Nem te conto, é mesmo culpa minha! desabafa a irmã da minha amiga, já com os olhos cheios de lágrimas. Nunca na vida imaginei que isto pudesse acontecer! E agora, nem sei como hei de dar a volta à situação, para não passar vergonha…
A minha irmã casou-se há uns anos.
Depois do casamento, decidiram que os recém-casados iam viver com a mãe do marido. Os meus pais têm um T3 grande em Lisboa e só têm o Miguel, o filho.
Fico com um quarto e o resto é vosso! disse logo a sogra. Somos todos pessoas civilizadas, acho que nos vamos dar bem. E, se não der, saímos! disse então o marido à minha irmã na altura. Não vejo mal nenhum em tentarmos viver com a minha mãe. Se não resultar, sempre podemos ir para um apartamento arrendado…
Lá experimentaram. Só que viver todos juntos é outra história, bem complicada. Tanto a nora como a sogra tentavam fazer tudo certo, mas todos os dias a coisa piorava. Pequenos ressentimentos ficavam guardados até que, de vez em quando, rebentava uma discussão cada vez mais frequente.
Tu disseste que, se não desse, íamos para um apartamento! chorava a minha irmã para o marido. Isso são pormenores, e por causa disso vamos agora fazer as malas e sair? Uma loucura, não? respondia ele, sempre condescendente.
Exatamente um ano depois do casamento, a minha irmã entrou em licença de maternidade e pouco depois nasceu o Martim, um menino lindo e cheio de saúde.
O nascimento do neto coincidiu com o momento em que a sogra ficou sem trabalho e ainda não tinha conseguido encontrar outro o mercado não é fácil para quem já está perto da reforma. Então, a minha irmã e a sogra começaram a passar os dias inteiros juntas ali em casa, fechadas, porque nenhuma tinha para onde sair. Aquilo tornou-se uma tensão constante.
O marido limitava-se a encolher os ombros perante as discussões das mulheres afinal era ele que sustentava a casa toda.
Agora não dá para deixarmos a mãe sozinha, ela não tem como se aguentar. Eu não consigo pagar uma renda e ainda ajudar a minha mãe com dinheiro. Quando ela arranjar trabalho, aí sim, mudamo-nos!
Mas a paciência da minha irmã esgotou-se antes de a sogra arranjar novo emprego. Pegou nas coisas dela e do Martim e foi viver com os nossos pais. Antes de sair, disse ao marido que, para aquela casa, não punha lá mais os pés. Se ele realmente quisesse a família, teria de arranjar uma solução.
Ela tinha a certeza que o Miguel ia dar tudo por tudo para a ter de volta, mas enganou-se completamente.
Já passaram mais de três meses desde que se mudou para a casa dos pais, e o Miguel nem sequer tentou fazer as pazes. Continua a viver com a mãe, durante a semana fala com ela e com o Martim por videochamada e ao fim de semana vai lá jantar, como se fosse tudo normal.
Os dois estão agora num casamento de visita.
O Miguel recebe atenção e mimos de duas mulheres, tem a mãe sempre do lado dele (que acha que a minha irmã foi uma ingrata), e, ainda por cima, não tem de se preocupar com as fraldas e as noites mal dormidas. Está confortável! E a sogra, aliás, que perde ela? Não perdeu nada!
A minha irmã, por outro lado, já roeu as unhas todas. Odeia esta situação e ama o marido, mesmo sabendo que ele não está a agir bem.
O que esperavas quando foste embora? diz-lhe o Miguel. Podes sempre voltar, se quiseres.
Sinceramente, não sei se o Miguel alguma vez vai sair de casa da mãe para ir viver com a minha irmã num apartamento. Ela, estando em licença de maternidade, não tem dinheiro suficiente para o fazer sozinha.
Será este o fim da família deles?
O que é que tu achas? Achas que ela, mesmo assim, ainda podia voltar à casa da sogra e não perder completamente a dignidade?







