Eu e o meu marido já tínhamos aceitado que não iríamos ter filhos, mas, imagine-se, dez anos depois do casamento, eis que fico grávida assim do nada.
E a minha sogra, claro, não perdia uma oportunidade de me gozar à frente da família, achando imensa piada em dizer: Acho que nunca vou ter netos do meu filho, a minha nora deve ser estéril. Apesar de já ter uma neta filha do filho mais velho. Sempre detestei ouvir isto, mas tinha de engolir em seco, e ocorreu mais de uma vez.
Adoro o meu marido, e ele a mim ele é o meu alicerce. Juntos, sobrevivemos às consultas nos hospitais, as preocupações dele e as minhas lágrimas no travesseiro. Mas finalmente fomos recompensados: estou grávida!
A neta da minha sogra, há um ano, teve uma menina, e eu há quatro meses tive um rapaz. Os médicos sempre disseram que não havia nada de errado connosco, mas tanto eu como o meu marido ainda ficamos de olhos arregalados: foi um verdadeiro milagre termos tido este bebé. Já a minha avó, depois do nascimento da bisneta e do meu filho, ficou completamente imprevisível.
O neto tão esperado dela (ou seja, o meu marido e agora, o nosso filho) parece não lhe despertar interesse nenhum, mas já a bisneta… não lhe poupa mimos!
Quando há jantar de família, só se fala na bisneta: o quanto cresceu, o que já sabe dizer, quantos dentes tem na boca… E o meu filho, como se não tivesse superado as expectativas dela, fica totalmente esquecido desde o primeiro dia.
Não percebo a postura da minha sogra. Dez anos a dar-me na cabeça, a humilhar-me por não honrar o nome da família (porque, segundo ela, as mulheres daquela casa engravidam todas facilmente), e quando finalmente acontece, nem pegar ao colo pegou no neto do filho! Mas para aquela bisneta é só coisas caras: roupinhas, brinquedos e até fios de ouro…
Enfim, só visto mesmo. A vida cá em Portugal tem destas ironias.







