Olha, se alguém me contasse esta história, nem que viesse com fado no fundo, eu não iria acreditar logo de início. Mas aconteceu mesmo ao meu irmão e à sua esposa. Eles estavam a regressar a Lisboa depois de festejar o aniversário do nosso avô lá no interior, em uma aldeia tranquila. Era cedo, eram umas sete da manhã quer dizer, estava ainda aquela brisa fresca de quem não tem pressa no trânsito.
Iam pela autoestrada, quando avistaram uma jovem a fazer sinais desesperados à beira da estrada. A esposa do meu irmão, Mafalda, logo pediu para não parar, alegando que era arriscado e que, com as notícias que se vê na RTP, nunca se sabe! Mas o meu irmão António, que acha que é o herói do bairro, parou devagarinho para ver o que se passava.
A rapariga estava com o rosto coberto de cortes e hematomas, como quem tivesse acabado de brigar com uma máquina de lavar no meio do campo. Entre soluços e lágrimas, contou que ela e a família tinham tido um acidente grave. O carro despistou-se e foi parar lá ao fundo de um vale, bem escondido. Disse que o marido não resistiu, mas a criança estava viva e pediu a António que salvasse o pequeno. Apontou para o local do acidente.
António saiu do carro, instruiu Mafalda para ficar com a jovem, e seguiu até à ravina. Encontrou lá o carro, de facto, e nem hesitou: entrou no carro, resgatou o menino um rapazinho com uns seis anos, cheio de susto mas vivo.
Quando voltou ao carro, a jovem já não estava lá. Perguntou à Mafalda onde ela estava, e a Mafalda, que não é dada a dramas, encolheu os ombros e disse que a moça tinha ido atrás dele. António, curioso e com aquele arrepio a percorrer-lhe a espinha, regressou ao carro acidentado. Só aí reparou que havia dois adultos nos bancos da frente: um homem no volante, claramente o chefe da família, e a sua esposa ao lado, ambos sem vida.
Mas… então, como é que a jovem os tinha pedido ajuda na estrada? António jura que o gelado se tornou ainda mais frio. O rapaz foi adotado pela família e agora cresceu no meio das conversas do café e das tardes de futebol na televisão. O meu irmão está convencido de que recebeu um pedido de socorro vindo de uma alma, ou, como ele diz, foi o chamado da outra dimensão. Até em Portugal há histórias de arrepiar, mas esta tem mais sabor a pastel de nata com um toque de fantasma.







