Hoje de manhã, o meu vizinho ligou-me logo cedo a perguntar:
Já ouviste falar do que aconteceu com o teu primo?
Não, o que foi?
Parece que vai pedir o divórcio aos 54 anos, depois de 30 anos de casamento.
Fiquei de boca aberta com a notícia. Sempre achei que eram um casal normal; ele não bebe, já está reformado, nove anos mais velho que ela. Têm três filhos adultos, todos vivem por conta própria, e já têm cinco netos. De repente, ela decide que quer o divórcio!
Fiquei na dúvida se não era algum mal-entendido, então telefonei ao meu primo e marcámos um encontro no Parque da Cidade para conversar com calma. O que ouvi dele foi o seguinte…
Já não aguento mais, António. Sinto-me como um hamster a correr numa roda durante toda a minha vida. O meu marido trabalhava e eu também, mas depois do trabalho ele deitava-se no sofá, via televisão ou relaxava, às vezes ia beber um fino com os amigos, mas eu começava o segundo turno em casa. Muita mulher portuguesa sabe bem o que é isso.
Chegas do trabalho e começa outra saga: lavar roupa, preparar o jantar, fazer algum petisco para o dia seguinte porque os miúdos vão precisar de comer depois da escola. Depois é preciso limpar, lavar a loiça, passar o aspirador, porque ele está cansado e os filhos têm tarefas e atividades extracurriculares. E tantas outras coisas que todas as donas de casa conhecem.
Eu esperava que, com o crescimento dos filhos, fosse ficar mais fácil. Mas estava enganada. Os filhos saíram de casa, o meu marido reformou-se, e eu continuo a trabalhar.
E agora, o meu querido marido está sempre em casa ou vai pescar no rio Douro, mas nunca ajuda com nada. Só espera que eu chegue e resolva tudo sozinha.
O que me fez perder a paciência foi quando tive uma gripe e, voltando da pesca, ele não perguntou se estava melhor ou se precisava de algo abriu logo o frigorífico e começou a reclamar porque não havia nada para comer, dizendo que pelo menos podia ter feito umas batatas, que não custa nada.
Respondi-lhe que, se não custa nada, que fizesse ele próprio. E como resposta ouvi:
Para quê casar, se tenho de cozinhar sozinho?
Nesse momento, disse-lhe que estou farta, que vamos divorciar-nos. Vamos dividir o apartamento e cada um fica por si. Quero ao menos viver um pouco para mim.
Os filhos não gostaram nada da decisão. Disseram que o deixava sozinho, que ele não sabe fazer nada, que vai acabar por morrer solitário.
Mas já não me importo. Ele provocou isto tudo. Se não valoriza o que tem, vai perceber como é.
É assim. Talvez as coisas se acalmem, mas a minha prima está de cabeça feita.
Fico com dúvidas, pois ninguém gosta de acabar sozinho na velhice.
O que achas tu sobre isto? No fundo, aprendi que é preciso valorizar quem está ao nosso lado e repartir responsabilidades. Se não houver equilíbrio, a vida juntos torna-se insustentável.







