Sendo filho único na família, nunca fui propriamente o favorito, embora tivesse sido bastante aguardado. Quando tinha 23 anos e a minha esposa, Leonor, estava grávida de cinco meses, comecei a duvidar se de facto era mesmo filho dos meus pais. Os meus pais já passaram dos setenta e a nossa situação financeira é muito complicada. Vivemos num apartamento arrendado em Lisboa e mal conseguimos fazer face às despesas. Tanto eu como a Leonor estudamos e trabalhamos, mas o dinheiro não chega para cobrir todas as contas.
Por duas vezes recebemos avisos de despejo devido ao atraso nas rendas e fomos obrigados a pedir dinheiro emprestado a amigos. O resultado foi um acumular de dívidas e vivemos sempre a contar os trocos para a comida, com uma preocupação constante em relação ao futuro. Por vezes, os meus pais ajudam-nos trazendo algumas mercearias, mas é pouco. Eles querem muito que nos casemos oficialmente, por isso, sem grandes cerimónias, eu e a Leonor fomos à Conservatória do Registo Civil para tratar do casamento. Logo a seguir, os meus pais começaram a falar insistentemente sobre o desejo de terem netos.
A minha mãe fez questão de me lembrar, mais do que uma vez, que devia ter um filho, caso contrário estava destinado a acabar como ela. No entanto, eu e a Leonor não nos sentíamos minimamente prontos para uma criança, ainda para mais sabendo os encargos financeiros que isso traz. Mas os meus pais surgiram então com uma proposta tentadora. Disseram que, se eu tivesse um filho, entregavam-nos o valor do subsídio de natalidade que tinham guardado para mim, e com esse dinheiro podíamos comprar uma casa numa aldeia perto de Santarém. Em troca, eles mudavam-se para a aldeia e nós ficaríamos com o apartamento na cidade. Pensámos bem, e pareceu-nos uma solução viável acabaríamos com a angústia de andar sempre a mudar de casa arrendada e até nos sobraria algum dinheiro para outras necessidades. A minha mãe garantiu ainda que cuidaria do bebé enquanto eu terminava o curso.
Prometeram mais apoio financeiro, ajudando a comprar tudo o que fosse necessário para mim e para o bebé. No entanto, agora que a Leonor está com sete meses de gravidez, nenhuma dessas promessas foi cumprida. Nem sequer compraram um pacote de fraldas. A minha mãe liga-me muitas vezes, querendo saber das preparações para o nascimento, mas eu não tenho dinheiro nem para o mais básico, como roupas de bebé. Ela só sugere que eu arranje um terceiro emprego para conseguir pagar as despesas. Lembro-lhe das promessas de apoio, mas ela nega tudo e não perde uma oportunidade de criticar as nossas escolhas, dizendo que não pensamos com juízo.
Quando finalmente nasceu a nossa filha, Matilde, os meus pais lembraram-se do tal subsídio de natalidade, mas tanto eu como a Leonor decidimos que a melhor solução era comprarmos o nosso próprio apartamento, sem mais depender de promessas vãs. Com isto tudo, aprendi uma lição que levo para a vida: por mais que queira acreditar em certezas vindas da família, a confiança deve estar naquilo que consigo conquistar com o meu próprio esforço.







