Conheci o meu marido na universidade, lá em Coimbra. Ambos tínhamos 18 anos e éramos caloiros cheios de sonhos e sandes de fiambre. Destacava-se daquele jeito: força daquelas de carregar três mochilas, esperteza nativa e, acima de tudo, uma bondade que derretia até a pedra mais difícil da Cantareira. Primeiro fomos amigos daqueles de partilhar tupperwares e estudar juntos para os exames mas, subitamente, percebi que sentia borboletas no estômago sempre que ele aparecia no bufete. Alguns meses depois, já éramos oficialmente namorados. Lembro-me com carinho desses tempos, e continuo a dizer que os anos universitários foram mesmo os melhores, apesar das noites passadas a estudar (e a resmungar) até às tantas.
O João pediu-me em casamento um ano mais tarde, e claro que aceitei. Não tínhamos dinheiro para uma boda à moda antiga, com rancho e baile, então organizámos um almoço familiar simples, com bacalhau à Brás servido pela minha tia Maria e um bolo improvisado pela minha avó.
No segundo ano da faculdade, o João já arranjava uns biscates para ajudar. Morávamos num quarto modesto da residência universitária, e ter casa própria era só uma miragem para nós. Mas nunca deixámos de sonhar daquelas conversas em que fazíamos listas do IKEA sem sequer ter chaves para uma porta só nossa. A sorte virou quando a minha avó faleceu e me deixou uma pequena herança. O João também já tinha juntado uns bons euros dos seus trabalhos. Ao todo, deu para pagarmos a entrada de um apartamento T2 e atirar-nos a uma prestação de crédito à habitação daquelas que até arrepiam, mas com esperança de, em breve, ouvirmos um olha, temos de comprar um berço.
Vivemos juntos durante dez anos, apesar de nunca termos tido filhos a vida tem dessas ironias. Há uns anos, o João teve um problema no trabalho. A empresa onde ele era chefe de contabilidade meteu água, o patrão fez como quem lava as mãos e atirou toda a culpa incluindo dívidas e contas sombrias para cima do João. Depois de muito tribunal e advogados (que só viram cor do dinheiro), lá foi ele injustamente parar à prisão, quatro anos de castigo por crimes que eram ordens do chefe. Lutámos, chorámos, alimentámo-nos de esperança… mas ninguém quis saber. Até os papéis foram feitos tão bem que mais parecia que o João era o rei dos burlões, quando o coitado mal fazia sudoku à hora de almoço. Apoiei-o sempre, até ao limite do meu próprio ânimo, mas afinal um ano depois fui eu que precisei de apoio e não encontrei.
Lá para casa apareceu-me a minha sogra, a dona Eduarda, com ar de quem já vinha vitoriosa. Disse que eu é que tinha levado o João à ruína, e mais, que ele comprara o apartamento só com dinheiro dele, e que eu não tinha direito nem às chaves do correio. Nem tive tempo de reagir, de tão embasbacada. Jamais imaginei tal frieza, especialmente da mulher que me oferecia rabanadas no Natal.
Descobri que, antes do processo, o João tinha dado à mãe uma procuração. Com isso, a dona Eduarda conseguiu um extrato bancário bem detalhado, a provar que as prestações do crédito à habitação eram todas debitadas do cartão do João. Diz ela que já tem documentos suficientes para convencer o tribunal que eu não meti lá um cêntimo e, por isso, nada ali me pertence.
E assim estou, confusa, sem saber se procuro uma advogada, um psicólogo ou uma fada madrinha. Vida portuguesa tem destas histórias à moda antiga, mas eu só queria mesmo era um pouco de justiça ou pelo menos, um café bem forte.






