A minha irmã está completamente viciada na carreira, focada no trabalho como se fosse um campeonato mundial, comenta Mafalda. Ela já tem 40 anos, é solteira e não tem filhos. Conseguiu comprar um apartamento na Baixa e um carro novo. Mas pouco fala comigo ou com os nossos pais, embora ainda assim espere sempre algo deles.
Mafalda e a irmã mais velha, Inês, sempre tiveram uma relação à distância, desde os tempos de brincadeiras na rua uma diferença notável de personalidade e até de aspeto. Mafalda é aquela pessoa tranquila, ligada à família, casou cedo, já tem três filhos e vive para cuidar da casa. Inês, pelo contrário, nunca largou a ambição: sempre foi movida por objetivos, dedicando-se ao trabalho e viajando pelo país para congressos, o que acaba por deixá-la pouco presente nas festas de natal na casa dos pais.
Mafalda mantém-se muito próxima dos pais, que ajudam com babysitting, levam as crianças às festas da escola e celebram tudo no apartamento T3 deles em Lisboa, onde cabe toda a gente e até um cão chamado Chico.
Agora, Mafalda e a família vivem num pequeno T1 num bairro apertado. Diante da situação, os pais pensaram e repensaram: Que fazer? Decidiram, então, propor a Mafalda uma troca de apartamentos. O T1 deles não serve para tantos netos, mas também não podem expandir ou pedir crédito ao banco apenas o esposo de Mafalda trabalha e o salário não chega a todos os sonhos. Assim, querem ajudar a filha passando logo o apartamento maior para o nome dela.
Só que, claro, não esperavam o drama da irmã mais velha. Inês não gostou da ideia e disparou: Então o apartamento é todo para a Mafalda? E eu, não sou vossa filha também? A mãe tentou acalmar: Filha, percebe o nosso lado. Não te estamos a esquecer. Tu já conquistaste tudo sozinha, e se quiseres algo maior, com a tua determinação vais conseguir. Mafalda precisa mais, tem três filhos, um marido, e só um T1 apertado! Mesmo com a explicação, Inês ficou magoada, meio ressentida.
Mafalda não resistiu a comentar: Está a fazer birra como uma criança que não recebeu pastéis de nata! A mãe tem razão, precisamos mais. Ela tem tudo quer ir outra vez ao Brasil? E ainda opta por não atender o telefone durante semanas. Só pensa nela própria!
Fica aqui a dúvida: será que Inês é egoísta por não considerar as dificuldades da irmã, ou será que o facto de ser filha também lhe dá direito ao apartamento dos pais, independentemente do sucesso?






