Depois de terminar a universidade, Benedita arranjou emprego numa empresa em Lisboa, onde encontrou uma equipa unida e acolhedora. A chegada de Benedita reforçou ainda mais o espírito saudável do grupo. Era uma rapariga encantadora, com aquele jeito doce de fazer qualquer pessoa sentir-se confortável. Ao conversar com ela, era impossível não querer partilhar segredos.
Benedita morava perto do novo escritório, num prédio moderno na zona das Avenidas Novas. Lourenço, um colega, simpatizou logo com ela, e quando soube que tinha um apartamento próprio, ficou verdadeiramente animado. Já perto dos 30 anos, Lourenço não tinha nada seu, nem casa, nem grandes conquistas.
Tinha o hábito de se fazer de vítima. Todos os dias vinha de uma aldeia dos arredores para trabalhar em Lisboa. Parecia sempre muito triste quando tinha de regressar ao campo ao fim do dia. Na verdade, quase nunca ia para casa; as colegas acabavam por o levar às suas casas. Benedita era um sonho de mulher não se lhe encontrava um defeito, nem por fora, nem por dentro. Era perfeita em tudo. Assim, Lourenço colou-se a ela como uma lapa durante três anos.
Benedita viajava frequentemente em trabalho, ganhava um bom ordenado em euros, enquanto Lourenço, ainda com espírito de estudante e saúde frágil, não progredia. Estavam constantemente a visitar médicos, e diziam-lhes sempre que ter filhos seria uma tarefa difícil.
Nunca se falava em casamento. De vez em quando, o chefe contava a história do sobrinho, que tinha pedido a namorada em casamento e, pouco antes do grande dia, descobriu que ela tinha um cancro avançado. Casaram-se mesmo assim, e o marido, ainda jovem e cheio de vida, cuidou da esposa até ao fim…
Passaram-se três anos desta ligação. Benedita começou a pensar: “Ele vive na minha casa, todas as despesas ficam por minha conta e nunca sequer falou em casamento.” Decidiu então confrontar Lourenço, que, espremido pelos factos, acabou por lhe comprar um anel e anunciou o noivado. Após mais uma das muitas viagens em trabalho, Benedita regressou a Lisboa. Nessa noite, Lourenço confessou: “Não estou pronto para casar. Sou demasiado responsável, não posso tomar a vida de outra pessoa nas minhas mãos… Fica com o anel como recordação do nosso amor bonito…”
Benedita mudou. Nunca imaginaria um presente tão amargo de alguém tão próximo. O chefe, a perceber a situação, enviou-a numa viagem de negócios. Ofereceu-lhe um bilhete para o Teatro Nacional Dona Maria II e avisou-a em tom de brincadeira que a despediria caso não fosse.
No teatro, Benedita sentou-se ao lado de um primo viúvo do chefe. Conversaram, partilharam risos, e a relação floresceu durante aquela viagem profissional. Benedita engravidou, e foi uma alegria imensa para os dois. Casaram-se rapidamente, numa bela cerimónia, onde Benedita brilhou como uma princesa.
Já passaram dez anos. Agora têm dois filhos e sonham com o terceiro. Não importa se é menino ou menina, o que interessa é que venha saudável! Formaram uma família forte, alegre, onde reina o companheirismo e o amor.
Lourenço, por sua vez, nunca soube bem o que queria da vida. Achava que uma família era um luxo demasiado dispendioso, e nunca se responsabilizou por ninguém além de si mesmo. Quando finalmente pagou o crédito do carro, comprou um laptop novo foi um acontecimento. O futuro desse empréstimo, ninguém sabe como será pago…







