Hoje faço sessenta anos. Tenho dois filhos e moro com a minha mulher num T2 em Lisboa. Ou melhor dizendo: tenho suportado a companhia dela há muitos anos, porque o convívio verdadeiro, esse já se desfez há muito tempo. O temperamento dela sempre foi difícil, marcada por um orgulho quase insuportável, sempre a exigir que tudo fosse à maneira dela cá em casa. Creio que só me resignei a esta situação por causa dos nossos filhos.
A nossa filha, Iara, está casada há doze anos com o Rui. Juntos, tiraram um empréstimo para comprar casa felizmente têm conseguido pagar tudo direitinho. Todo o subsídio de férias, Natal e prémios vai logo para a prestação. Trabalham os dois, dão conta do recado, vestem os filhos com dignidade e fazem o melhor que podem para lhes transmitir bons valores.
Já o seu irmão, Duarte, tem uma vida melhor. É dono de vários apartamentos em Lisboa e ainda tem uma casa grande lá para os lados de Sintra. Um dia, telefonou à irmã: A mãe decidiu pedir o divórcio. Já venderam o apartamento e dividiram o dinheiro. Prometi ao pai que ia tratar dele, agora és tu que ficas responsável pela mãe, disse o Duarte com aquela voz seca.
Iara ficou em choque: Mas onde é que ela vai morar? Sabes bem que só temos um T2 e dois miúdos pequenos. Vai dormir onde? O Duarte logo respondeu sem compaixão: E isso é para eu resolver? Vais deixar a tua própria mãe desamparada? Iara ainda tentou argumentar: O Rui não vai gostar nada desta ideia Isso agora é contigo, atirou ele antes de desligar.
O Duarte já tinha despachado um dos seus T1 para o pai; nem pestanejou. A minha filha, coitada, acabou por achar que o melhor era pedir um empréstimo a mais para comprar um apartamento para a mãe. Surpreendentemente, o banco aprovou o pedido e lá ficou a casa em nome da Iara. O dinheiro da parte da mãe na venda do apartamento antigo serviu de entrada. Agora, além de pagar a própria casa, ainda vai ter trabalho extra para conseguir manter o novo empréstimo em dia.
Já o Rui anda de cara fechada, custa-lhe engolir toda esta história. Diz, e não posso deixar de lhe dar alguma razão, que as pessoas com esta idade não deviam estar a separar-se que tudo isto é um fardo demasiado pesado para os filhos carregarem. Dá que pensar: será mesmo justo, nesta fase da vida, os pais imporem tanto aos filhos? Hoje, anoto no meu diário, com algum peso na consciência, que às vezes a nossa teimosia e orgulho só trazem tristeza a quem mais amamos. Aprendi que o respeito e a harmonia familiar valem mais do que qualquer direito de ter sempre razão.







