Com a chegada da primavera, os meus pais começaram a considerar vender o terreno de veraneio que tinham em Sintra. Já eram pessoas de idade e a saúde já não dava para cuidar da horta e do pomar como antes. A filha mais velha, Leonor, já tinha os seus filhos, trabalhava muito, e pouco tempo restava para ajudar. Os meus pais pensaram longamente, mas por fim tomaram a decisão.
A Leonor soltou um suspiro de alívio: já não teria de se preocupar em arranjar tempo para ajudar na propriedade. Ainda por cima, era longe para se deslocar até lá. Leonor já tinha sugerido aos pais que vendessem, até propôs comprar um terreno mais perto de casa. Não lhe agradava a ideia de passar os dias livres entre enxadas e ervas daninhas. Preferia um espaço para descansar, ler um livro, fazer um piquenique. Para os meus pais, no entanto, aquele terreno era fonte de compotas e conservas.
Os fins de semana passavam a correr para Leonor e o marido, Francisco. Quase nunca havia tempo para pequenas tarefas domésticas. O Francisco trabalhava numa posição em que até ao fim de semana podia ser chamado ao serviço. Leonor sabia perfeitamente que o quintal acabava por dar mais trabalho do que descanso. Depois de um fim de semana passado ali, ainda precisavam de uns dias só para recuperar.
Por isso, Leonor ficou satisfeita com a decisão. O terreno foi vendido. Viveram serenamente durante alguns anos. Até que a vontade de ter um pequeno refúgio no campo voltou a crescer. Leonor sonhava com um sítio onde pudesse simplesmente relaxar. Francisco sugeriu procurarem algo.
O trabalho estabilizou, e finalmente podiam ir ao campo nos fins de semana apanhar ar puro. Seria bom também para as crianças. Decidiram desde logo que não haveria grandes plantações: talvez um limoeiro e algumas amoras, assim os miúdos teriam fruta fresca. Avisaram logo os pais de que ali não iam perder tempo com covas e mondas. A ideia agradou a toda a família. Faltava apenas escolher o sítio certo.
Procurámos bastante até encontrar o ideal: uma casa simpática, já com as árvores de fruto necessárias. O vendedor era um senhor já idoso, o Senhor António, que já não tinha a esposa e não cuidava do terreno. Por isso decidiu vender.
Tratámos de tudo e Leonor ficou radiante: o seu sonho tinha-se tornado realidade. A casa era acolhedora, dava para passar lá uns tempos sem qualquer pressa para fazer obras. Decidiram começar a melhorar o espaço só no verão. Foram de férias e dedicaram-se totalmente ao novo refúgio.
A primeira semana foi tranquila. Mas logo o Senhor António começou a aparecer. Disse logo que vinha buscar o resto das suas coisas. Ninguém se opôs. Mas depois começou a apontar queixas. Primeiro, pela roseira que Leonor deitou fora já estava seca. Depois pela pereira selvagem que, segundo ele, fazia falta.
O Senhor António insistia que nunca se tinha falado em arrancar as árvores. Alegava que ele e a esposa tinham plantado aquilo com carinho muitos anos antes, e que a framboesa fazia sempre falta para as compotas. Quando viu que em vez dos morangos agora havia calhaus, estranhou. Era um pequeno jardim de pedras decorativas a enfeitar o espaço.
O velho senhor percorreu o terreno todo, sempre com alguma coisa a criticar. Por fim, o Francisco perdeu a paciência e explicou: pagos estavam os mil euros do negócio, os papéis estavam em ordem, a propriedade era deles. Cabia ao casal decidir o que ali plantar ou arrancar.
O contrato nada dizia sobre o antigo dono continuar a usar o terreno. Se soubessem que assim seria, não teriam comprado. O Senhor António foi-se embora amuado. No dia seguinte voltou, com uma nova planta nas mãos, pronto para substituir a framboeseira.
O Francisco, exasperado, perguntou ao que vinha. Ofereceu até devolver-lhe o dinheiro se quisesse ficar com o terreno. O idoso recusou, mas ainda assim plantou a sua amora. Depois apareceu uma vizinha, Dona Graça, admirada por ver ali o seu antigo vizinho. E ele começou logo a queixar-se dos novos donos. A vizinha explicou que Leonor e Francisco eram livres de fazer o que quisessem com a propriedade, só que nada do que dissessem mudaria a teimosia do velho.
Pouco depois, Dona Graça confidenciou que o Senhor António já se zangara com toda a gente da rua. Desde que a esposa falecera, o seu comportamento era estranho. E avisou que podiam contar com mais visitas: ele não iria ligar ao novo dono. Sugeriu mesmo levar o caso à Junta de Freguesia, talvez lá o conseguissem convencer.
Enquanto conversavam, o Senhor António já tinha plantado a amora e ido embora em silêncio. Voltou ainda algumas vezes, mexeu em coisas suas, depois foi-se embora.
No dia seguinte, o Francisco saiu cedo para o trabalho na empresa de construção civil. Lá, contou a história aos colegas. Disseram-lhe que, ao comprar o terreno, trouxera “brinde” o anterior dono. Mesmo assim, ofereceram-se para ajudar a montar uma vedação. Em poucos dias, a cerca estava erguida. Quando o velho voltou, deparou-se com a vedação. Tentou entrar, resmungou, e depois foi à Junta. Por lá, já estavam fartos das queixas dele. Não sei o que lhe disseram, mas, depois disso, só apareceu mais uma vez para levar as últimas coisas que restavam.
Desde então, finalmente houve paz naquele cantinho tão sonhado.






