Natasha! Desculpa! Posso voltar para ti?

O meu marido, Rui, e eu vivíamos juntos há mais de vinte anos. Tivemos uma vida tranquila e harmoniosa. Aos fins de semana, fugíamos para a nossa casa de campo no Alentejo, longe da agitação de Lisboa. O Rui gostava de deixar o apartamento impecável, e eu dedicava-me à cozinha, preparando os nossos pratos favoritos. Sempre imaginei que envelheceríamos juntos, lado a lado, até à velhice.

Mas um dia, o Rui surpreendeu-me com uma notícia inesperada:

Leonor, desculpa. Vou deixar-te. Conheci outra mulher e apaixonei-me perdidamente!

Apesar dos meus 38 anos, sempre percebi que havia algo de estranho no comportamento dele. As conversas trocadas, os telefones escondidos, os olhares distantes… Já me tinham até chegado fotografias do Rui com outra mulher, enviadas por amigos dispostos a semear discórdia. Mesmo assim, nunca pensei que ele fosse capaz de me abandonar. Tolerei tudo, acreditando que no fim podia confiar nele. Por isso, quando Rui anunciou a separação, senti o chão a fugir debaixo dos pés.

Se ao menos nossa filha estava de férias com as amigas no Algarve naquela altura Para aliviar o peso da situação, contei às minhas amigas o que se estava a passar.

Juntámo-nos todas em minha casa, numa espécie de conselho de mulheres. A Teresa disse logo para eu emagrecer e encontrar um novo homem. A Carolina sugeriu que fosse à bruxa da aldeia pedir um feitiço para trazer o Rui de volta. A Filipa achou que não devia perder tempo e devia arranjar um novo namorado rapidamente.

Mas a Sofia apenas disse: Vive a tua vida como sempre viveste! Vai custar agora, mas vai passar! Não consigo, Sofia… Isto dói. Vais ter de conseguir. O tempo cura. Acredita. Eu já passei por três divórcios. Limpa a casa, cozinha, trabalha, vê uns filmes, lê uns livros. Para quem vou cozinhar, Sofia? Para nós, claro! Vimos cá jantar contigo, todas as noites se for preciso!

Agradeci a todas pelo apoio, mas fiquei dias sem saber que caminho tomar.

Acabei por dar ouvidos à Carolina e fui consultar uma vidente numa aldeia perto de Évora. Levei-lhe uma fotografia do Rui com a amante. Ela lançou as cartas, fez os seus rituais e disse-me que ele voltaria dentro de duas semanas.

Passaram-se duas semanas, depois um mês, e nada. O Rui não voltou. E a vidente ficou com metade do meu ordenado do mês, pagos em euros bem contados. Sentia-me cada vez mais sozinha. Comecei então a compensar o vazio com doces: pastéis de nata, bolas de berlim, torta de laranja… Ao fim de duas semanas, quando me pesei, apercebi-me que tinha engordado sete quilos de uma assentada.

Decidi então mudar de estratégia. Fiz uma limpeza geral ao apartamento, lavei tudo até brilhar, mudei as plantas de sítio, reorganizei os móveis. A casa ficou mais acolhedora que nunca! Inscrevi-me em aulas de danças de salão para perder peso, já que tinha devorado uma pastelaria inteira. Todos os dias preparava sopa da pedra, o prato preferido do Rui. E, como prometido, as minhas amigas vinham cá jantar, deixando a panela limpa. Depois, sentava-me sozinha no sofá e via episódios de A Guerra dos Tronos, aquela série que o Rui e eu sempre quisemos ver, mas nunca arranjámos tempo.

De certa forma, comecei a gostar destas rotinas. O tempo foi passando, e uma noite a porta abriu-se de repente. O Rui entrou. Parou, olhou à volta, percebeu que a casa estava impecável, e sentiu no ar o aroma da minha sopa. Eu estava sossegada a ver a série.

Leonor, boa noite. Vim buscar umas coisas que deixei da última vez.
Claro! Já as dobrei todas! Tens saco?
Não…
Espera, tenho aqui um.

Dei-lhe o saco com as suas roupas.

Foste tu que fizeste sopa da pedra?
Fui, sim! Estás com fome? Queres um pouco?
O Rui hesitou, mas acabou por acenar que sim.

Servi-lhe duas malgas. Ele comeu em silêncio e, ao acabar, agradeceu-me.

Obrigado, Leonor. Tenho de ir.
Vai, então. Eu ainda vou acabar de ver este episódio.
O que é que estás a ver?
A Guerra dos Tronos.
Ainda me lembro quando falámos em ver essa série juntos, lembras-te? disse ele, com um ar saudoso.
Claro que me lembro.

O Rui foi-se embora. Chorei um pouco, depois vi mais um episódio e fui dormir. Duas semanas depois, ele apareceu com as malas todas.

Olhei para ele sem perceber.

Leonor, desculpa, por favor! Amo-te. Amo a tua sopa, este nosso lar acolhedor. Perdoa-me ter caminhado na direção errada.
Tiveste saudades da sopa da pedra?
Tive saudades de tudo. Mas principalmente de ti.
Está bem, Rui. Entra lá.
Tenho vergonha de ti, da nossa filha… Não lhe vais contar nada, pois não?
Fica descansado. Vens jantar?
Venho. Muito obrigado.

A vida ensinou-me que as dificuldades não duram para sempre e que, apesar das tempestades, é importante cuidarmos de nós e dos que amamos. Porque só assim é que, custe o que custar, o nosso lar será sempre um regresso possível.

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Natasha! Desculpa! Posso voltar para ti?
Желание за живеене…