Não São Apenas Vizinhos
Numa pequena aldeia do interior português, onde as ruas se cobrem de um verde viçoso no verão e de ouro e cobre nas folhas do outono, moravam lado a lado duas famílias. Sempre viveram em harmonia, ajudando-se mutuamente. Os filhos de ambos cresceram e rumaram à cidade.
Aconteceu, no entanto, que a mulher de João faleceu. Ainda mal o dia rompia, João correu até à casa dos vizinhos, Manuel e Amélia, batendo com força à janela.
O que se passa? perguntou Manuel, já vestido à pressa e descendo a correr o alpendre, seguido de Amélia, aconchegada num xaile sobre os ombros.
A minha Filomena a minha Filomena chorou ele, caindo nos degraus, enquanto o ar húmido e frio do outono envolvia tudo.
O que é que tem a Filomena? perguntou ansioso Manuel, Se calhar é melhor chamar o INEM
Não vale a pena a minha Filomena morreu balbuciou João entre lágrimas.
Os vizinhos não o deixaram sozinho até que o filho dele, com a esposa, chegaram de Lisboa. Amélia dava-lhe comprimidos para se acalmar. Após o funeral, continuaram a acompanhá-lo: convidavam-no para almoçar e jantar, e à noite Manuel jogava xadrez com ele.
Meio ano passou. João, conformado, aprendeu a viver sem a esposa. Adaptou-se a cuidar de si: já cozinhava, lavava e arrumava a casa. O filho e a nora passavam de vez em quando.
Numa tarde abafada de agosto, João estava sentado no pátio de Manuel, jogavam xadrez em silêncio como de costume, quando, de repente, Manuel tombou de lado. João, aflito, acudiu-o.
Manuel, estás bem? abanou-o, mas não houve resposta. Amélia! gritou, quando a vizinha surgiu ao contorno da casa, trazendo uma tigela cheia de pepinos frescos do quintal.
Com o susto, a taça caiu-lhe das mãos. Correu para o marido. Ele morrera no mesmo instante. Depois o médico confirmou: ataque cardíaco.
Como é possível chorava Amélia , nunca se queixou do coração
Agora era João quem ajudava Amélia. Vieram o filho e a filha de longe, sepultaram Manuel. Quando partiram, Amélia conheceu o silêncio do vazio. De dia, João continuava a entrar para lhe dar uma mão, mas à noite o sono teimava em fugir e os pensamentos faziam-lhe companhia.
O tempo foi correndo. Amélia recuperou, e os filhos e netos vinham de vez em quando. Ambos já reformados, ajudavam-se numa amizade cúmplice. João tinha sido professor de História no liceu, Amélia bibliotecária na Junta de Freguesia.
A vida não para. O outono chegou. João saía todas as manhãs, vassoura na mão, varria as folhas amarelas e castanhas do seu jardim, depois atravessava o portão e limpava o passeio em frente à casa de Amélia. O vento logo trazia mais folhas, mas ele tornava a varrer, inclusive dentro do quintal dela, onde, felizmente, eram menos.
Amélia observava da janela, sorrindo.
João, tu nunca te cansas? abriu ela a janela e gritou. Toda a gente já sabe que és o único a lutar contra o outono!
Ele olhou para cima, sorridente.
Se todos ficarem à espera que as folhas desapareçam sozinhas, isto transforma-se numa bagunça. Lá se vai a ordem!
Mas as folhas de outono são tão lindas olha só como brilham ao sol contrariou ela.
Pois, são bonitas, mas escorregam imenso. Daqui a pouco alguém cai resmungou João, continuando o seu trabalho.
Já no quintal dela, viu Amélia a sair à porta com duas canecas nas mãos.
Vá, chega, vem cá beber um chá com mel pousou as canecas na mesa do alpendre e sentou-se no banco, João acomodou-se em frente.
Hoje com mel? Não era sempre com limão? perguntou ele, provando o chá.
Hoje está frio, convém aquecer por dentro respondeu ela, sorridente.
Está doce demais. A nossa idade já não perdoa os excessos resmungou João.
Bebe, homem! Não é todos os dias que se bebe chá assim, uma vez por semana não faz mal.
Pronto, pronto assentiu ele.
Ontem o meu neto, Gil, telefonou-me a perguntar: “Avó, estás sempre sozinha? Vem para Lisboa viver connosco.”
E eu respondi-lhe: “Sozinha? Não estou nada! Tenho aqui um amigo.” lançou-lhe um olhar terno, sorrindo.
