— Tu sem mim não vais a lado nenhum! Não és capaz de nada! — gritou o marido enquanto enfiava as suas camisas na mala grande.

Vais ver que sem mim ficas perdida! Tu não consegues fazer nada sozinha! gritava o João, enfiando as suas camisas na mala enorme.

Pois, afinal, conseguiu. Não ficou perdida coisa nenhuma. Talvez, se tivesse tido tempo para pensar calmamente no que seria sobreviver com duas filhas pequenas, tivesse feito um filme de horrores na cabeça e, olha, talvez até tivesse perdoado a traição. Mas simplesmente não houve tempo: tinha de despachar as miúdas para o jardim de infância e voar para o trabalho. O marido, claro, tinha acabado de bater com a porta meia hora antes: todo satisfeito da vida nova com a amante, convencidíssimo de si próprio.

Por isso, ao enfiar o casaco, Rita despachava ordens rápidas e concisas:
Mariana, ajuda a Beatriz a fechar o casaco e, no jardim, certifica-te que ela come a papa. A educadora já se queixou que anda a torcer o nariz à comida.
Zé, aproveita e leva já tudo aquilo que achas teu. Não fiques a adiar, nem arrastes esta novela. Ah, deixa a chave na caixa do correio. Porta-te.

Mariana nasceu precisamente meia hora antes da Beatriz e, por isso, tinha o título de mais velha das duas. Ambas tinham quatro anos. Além de serem muito independentes, tinham feitios cada uma para dar e vender. Se a Mariana comia a papa de sêmola só porque é o que tem de ser, a Beatriz ficava ali a argumentar:
Cheia de grumos, não como isto.

Felizmente, o infantário ficava mesmo ao pé de casa dez minutinhos a pé. As miúdas iam na conversa, distraíam da nuvem negra das dificuldades da vida a dois, agora só de três. E no trabalho, nem havia espaço para pensar em dramas pessoais: as consultas no centro de saúde eram sempre seguidas e, fora isso, ainda havia as visitas ao domicílio. Só ao chegar a casa, ao ver os cabides vazios onde sempre estavam os casacos dele é que caiu a ficha: agora era mesmo o eu contra o mundo. Mas que raio, nunca foi do feitio da Rita armar drama ou dar parte de fraca. Tudo devia ser como sempre ou melhor! Há sempre duas formas de enfrentar uma situação: cruzar os braços e ficar de luto, ou respirar fundo e começar a procurar luz ao fundo do túnel, nem que seja só um bocadinho. Começou logo pelo jantar, claro.

O que é que realmente mudou aqui com as miúdas? refilava Rita, a cortar tomates para a salada. O marido bazou. Que grandes funções é que ele tinha? Qual é o fardo novo? Nada que não aguente. Só preciso de mexer nos horários. Eu trato de tudo. Vai correr bem. E ainda melhor que antes. Não quero saber desses dramas de Onde é que ele anda agora? Outra vez na casa da amante?. Mais vale só do que mal acompanhada. Pode dar mais trabalho, mas há paz.

Leu um capítulo do Pinóquio, deu um beijinho nas miúdas, e voo para a casa-de-banho: máquina de lavar desligada, a roupa espera por ser pendurada.

Com o silêncio da noite, resolveu beber uma chávena de chá, por as ideias em ordem e organizar o dia seguinte. As meninas eram mesmo iguais, duas gotas de água gémeas purinhas. Duas crianças, sim, talvez seja mais trabalhoso que uma, mas nunca lhe tinha parecido um drama. Sempre achou estranho as pessoas olharem para ela com aquele ar de piedade.

Nós cá estamos ótimas dizia sempre ninguém anda aqui a morrer de cansaço. Eu dou conta do recado.

