Não me lembro muito bem dos meus pais. Quando a minha mãe morreu, o meu pai não quis ficar sozinho a criar-me. Levou-me à casa da minha avó, deixou-me à porta e foi-se embora. Naquele momento, a minha avó estava na horta e só ouviu o barulho do carro ao arrancar.
“Quem será que chegou à esta hora?”, pensou ela, e foi ver.
Quando saiu cá fora, encontrou-me, a neta dela, ali à porta.
“Que disparate! Ao menos podia ter avisado!”, resmungou, pegando-me pela mão e levando-me para dentro. Ao fim do dia, o avô chegou a casa.
O quê? Foi o Rui que a trouxe?
Sim, foi ele. Deixou a miúda ao portão, entrou para o carro e desapareceu. Que tipo de juventude é esta?
Ficaram algum tempo a murmurar entre eles e depois foram dormir. O tempo passou. Os meus avós deram-me tudo quanto tinham no coração e na alma.
Ensinavam-me a respeitar as pessoas e a ser uma boa dona de casa. Cresci e tornei-me companhia dos meus avós, que nunca se cansaram de mim, pois diziam que era o retrato da minha mãe, igualzinha a ela. Também ela, em tempos, tinha ajudado os meus avós, até que a doença a levou. Aos meus avós restava-lhes apenas a lembrança da filha; era isso que lhes dava calor à alma. Terminei a escola e, um dia, foi o avô quem puxou assunto:
A nossa neta é esperta e cheia de juízo. Quem me dera poder mandá-la estudar fora.
Tens razão, marido. Hoje em dia, sem estudos, ninguém vai longe.
E foi assim que os meus avós juntaram as últimas poupanças e enviaram-me para Lisboa, para a faculdade. Licenciei-me com distinção em Economia e, terminado o curso, regressei à aldeia.
Nunca fui feita para viver na cidade. Os meus avós estavam radiantes. Não haveria solidão para eles na velhice. Resolvi investir na terra e contribuir para o futuro da aldeia. Lancei-me na agricultura. Contraí um empréstimo, comprei terrenos e contratei pessoal. Mais tarde, construí um estábulo e comprei gado. Faltava-me gente, então anunciei no jornal, prometendo salário digno e habitação.
Um homem apareceu. Estava sujo e desalinhado. Via-se que a vida tinha-lhe sido dura. Veio ter comigo e apresentou-se: era o meu pai.
Não me pediu nada. Percebia que, passados mais de vinte anos, não tinha direito a isso. Só pediu para ficar ao meu lado. Estava sozinho e queria, de algum modo, ajudar-me.
Demorou alguns meses, mas perdoei-o. Desde então, vive comigo e auxilia-me em tudo, com receio de voltar a estar sozinho. Aprendi que perdoar pode ser difícil, mas às vezes é a única forma de libertar o coração e recomeçar.







