O pai da Sara decidiu criá-la como um rapaz quando ela nasceu, pois esperava um filho homem mas teve uma menina. A própria Sara nunca soube ao certo se se sentia rapaz ou rapariga, até que um dia, tudo mudou!

O pai da Leonor decidiu criá-la como um rapaz quando ela nasceu: esperava um António e saiu-lhe uma Leonor. Crescendo rodeada de miúdos, Leonor sentia-se parte da malta, e os pais faziam sempre graça com o facto de o nome ser tão feminino. Vivia num registo solteirão, adepta dos jeans descontraídos, t-shirts folgadas e rabo-de-cavalo apressado lá atrás nada a ver com tiaras ou lacinhos. Se alguém olhasse apenas para a poeira que levantava nos jogos com os outros rapazes, e não para a trança desgrenhada, jurava que a Leonor era só mais um do bando.

Mesmo com esta educação virada para o lado B, os anos passados na universidade fizeram milagres e a Leonor transformou-se numa jovem mulher elegante e segura com direito a brinco, perfume e tudo o que a mãe sempre quis.

Um belo dia foi convidada para a festa de anos de uma colega da faculdade, e a mãe dela torceu o nariz à ideia de a filha regressar a casa já a horas impróprias. Lá cedeu, mas não sem arrancar dezenas de promessas quanto a telefonemas e mensagens durante a noite. Decidida a experimentar uma festa verdadeira, Leonor vestiu um vestido vermelho curtinho e uns sapatos de salto agulha: parecia caída de uma revista! O pai, ao vê-la assim, teve quase um ataque sempre a imaginou como a campeã das corridas do bairro, e afinal ali estava uma rapariga delicada a caminho do mundo.

No regresso a casa, depois da festa, Leonor apanhou um valente susto: deparou-se com três tipos tão bêbedos que mal se aguentavam nas pernas. Quando as coisas começavam a aquecer, apareceu, qual herói de filme português, o Rodrigo, alto e com um pau na mão uma vassoura, vá-se lá saber de onde. Os tipos não acharam piada e puseram-se ao fresco; Leonor quase lhe caiu nos braços de alívio.

Entre risos e tostas mistas, Leonor e Rodrigo foram-se conhecendo e dali nasceu namoro. Com o tempo, casaram-se: a Leonor tornou-se professora de Educação Física, o Rodrigo ficou numa empresa de energia, sempre entre reuniões e cafés. O casamento era uma coisa equilibrada, com cada um a apoiar o outro como se faz numa boa equipa de futsal. Acabaram por ter uma filha, Matilde, e, embora o Rodrigo tivesse as suas ideias clássicas sobre o que é ser mulher, garantiu sempre que a filha crescia despachada e cheia de confiança lá vai ela à bola e às ciências, tudo certo! A Leonor achou a ideia ótima, e o pai dela, vendo o genro envolver-se tanto, finalmente sentiu que tinha ali um filho há muito desejado, ainda que com um final diferente do original. E assim se faz vida com boas histórias, ironia q.b. e uma pontinha de sorte.

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O pai da Sara decidiu criá-la como um rapaz quando ela nasceu, pois esperava um filho homem mas teve uma menina. A própria Sara nunca soube ao certo se se sentia rapaz ou rapariga, até que um dia, tudo mudou!
Starnutie nie je niečo, proti čomu by si mal bojovať – je to niečo, čo by si mal s úctou oslavovať.