A chaleira apitou. Rita deitou chá de erva-cidreira, acendeu o candeeiro de pé. Lá fora, chuvada da grossa a misturar-se com frio, mas em casa só calor e sossego, nem se ouvia nada exceto o tic-tac do relógio

Tocam à campainha. Rita, ao ver a vizinha à porta, ficou boquiaberta: aquela senhora, a Dona Eugénia, nunca foi de grandes conversas. Uma pensionista reformada, muito na sua, passeava o seu cão rafeiro de manhã cedo, cumprimentava a Rita com um bom dia curtíssimo, quase sem lábios. Já vira aquele bicho magro e feio ó junto ao contentor do lixo, a olhar para os sacos com uns olhos tristes. A senhora, coitada, devia tê-la apanhado com pena e levado para casa. Nunca ninguém visitava a Dona Eugénia, ela só ia ao supermercado, e pronto, passeava a cadela.

Desculpe incomodá-la disse a senhora, aconchegando o xaile aos ombros vi hoje o seu marido a carregar malas para o carro. Ele foi-se embora, não foi?
Isso não lhe diz respeito respondeu Rita, seca.
O seu marido, de facto, não. Só queria dizer-lhe: se algum dia precisar de ajuda nem que seja para ficar com as meninas ou seja o que for, pode contar comigo.
Ora entre convidou Rita. Como se chama? perguntou enquanto servia dois chás e punha uma cestinha de bolachas na mesa. Prove uma bolachinha.

Chamo-me Eugénia Rodrigues. E você, eu sei, é a Rita. Olhe, Rita disse a velhota partindo uma bolacha , não me quero meter na sua vida. Só quero que saiba que, se precisar, eu ajudo com gosto, sem cobrar nada. Só porque sim, dá-me prazer.

Dona Eugénia provou um bocado do chá, sorriu:
Que bom! É erva-cidreira, não é? Eu também tenho lá muita na minha horta da terrinha. No verão, venha lá passar uns dias a descansar, tenho maçãs maravilhosas, colhidas da macieira, pode trazer as miúdas!

E Rita olhava para Dona Eugénia e pensava: mas porque raio achava ela, afinal, que não gostava daquela vizinha? Talvez por ela nunca dar graxa, nunca se meter, nem andar de sorrisos falsos a perguntar se não era difícil com as gémeas Passava, cumprimentava e pronto. Rita achava-a distante, orgulhosa. Afinal, só não era bisbilhoteira nem despeitava. Apenas oferecia a mão.

Rita fitava a vizinha e via-a com outros olhos: asseadinha, chinelos novos, cabelo apanhado num totó, vestido azul com gola bordada. Até tinha um cheirinho leve de perfume.

Rita escutava as histórias da aldeia, das maçãs, do forno a lenha, do lago onde nadam patos esfomeados todo o verão e, como por magia, as ansiedades iam-se embora e sentia-se o coração mais leve

Cinco anos passaram desde esse dia, mas Rita lembra-se de tudo como se fosse ontem. De como o João lhe atirou à cara: “Não vales nada sem mim! Vais desmoronar!”

Mas isso já eram águas passadas.

Eugénia Rodrigues, agora com técnicas apuradas, cortava maçãs com destreza, dispunha-as lindamente na tarte e punha o tabuleiro no forno quente. Saladas já feitas, o assado a borbulhar. Era o aniversário da vizinha mais querida em pleno agosto, portas e janelas todas abertas do chalé acolhedor. Toda a cozinha invadida pelo cheiro quente de maçã acabada de sair do forno.

Foste o meu anjo da guarda! pensava Rita, olhando para a Dona Eugénia já vermelhinha por causa do calor do fogão.
O que seria de nós sem ela? As miúdas adoram a avó Eugénia. Ainda bem que, naquele dia, não lhe fechei a porta na cara. Agora as meninas têm nove anos, já vão à escola. E não há verão que não passem aqui, entre o lago, os amigos e a avó do coração.

Vou apanhar mais maçãs, faço um compotazinho diz Rita, pegando na cesta e saindo para o quintal.

Debaixo da macieira, dormita a cadela Mila. Quem diria que aquela cadela feiosa do contentor, salva pela Dona Eugénia, se ia transformar nesta labradora linda, de pêlo brilhante?

Só o amor, só o amor nos salva, pensa Rita, e oferece-lhe uma bolachinha, com um sorriso no olhar.

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