Mãe que o Destino Esqueceu

MARTA, senta-te! Temos de falar, é urgente! A esposa sentou-se à mesa, a expressão dura.
O marido sentou-se ao lado. Marta limpou discretamente os olhos inchados:
Não sei o que fazer com a minha mãe. Já mal caminha. Este inverno, se ficar sozinha, não sobrevive naquela casa velha. Aquilo qualquer dia desaba.
E o que sugeres então?
Digo-te que não sei.
Marta, como sempre, esperas que eu resolva, mas é a tua mãe. A decisão é tua.
Francisco, não há maneira de trazê-la para aqui. Apenas temos dois quartos e os nossos rapazes estão grandes. Onde é que a vamos meter? Notava-se que a decisão estava tomada, só faltava torná-la mais fácil para o marido. Na cidade abriu um lar de idosos privado.
Marta, queres pôr a tua mãe num lar?
Não temos alternativa. Dizem que até é bom.
Mas é pago, não é? O marido questionou, cético. Quanto custa?
Sessenta euros por dia. Se pagarmos pelo mês, são mil e oitocentos. Inclui tudo: cuidados, alimentação, médicos. É muito dinheiro, bem sei, mas havemos de nos desenrascar.
Marta, custa-me Tua mãe sempre trouxe doces, compotas, amoras para nós, mimos para os netos. E agora isto
Achas que o meu coração não sangra? Não vejo saída.
Ora suspirou profundamente Francisco. Nenhuma outra ideia?
Pensei vender a casa. Ela pô-la em meu nome. Mas quem a quer? Está velha, ainda por cima já o frio espreita. E pagam pouco por aquela ruína.
Já falaste com a tua mãe?
Ainda não. Vamos lá sábado, ver o quintal, e aproveito para falar.
Eu trato do quintal com os rapazes abanou ele a cabeça. Mas a conversa do lar, essa é tua.
Francisco, fica lá até à primavera. Se não gostar, tentamos outra solução.
Sei lá Temi sempre: no dia em que for para o lar, é definitivo. Sabe-me a traição.
***
Há uma semana que a Dona Amália está no lar. Entende a decisão da filha, era cada vez mais difícil mexer-se. Mais difícil ainda sobreviver sozinha naquela casa antiga, quase a chegar aos oitenta.
Mas nunca imaginou uma velhice assim. Sonhava passar os últimos tempos ao lado da família Agora, sente-se a mais, já ninguém precisa dela, velha e doente.
A enfermeira entrou:
Dona Amália. Os netos vieram.
O rosto da avó iluminou-se ao ver entrar os dois. Já o mais novo, Tiago, era mais alto que ela. O Gonçalo Bem, esse já passava por um homem.
Olá, avó! Como estás aqui?
Vou andando, tratam-me bem, tenho comida boa. As enfermeiras muito atenciosas e ficou logo inquieta, a arranjar cadeiras. Sentem-se, vá!
Não podemos ficar muito tempo. Trazemos-te mantimentos e roupa quente.
Obrigada! Então e a escola?
Tudo normal responderam quase em coro.
Aproveitem e estudem! Gonçalo, é o teu último ano. Já sabes para onde vais?
Para a nossa universidade, avó.
E os teus pais? Mandaram-vos e não vieram?
O pai foi à tua casa.
Ai, que lhe diga para apanhar todas as cenouras, já vai esfriar. E a couve também, está ótima!
Vou já ligar!
Tiago tirou o telemóvel:
Pai, avó diz para colheres as cenouras e apanhares a couve.
Está bem ouviu-se a voz do pai.
Dá cá! A avó pegou-lhe no telemóvel e ficou a dar instruções: Francisco, colhe as cenouras, deixa-as secar uns dias antes de guardar na cave. A couve corta com o tronco, mete logo no areão no compartimento certo, e as cenouras grandes também, as pequenas deixa-te estar!
Sim, mãe, não te aflijas!
E olha, procura a minha Fofinha e dá-lhe ração. A pobrezinha ficou sozinha.
Trato disso.
Pronto devolveu o telemóvel ao neto.
Avó, vamos indo sim? disse Gonçalo, já de pé.
Esperem! Amália abriu a carteira. Toma, mil euros para cada um. Comprem alguma coisa.
E tu?
Aqui não preciso de nada. Vão, divirtam-se.
Obrigado, avó!
Quando saíram, Dona Amália ficou à janela, a olhar longamente atrás deles.
***
Francisco estacionou o seu Renault à porta do prédio. O vizinho Luís, do outro lado do hall, chegou quase ao mesmo tempo, vindo do supermercado:
Vieste da horta?
É da casa da sogra respondeu Francisco, segurando nos sacos de couves e cenouras.
Andamos a pensar comprar uma quinta ou casa pequena, os nossos já cresceram e foram à vida.
Olha, Luís Francisco falou pensativo. Ainda tens o T4, no segundo andar?
Sim.
Trocavas pela minha T2? Também é no segundo. E ainda levas o quintal e a casa da velha. A minha sogra já não cuida daquilo.
