a minha mãe decidiu que estava livre do dever maternal, e partiu para a terra natal, Santarém, dizendo que precisava de ar puro.
O destino, por fim, sorriu-me: arranjei um lugar na área que estudei, meia jornada.
Diogo foi para a primária, eu agora conseguia buscar o miúdo logo depois do almoço, e ele até era invejado pelos colegas.
Depois, surgiu um colega a querer algo mais, avancei já barrando qualquer intenção.
O meu filho não precisava de um estranho em casa, pai não se arranja, só problemas.
Com o tempo, fui crescendo na empresa.
Quando fiquei efectiva, já fazia o horário completo e ia finalmente recebendo um salário decente.
No entanto, nunca me senti por inteiro.
Vestia-me discretamente, não pintava o cabelo, a canice apareceu e deixei estar.
Sentia que não merecia ser feliz, quase levei o pai do filho de outra família, quase destruí três vidas alheias.
Não tinha o direito de brilhar, de me arranjar, de atrair olhares.
Felicidade, afinal, não era para mim.
À minha volta tinha colegas divorciadas, separadas ou solteiras, e sentia-me menos do que elas…
O Diogo cresceu, bom rapaz, nunca reclamou da entrega da mãe.
Nos verões ia à aldeia, ajudar nas terras com a avó e a tia-avó Leonor, amigas de infância que nunca casaram.
Cavava, semeava batatas, beterrabas e cenouras, limpava, colhia, ajudava na preparação dos doces, arrumava lenha A minha mãe, agora, só dizia: Foste abençoada, Céu.
Olha que rapaz tens!
E agora, sentia eu, para que ir a cafés e festas de turmas passadas?
Todos estes pensamentos passam-me num fôlego, ouço a voz da Teresa, insistente:
Guardaste a data?
Café em frente ao antigo instituto, sexta que vem às três.
Vai lá, pelo menos para me fazeres companhia, Céu!
Prometes?
A voz dela tremeu, e eu nem sei como concordei:
Sim eu vou.
Ao pousar o telemóvel, por pouco não me arrependi.
Fui ao espelho, olhei-me, quase virei para telefonar a cancelar.
Mas o número da Teresa dava sempre ocupado Enfim, já ficava envergonhada.
Só mais tarde, a noite já ia avançada, abri o roupeiro e tirei o vestido azul aquele que o Diogo me tinha oferecido para o casamento dele.
Ele e a Natália tiveram de me convencer a comprá-lo, e ela, a nora, levou-me ao centro comercial, insistiu para experimentar mil peças.
Acabou por ficar aquele azul, e ainda escolheram uns sapatos a condizer, e no mesmo dia levo-me ao cabeleireiro.
Isso foi há um ano.
Hoje o Diogo e a Natália vivem felizes, cada um com o seu lar, netos a caminho.
O cabelo volta a nascer branco, já pouco me arranjo.
Na véspera, decidi pentear-me, vesti o vestido azul, um pouco de batom (rapidamente removido, achei exagerado).
O café estava cheio, com música e risos.
Teresa logo me viu: Maria do Céu, estás linda, que alegria ver-te!
Ela, para dizer verdade, engordou um pouco, mas ficou-lhe bem, dava-lhe ar mais jovem.
Sentámo-nos a conversar.
Depois, Teresa foi cumprimentar outros, fiquei ali, ouvindo músicas dos nossos tempos de estudantes, sonhando com dias melhores.
De repente, uma voz no meio da música:
Posso convidar-te para dançar?
Levantei a cabeça e reconheci era o Alexandre, da turma ao lado.
Ele casou cedo, e eu gostava dele na altura Lembrei-me disso sem querer.
Céu, estás bela!
Primeira vez que venho a estas festas e não reconheci ninguém, só a ti!
Ele estendeu a mão, aceitei, fomos dançar.
De longe, vi Teresa a olhar surpreendida.
Dançámos várias vezes, em silêncio.
Depois, Alexandre disse-me baixinho:
Posso acompanhar-te até casa?
Estou divorciado, mas se esperas alguém em casa, levo-te só à porta…
Acompanhou-me até à porta.
No dia seguinte, voltámos a sair, e nunca mais nos separamos.
Ajuda-me a escolher o vestido para meu próprio casamento?
Foi a Natália que tratou disso.
Estava grávida, eu, no meu vestido azul, ia ser avó e agora…
noiva.
Parecia estranho, mas era real.
Desta vez, deixei-me ser feliz.
E disse-me a Natália, em segredo:
D.
Maria do Céu, é tão bonita!
Estamos tão contentes por si.
Ser feliz não tem idade, nunca teve.
E eu, olhando o Alexandre na mesa do nosso casamento, pensei: Agora, se calhar, também posso.
Finalmente, perdoei-me.
E permiti-me ser feliz.
E vocês?
Acham que ainda vale a pena ter esperança?
Digam de vossa justiça e façam gosto se gostaram.






