Uma lembrança que vivi há muitos anos ficou gravada na minha memória de forma viva e detalhada: era o aniversário da Ana, e ela chegou ao jardim de infância vestindo um vestido novíssimo. No entanto, poucos minutos depois, um grito agudo rompeu o silêncio.

O dia começou envolto em estranheza, com a chegada de uma nova menina ao nosso grupo: seu nome era Maíra. Maíra tinha a nossa idade, mas parecia ter vindo de um lugar distante, talvez até de um tempo esquecido. Vestia um vestido de algodão claro, visivelmente remendado, com patches que pareciam mapas de ilhas perdidas. Seus cabelos ruivos, presos num laço gasto, lembravam fios de cobre enrolados num velho portão. Os olhos grandes e verdes de Maíra tinham uma tristeza líquida, como se olhassem sempre para o fundo de um poço. Mais tarde, soube, como num sussurro de vento, que Maíra era criada só pelo pai; a mãe evaporara-se, deixando na casa deles apenas a sombra discreta da pobreza.

No jardim de infância da nossa Lisboa suburbana, conviviam conosco as irmãs gémeas, Clara e Judite. Clara era a ordem e o hábito, Judite o caos quase encantado, a fazer travessuras de modo inconsequente: quebrava brinquedos como se fossem bolas de sabão, sem nunca ser chamada à atenção. Judite era filha da directora da creche, o que lhe conferia uma aura de impunidade e um sorriso de quem mastiga rebuçados invisíveis.

Judite voltava-se quase sempre contra Maíra: dava-lhe pontapés, sabotava-lhe a comida na cantina, puxava-lhe os cabelos como se quisesse arrancar dela alguma tristeza que não lhe pertencia. Maíra sofria calada, deixava cair lágrimas que ninguém conseguia enxugar, refugiando-se num canto, enquanto o mundo girava lento. Tentávamos defender Maíra, mas acabávamos castigados, pois Judite era intocável como os galos de cerâmica sobre as prateleiras da sala. Mas tudo mudou numa manhã que parecia dobrada no tempo: o aniversário de Maíra.

Nesse dia, ela chegou vestindo um vestido novo, delicadamente rosa, como pétalas de alfazema caindo do céu. O tecido brilhava com pequenas pedras reluzentes, faiscando com cada movimento, arrancando suspiros de admiração e elogios de todas as crianças do recreio. As gémeas observavam de longe, em silêncio, com olhos que se fechavam à alegria. Maíra cintilava de felicidade, os olhos verdes parecendo mares iluminados ao sol.

Brincando no pátio, Maíra evitava a caixa de areia como quem evita armadilhas de sonho, desejando manter o vestido limpo. Entre risos e rodopios, perdemo-nos dela por um instante. Num momento absurdo, ouvimos um grito agudo, como um alarme suspenso no ar. Virando-nos, vimos Maíra caída numa poça, o vestido rasgado, Judite pairando em cima dela numa estranha levitação, gargalhando cruamente. Maíra chorava, sabendo que o pai ficaria desolado ao ver o vestido destruído. És só uma mendiga, nunca uma princesa! gritou Judite, com voz de trovão.

A imagem daquele instante surreal ficou gravada em mim: Maíra, pequena e vulnerável, com a sua felicidade diluída na água e no pranto, o sonho do aniversário desfeito como moedas de euro a rodar pelo ralo. Naquele momento, aprendi que há marcas invisíveis que nos ensinam, para sempre, a não ferir o outro, nem mesmo nos jogos mais estranhos da infância.

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Uma lembrança que vivi há muitos anos ficou gravada na minha memória de forma viva e detalhada: era o aniversário da Ana, e ela chegou ao jardim de infância vestindo um vestido novíssimo. No entanto, poucos minutos depois, um grito agudo rompeu o silêncio.
Upratal som celý dom, obliekol sa slávnostne, prestrel stôl, ale nikto neprišiel. No na dcéru a zaťa som čakal až do konca.