Ora Luís coçou o queixo. Talvez, deixas-me espreitar.
Fala com a tua mulher, passem cá mais logo para falarmos.
Combinado.
***
Francisco tomou duche, jantou e deitou-se, exausto. Marta foi para a cozinha, preparar o jantar cedo para os filhos o mais novo chegava do futsal, o mais velho esse já andava com namorada.
Já era altura! Tem dezassete anos. Resta saber se não se mete em sarilhos. O pequeno, nem casa quer. Passa o dia na rua…
Bateram à porta de casa. Marta limpou as mãos ao avental e foi abrir. Os vizinhos:
Marta, viemos visitar-vos!
Entrem! Olá, Vera, o que se passa?
O teu Francisco não te disse nada?
Não Marta surpreendeu-se.
Os homens andam a falar de trocar a casa convosco.
O quê? Desconcertada, Marta engoliu em seco. Entrem, entrem, já vos ponho qualquer coisa na mesa.
Correu ao quarto, abanou o marido:
Francisco, acorda! Temos visitas.
Ele sacudiu o sono e foi à casa de banho:
Já venho!
Entretanto, Vera ia inspecionando a casa.
Alguém me explica o que se passa afinal?
Marta, os nossos querem trocar o vosso T2 mais a casa da tua mãe pelo nosso T4 respondeu Vera, olhando à volta. Têm uma casa tão gira!
O anfitrião voltou e a mulher sussurrou-lhe:
Francisco, estás maluco?
Se concordarmos, mudamo-nos para o T4 e levamos a tua mãe para junto de nós.
Marta ficou pensativa. Uma tímida esperança iluminava-lhe o rosto:
Bem, então vamos ao chá e depois quero ver a vossa casa.
Chá? sorriu Francisco. Isto merece algo mais forte!
***
Nessa noite, Francisco e Marta quase não adormeceram, a conversar sobre planos, cada móvel, cada divisão do possível novo lar. Marta só parou de fantasiar quando Francisco começou a ressonar.
Já dormes? cutucou-lhe.
Não contes nada à tua mãe ao menos até estarmos instalados, senão ela só se angustia. Depois tratamos da mudança.
***
Numa manhã chuvosa de outono, Dona Amália espreitava pela janela do lar, entristecida. Sentia-se igual ao tempo cinzento:
Três semanas aqui e parece que me esqueceram. Sou uma mãe descartada. Os netos vieram uma vez e já se esqueceram também. Marta só me ligou duas vezes.
Primeira vez, disse que tinha vendido ou trocado a minha casa, e a voz soava tão contente. Ao menos, vão pagando o lar, mil e oitocentos euros por mês não é pouco. Já não tenho para onde voltar.
Segunda vez, disse que andava cheia de trabalho, que só vinha quando pudesse. Os jovens sempre têm o tempo contado. É sábado, pode ser que venham. Por que é que nunca arranjei um telemóvel? E mesmo que tivesse, não sabia mexer nele.
E passou horas assim, a cismar no passado. Até que viu um carro a parar junto ao portão:
Vieram! Afinal, não me esqueceram! Mas logo esmoreceu: Só vem o Francisco. E de mãos vazias? Será que aconteceu alguma coisa?
Ficou colada à porta. Finalmente, ela abriu-se. Francisco apareceu, sorridente:
Olá, mãe!
Olá, Francisco. Que se passa?
Prepara as tuas coisas! anunciou, sorriso rasgado. Vais para casa.
Para casa? Só de visita?
Não, mãe. É para ficares connosco.
Estás a brincar?
Os rapazes disseram para não te contarmos. Queriam fazer-te surpresa.
Dona Amália ficou atarantada, quase sem forças. Nisto, a vizinha de quarto, já amiga, regressou do tratamento:
Amália, despachas-te para onde?
O meu genro leva-me para casa disse, com alegria genuína. Desta vez, é para sempre!
És uma sortuda! A mim, acho que os meus já me esqueceram aqui.
As crianças também sofrem. Nem sempre é fácil
***
O carro seguiu pelas ruas molhadas. Amália não conseguia parar de pensar:
Porque será que ele me traz? Eles nem espaço têm. Só dois quartos Onde vou dormir? Vou ser mais um estorvo, qualquer dia volto para o lar
O Francisco estacionou, mas surpreendeu-a ao ir para o outro prédio. Amália olhou, espantada.
Entra, entra!
Subiram ao segundo andar, pararam à porta de um T4. Assim que entraram, os netos correram até ela:
Avó, entra! É a nossa casa agora exclamou Tiago, o mais novo.
Marta apareceu e abraçou-a forte:
Mãe, agora ficas connosco. Vem, esta vai ser a tua divisão.
O quartinho era pequeno mas acolhedor, uma cama nova e um armário só para ela. Amália quase não acreditava que ia voltar a viver entre a filha, o genro e os netos.
Nisto, sentiu algo a roçar-lhe as pernas, um ronronar quente
Fofinha! gritou Dona Amália, emocionada, e chorou de alegria.

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