João disfarçou o sorriso atrás da chávena.
Disseste bem, mas amigo é pouco
Então, como seria?
Companheiros de batalhas contra as folhas de outono! riu-se João, e Amélia acompanhou a gargalhada.
Um dia, após varrer as folhas do seu quintal, estranhou a ausência de Amélia à janela. Preocupado, subiu os degraus e bateu à porta. Quando ela abriu, apoiada à parede e envolta num xaile aos quadrados, percebeu que estava doente.
Bem o que é isto? Deixa-me ajudar amparou-a, levou-a ao cadeirão e cobriu-a.
Ela olhou-o com ar cansado e o nariz vermelho.
Acho que apanhei uma constipação
Ora, quem me vai fazer o chá agora? brincou João.
João pendurou o casaco, foi até ao móvel.
Tens medicamentos?
Sim, estão ali apontou ela.
Ele examinou.
Só isto? Espera aí, vou à farmácia anunciou.
Talvez não seja preciso, estes devem chegar murmurou Amélia.
Vá, não te preocupes, já volto respondeu ele, decidido.
Regressou com um saco de remédios e um frango do talho. Amélia adormecera no cadeirão.
Pouco depois, o aroma do caldo de galinha enchia a casa.
Ó João, até cozinheiro és? sorriu ela, ainda a recuperar.
Em situações de emergência é preciso saber tudo. Ora come, aquece-te.
Ela provou, fechando os olhos de prazer.
Delícia obrigada, a sério.
Obrigado, é preciso que fiques boa. Sozinho a varrer não tem graça gracejou ele.
Sim, companheiro, prometo aceitou ela com ternura.
Uma semana volvida, Amélia já estava bem. Pela primeira vez em muito tempo, saíram juntos até ao parque junto ao rio. Como sempre, a iniciativa fora de João.
Andar sempre em casa faz mal, precisas de sair! incentivou ele.
As folhas estalavam sob os pés, o sol de outono ainda aquecia.
João, sabes que adoro o outono? É bonito dizia Amélia.
Concordo, ainda mais com boa companhia.
Amélia segurava-lhe o braço, caminhavam devagar pela avenida de folhas. Entre conversas e risos, o tempo voava.
Daí a uns dias, João apareceu com um pedido invulgar.
Preciso de um favor
Que favor? desconfiou ela.
Procurei na minha biblioteca um livro sobre como cuidar de cactos e não o encontrei.
De cactos? Mas tu nem tens cactos, nem flores!
João mostrou-lhe, maroto, um vasinho pequeno com um cacto.
Comprei este para ti.
E agora queres que eu trate dele? Nunca tive cactos! riu Amélia.
Mas tu, como bibliotecária, deves saber onde está tudo, até livros de cactos
Pronto, aceito o desafio. Mas se ele der flor, pagas-me um gelado.
Feito.
Pouco depois chegou o inverno. Caiu a primeira neve rara por ali. João apareceu de novo, escondendo algo atrás das costas.
O que trazes desta vez? perguntou ela, curiosa. João hesitou, estava um pouco envergonhado.
Amélia, tenho pensado Em vez de vir aqui todos os dias, talvez fosse melhor ficarmos juntos de vez queres casar comigo? entregou-lhe um ramo de rosas vermelhas. Ela corou e sorriu.
Santo Deus, João, quanto tempo pensaste nisso?
Muito nunca soube se aceitarias Então?
Claro que sim. Já me habituei demais a ti, e quando te vais embora faço-te falta! respondeu Amélia, pondo as flores num jarro. E quem é que diz não a um ramo tão bonito?
O inverno passou-se a dois e veio a primavera. Numa manhã, Amélia gritou:
João, vem cá depressa! O teu cacto deu flor! Agora deves-me um gelado.
É incrível, já nem acreditava! Vamos hoje mesmo ao café prometeu ele. Palavra dada é palavra honrada.
Iam pela rua fora a discutir qual o melhor gelado: epá ou cone de baunilha. João olhou para o céu azul de primavera e sorriu.
Estás com um ar tão feliz, notou Amélia.
Sinto que formamos uma excelente equipa respondeu ele.
E não é que sim? concordou ela, baixinho.
Caminharam lado a lado, já há muito mais do que meros vizinhos ou companheiros de batalha. Eram dois que se encontraram nas folhas de outono, nos dias de inverno e à luz suave da primavera. Afinal, a vida a dois é melhor: não há solidão que resista.
Obrigada por lerem, um abraço e tudo de bom!





