Durante mais de dez anos, não troquei palavra com os meus pais nem com a minha irmã mais velha. Apercebi-me há séculos que sempre fui a filha “descartável”. Havia lá em casa um lema silencioso: tudo para uns, migalhas para outros. Ora, a protagonista deste drama com pitadas de telenovela, Mariana, tinha dezassete anos quando a sua irmã mais velha, Benedita, engravidou e casou. Os nossos heróis domésticos, jovens e com a carteira bem recheada, decidiram então brindar a primogénita com um T2 todo catita em Benfica. Não só compraram o apartamento, como ainda mandaram fazer obras e mobilaram tudo de novo.
Mariana, a sentir-se um bocado à parte e já farta do favoritismo, resolveu criar coragem e perguntar, com aquele ar meio desesperado: E eu? Posso também ter um apartamento?. Os pais, mais frios que um gelado de nata, responderam: Ainda andas na universidade, Mariana! Quando decidires juntar os trapinhos com alguém, logo falamos disso. Passaram uns anos, Mariana já tinha vinte e dois, acabara o curso na Faculdade de Letras, mas casar era coisa que nem lhe passava pela cabeça. Só queria viver sozinha e ganhar juízo longe dos pais. Voltou ao tema do apartamento. Só que, entretanto, as vacas gordas tinham emagrecido: o negócio da família estava pelas ruas da amargura.
Os pais então mudaram a conversa: Olha, quando batermos a bota, o T3 do Lumiar fica para ti. Até é melhor que o da tua irmã tem mais um quarto e vale uns bons milhares de euros a mais. Por agora, vamos todos ficar juntos para dares uma mão à velhice.
Mariana ficou de pé atrás: Mas, como é que eu oficializo isto? A Benedita também é herdeira, pode vir querer meter o bedelho Se ela até tem um apartamento, para que é que quer o meu? No fundo, Mariana sabia bem que espaço nunca é demais, especialmente numa cidade onde até o ar custa caro. Já nessa altura percebia tão bem o favoritismo dos pais pela irmã que até fazia confusão. O genro estivera sem um tostão furado, e mesmo sem dinheiro os pais arranjaram sempre maneira de ajudar a ela, nunca.
Dez anos depois, tudo igual ou pior: Mariana continuava afastada da família, porque os pais ficaram ofendidos quando ela quis pôr tudo preto no branco, tal e qual se deve numa boa relação de negócios. Eles, orgulhosos, recusaram. Está tudo resolvido, garantiram eles. Cansada da novela, Mariana acabou por alugar um apartamento perto do Jardim da Estrela e tratou de si própria. Desde então, nunca mais teve notícias dos pais. Agora, a sua única companhia é a sua própria autonomia e eventualmente um gato chamado Eusébio, que não toma partido de família nenhuma.







