No domingo, planeámos dormir até mais tarde, mas os convidados do casamento surpreenderam-nos com as suas perguntas, interrompendo o nosso descanso.

Sonhava que namorava com Tomás há três anos, quando ele, com um sorriso que parecia feito de névoa, me pediu para irmos viver juntos mas isso significava partilhar o velho apartamento dos pais dele, em Lisboa, num prédio cor de tangerina. Depois do casamento, tudo começou a derreter como gelado ao sol.

A mãe dele, Dona Eulália, acusava sempre o filho pelas minhas escolhas, e isso criava discussões com lógica de labirinto e ruídos de rádio mal sintonizado. Julgava todas as minhas decisões, quer fosse a trabalhar num escritório frio de Alfama ou quando ficava em casa a escutar os pardais na varanda. Numa manhã de domingo surreal, queríamos descansar, mas Dona Eulália entrou de rompante no quarto, a ralhar porque ainda não tínhamos acordado. Tomás tentou defender-nos, mas ela só dizia Esta casa é minha e as regras também, como se fosse uma feiticeira entoando um feitiço.

Fartos dos ecos e das sombras, Tomás decidiu, naquela mesma noite cheia de gatos pretos no telhado, procurar um T2 para arrendar. Os preços eram tão altos como montes alentejanos, mas não havia alternativa. Mal fizemos a mudança, as cores dos dias começaram a clarear.

Algum tempo depois, sonhámos em comprar um terreno junto ao Tejo, mas o dinheiro só nos dava para metade de um poço. Pedimos ajuda aos pais de Tomás, enquanto eu recordava o meu pai, desaparecido numa nuvem quando eu era criança, e a minha mãe, que ainda vivia entre oliveiras no interior, a criar os meus dois irmãos mais novos.

Começámos a construir a casa raiz a raiz, e no caminho encontramos papéis onde o terreno aparecia em nome de Dona Eulália. Fiquei gelada como mármore e contei a Tomás. Ele, calmo como um pato no lago, explicou que era só por formalidade os seus pais tinham pago, depois passariam para nós.

Não acreditei nas palavras dele e pedi a Dona Eulália que se retirasse da nossa casa recém-criada. Vivemos separados durante um mês outonal, mas Tomás prometeu dar um nó nos problemas e convenceu-me a tentar outra vez. Meses depois, descobri que estava grávida. Era como se o meu antigo desejo tivesse saltado de um espelho partido para a realidade.

Quando soube da notícia, tornei a procurar os sogros, mas a rotina deles era um disco riscado: telefonemas diários, convites insistentes para nos visitarem e verem o bebé, mesmo depois de lhes ter pedido paz. Dona Eulália alimentava pequenos dramas, misturando vinagre em lugar de azeite, e isso empurrava Tomás e eu para discussões de sombra e poeira. Lembrei-lhe das promessas vãs e das palavras afiadas da mãe.

De repente, tudo mudou de tom. Dona Eulália foi falar com a minha mãe, propondo um acordo estranho para reescrever os papéis da casa, mas exigindo que a minha mãe abdicasse de metade do valor. Quando recusou, Dona Eulália achou por bem insultar-me, dizendo que não sabia trabalhar e não fazia esforço nenhum.

Nessa altura, percebi naquele sonho enevoado que nunca haveria entendimento; como se o dinheiro comandasse as marés da família. Era altura de acordar: não queria que me dissessem como respirar, como sonhar ou viver. Decidi viver pelos meus próprios sonhos, não para tapar buracos de expectativas alheias.

Não tenho nem uma folha de remorso pelo que escolhi. Sei que posso cuidar de mim e do meu filho talvez Tomás fique a viver com a minha mãe, talvez não. O futuro, nesse sonho, era um rio a desenhar os seus próprios caminhos.

Acreditas que a mulher sonhou certo?

As ações desta mulher podem ser entendidas como um grito pela sua paz e independência, uma tentativa de sorrir outra vez nas margens da vida, sobretudo perante paredes tão apertadas e relações tão gastas pelo tempo. Cada pessoa transporta a sua própria bússola, e ela seguiu a que lhe apontava a melhor direção para si e para o filho, no infinito surreal das escolhas.

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No domingo, planeámos dormir até mais tarde, mas os convidados do casamento surpreenderam-nos com as suas perguntas, interrompendo o nosso descanso.
– Какво правим тук? Защо се вкарваме в чужд дом?