Tudo começou numa manhã de domingo, pelas sete. A Inês e o marido tinham saído no sábado à noite para matar saudades dos velhos tempos e, quando finalmente chegaram a casa, só queriam era dormir. Mas a paz deles foi posta em causa por um telefonema madrugador da sogra da Inês, que os convidou para um churrasco lá na aldeia. Por mais que tentassem escapar, a senhora foi de tal modo insistente Já temperei carne que chegue para um batalhão! que acabaram por ceder.
Para cúmulo, não iam ser só os sogros: também o cunhado recém-casado com a mulher ia aparecer, armados em pombinhos. Inês e o marido já tinham três anos de casamento, mas o irmão dele ainda andava na lua de mel há dois meses e também não tinham filhos, o que lhes dava um certo ar descansado.
Um ano inteiro a viver com a sogra foi o mesmo que uma licenciatura avançada em Sogras Portuguesas: a senhora era mestra na arte de ser forreta e lamentar-se continuamente de que o dinheiro nunca chegava ao fim do mês. No final, Inês e o marido refugiaram-se num T2 alugado, enquanto os pais dela, libertos de preocupações, mudaram-se para a casa da avó que herdaram dando assim a eles paz, e livrando-os de ficarem atados a uma hipoteca.
Enfim, chegou o grande dia do churrasco. Lá foram eles estrada fora durante duas horas, já a prever que aquilo ia dar asneira. Mal puseram os pés em casa dos sogros, nem tiveram tempo de respirar: logo foram empurrados para tarefas domésticas, de arranjar a vedação do quintal a plantar salsa e a regar gerânios. Apesar de cair para o lado de fome e cansaço, a sogra parecia achar que jardinagem batia qualquer bife na grelha.
As tensões subiram quando o marido de Inês, já possuído pela fome, se saiu com um Ó mãe, então e o churrasco? o que deu numa discussão digna de novela da SIC. Só lá para o fim da tarde é que a prometida refeição apareceu, mas foi um verdadeiro anti-clímax: dois chouriços por cabeça, e já podiam dar graças. Ficaram todos de olhar trocado e ar de poucos amigos.
No fim de contas, apetecia-lhes protestar: se a sogra dissesse logo ao que ia que precisava das tropas para as obras iam na mesma, mas ao menos levavam uma travessa de frangos assados e pão de Mafra. Esta novela de domingo agravou a relação, que já andava tremida.
Uma semana depois, adivinhem? Chamada da sogra a marcar novo churrasco. Só que desta vez foi o sogro quem puxou Inês de lado: Ó menina, não acredite! Aquilo é só para lhe sacar mão-de-obra à borla, festança é que nada…
Cansados e a precisar de férias dos dramas familiares, Inês e o marido optaram por desligar telefones, campainhas e qualquer ponte de comunicação, e finalmente gozaram uma dormida como deve ser sem churrascos nem sustos.







