Depois que o pai dela abandonou a família, Benedita desenvolveu uma repulsa tão grande por ele que faria inveja a qualquer novela da SIC. Embora o pai garantisse que iam manter contacto regular, ela não queria ouvir falar dele nem pintado. Só que, claro, a avó batia sempre na mesma tecla: Minha menina, ele é teu pai, ainda tens de lhe ligar de vez em quando! O que fazia Benedita revirar os olhos, especialmente porque a mãe dela também cortou relações com o ex-marido há muito. Mesmo assim, para não arranjar sarilhos com a mãe, Benedita lá cedia e, de quando em vez, combinava um encontro com o progenitor.
Houve uma vez que a tiraram da escola em plena aula para ir ter com o pai. A professora ficou com cara de quem chupa limão, mas, pronto, nada podia fazer quando o próprio pai apareceu para buscar Benedita. Em casa do pai, ela ouviu as colegas de turma cochicharem sobre uma suposta irmã. No início, Benedita achou aquilo um disparate mas quando pôs os olhos na nova família do pai com direito a madrasta elegante e uma miúda pequenita a correr atrás do gato, o Zé Manel ficou tudo bastante esclarecido. A madrasta, devo dizer, foi toda simpatia, preocupada com os trabalhos de casa e perguntando se Benedita queria um croquete. Já o pai mantinha-se afastado, de olhos colados ao computador, como se ela fosse só mais um ruído de fundo.
Com o tempo, começou a ser hábito. O pai levava-a de casa e, vá-se lá entender porquê, pedia-lhe para tomar conta da irmãzinha ora, como se Benedita tivesse nascido para ser ama! A ideia de chamar irmã àquela criança estava fora de questão. No entanto, para manter as aparências duma família normal (pelo menos aos olhos da mãe e da avó), Benedita lá aguentava. Quando o pai sugeriu que ela ficasse mais tempo em casa dele, a desculpa foi pronta: Tenho testes e trabalhos, não posso!. O homem nem pestanejou e sugeriu logo que ela ficasse a tomar conta da irmã enquanto ele ia sair para jantar com a nova esposa. Só faltou dizer e deixa aí vinte euros para a pizza.
À beira de um ataque de nervos, sentindo-se uma autêntica babysitter gratuita, Benedita decidiu que não punha mais os pés naquela casa. Quando o pai ligou a perguntar onde andava e a lembrar-lhe da responsabilidade para com a irmã, ela foi irredutível: não ia mais ser tratada como empregada sem receber um cêntimo. Lembrou-lhe, com um leve toque de ironia portuguesa, que ele mal falava com ela de resto só se lembrava da filha quando precisava de alguém de graça para tomar conta da mais nova enquanto ele tratava da própria vida. Sem reconhecer o esforço nem demonstrar qualquer carinho, conseguiu afastar Benedita de vez.
As tentativas seguintes do pai e da madrasta em reatar contacto não passaram do habitual leva lá uma rabanada à menina e vê se pega. Finalmente, Benedita confrontou o pai com a frieza dele. O homem, sem floreados, admitiu que precisava de ajuda para cuidar da criança, como quem pede manteiga no café, e nem sequer fingiu sentir saudades da filha mais velha.
No fim, a relação desfez-se como um pastel de nata esquecido ao sol, sem goles de reconciliação à vista. As atitudes do pai deixaram Benedita a sentir-se aproveitada e esquecida uma lição amarga servida à moda portuguesa, sem direito a sobremesa.







