Vai, apanha as malas, rapaz, estão pesadas! Eu tiro o casaco e calço já as chinelas. Não fiques aí especado, filho, a tua mãe chegou! Quero que me atribuam um quarto, o mais claro, com varanda, sim? Assim, na primavera, posso pôr lá as minhas plantas.
A voz da sogra, D. Celeste, ecoou pelo corredor estreito do apartamento. A Mariana parou à porta da cozinha, com o pano de cozinha ainda na mão. Tinha acabado de tirar o jantar do lume, à espera do Rui. Mas, em vez do sossego do costume, sentiu um turbilhão invadir-lhe a casa: três enormes malas axadrezadas, um porta-bagagens pesadíssimo, e a própria D. Celeste, a desabotoar o casaco de lã como se já fosse senhora daquele lar.
O Rui, marido da Mariana, andava às voltas no tapete da entrada, olhos baixos, vermelhidão no rosto, suando de nervosismo. Era fácil perceber que para ele esta chegada não era surpresa já para Mariana, era tudo menos esperado.
Boa noite, D. Celeste disse Mariana, esforçando-se por soar calma ao avançar para o hall. Então, vai haver festa e ninguém avisa? Rui, porque não disseste que a tua mãe vinha? Assim tinha preparado com outro jeito o quarto, punha lençóis frescos…
A sogra largou os sapatos, pôs-nos direitinhos em cima das cerâmicas, nem ligando à porcaria que ficou no chão, e sacou do bolso as chinelas gastas.
Oh, Mariana, não venho só de visita avisou, ajeitando-se ao espelho. Agora vou ficar convosco, vim para morar cá, está decidido. Portanto não tires lençóis de hóspedes, tira dos bons, que sou de casa. Vamos para a cozinha, morro de fome, mete lá água ao lume para o chá.
Mariana sentiu aquele frio por dentro: raiva seca e dura. Olhou fixamente para Rui. Ele, sem encará-la, tirou o casaco, tentando um sorrisinho que só ressalvava o desconforto.
Mariana, não fiques chateada… murmurou ele, seguindo a mãe para a cozinha. Pronto, aconteceu assim, foi imprevisto… Ela precisa de ajuda, somos família, temos de estar uns pelos outros.
Entrando atrás deles, Mariana viu D. Celeste já sentada à mesa, descansadamente, a examinar a bancada, a perscrutar o tachinho do estufado.
Que ajuda é que precisa, concretamente? perguntou Mariana, com aquele tom calmo e duro que só usava nos piores clientes do banco quando precisava de se controlar. D. Celeste tem um apartamento ótimo ali nas Avenidas Novas! Houve obras? Alguma desgraça?
A sogra fez estalar a língua, afastando a caixa de guardanapos.
Já não tenho casa nenhuma… respondeu, como quem fala do tempo. Dei-a à Anabela, por doação, ficou registado ontem. Agora vive lá ela, o marido e o meu netinho, que precisam de espaço. E eu decidi: para que vou querer tudo sozinha? O Rui tem um T3 tão bom, vocês sem filhos ainda, espaço à vontade. Vim. O filho tem de cuidar da mãe na velhice.
Mariana sentou-se devagar em frente à sogra. Tudo encaixava naquele plano típico: Anabela, a irmã mais nova do Rui sempre a preferida da mãe. O Rui, desde miúdo, habituado a ceder, a calar e a ajudar.
Uma coisa era enviar uns euros à irmã, ir cavar à casa do campo; outra era dar a casa à filha e aparecer ali, de malas feitas, esperando ser sustentada.
Portanto, entregou a casa à Anabela… articulou Mariana, palavra a palavra. E decidiu que vinha morar connosco. Rui, sabias disto?
Ele encolheu-se todo, puxando o pano da mesa, mantendo os olhos fixos no tampo.
Ela avisou-me há uma semana… murmurou. Disse que a Anabela já não dava para pagar renda, foi o que decidiu. A casa era dela, Mariana, ela geriu como quis. Mas para onde iria? Não podia deixá-la sem casa! Pensei que compreendesses. Damos-lhe o quarto dos fundos, nem dá por ela. Até pode ajudar com as sopas e a arrumação.
Posso, posso! apanhou logo a sogra, animada. Nem vos dou trabalho. Tenham calma, família é estar junta. Não faças má cara, Mariana. A minha reforma é boa, ponho no bolo comum. Vá, serve lá a carne, cheira que é uma maravilha.
Mariana ficou imóvel. Olhava para aqueles dois desconhecidos. Como era possível tomar decisões tão intrusivas sobre o espaço dela, como se ela fosse invisível?
Respirou fundo, segurou o pânico. Sabia: se cedesse agora, aquela mulher nunca mais dali saía, acabando com qualquer hipótese de paz.
Está a enganar-se, D. Celeste disse Mariana, bem segura mas sem se exaltar. Aqui não vai viver. Nem neste quarto, nem noutro qualquer.
A sogra gelou com a mão suspensa. Rui saltou da cadeira.
O quê, Mariana?! protestou, indo em direção a ela. É a minha mãe! Tenho direito a tê-la em casa, somos casados, tudo é dos dois! Vais pô-la na rua?
Pois claro! apanhou logo D. Celeste, esgarescendo-se. Vergonhosa! Criei o meu filho e agora vens tu pôr-me à porta? Isto é tanto teu como dele! Ainda havemos de ver quem fica cá!
Mariana sorriu com amargura era o argumento previsível. Achavam que o casamento dava direito a meio das paredes, e decisões conjuntas.
Rui, senta-te ordenou ela, com uma firmeza nova. Rui obedeceu, sem coragem. Vamos esclarecer: D. Celeste, está em minha casa, não na do seu filho.
A sogra bufou, cruzando os braços.
Compraram-na juntos, em casamento! O Rui contou-me, celebraram com brinde e tudo! Logo é dos dois! Ele mete-me cá como quiser, é dele também!
Comprámos, sim, mas tem um pormenor que o Rui esqueceu respondeu Mariana sem mudar de tom. O dinheiro veio todo dos meus pais, cêntimo a cêntimo. Venderam a casa lá em Sintra, puseram as poupanças e transferiram para mim.
Era no casamento na mesma! exaltou-se D. Celeste, já desconfiando.
Mas foi feito através de contrato de doação, validado em notário, e com especificação para compra de casa em meu nome. Pela lei portuguesa, tudo o que for comprado num casamento, mas com dinheiro herdado ou doado pessoalmente, é propriedade individual.
Virou-se para o marido, pálido.
O Rui cá não tem quota nenhuma. Só tem morada temporária, que cancelo online quando quiser. Metade de quê? A casa é minha, e como dona, recuso que cá fique.
O silêncio caiu pesado, quebrado apenas pelo tique-taque do relógio. D. Celeste olhava perdida do filho à nora.
Rui… é verdade? Não és dono de nada? Disseste-me que era dos dois…
Ó mãe, não entrei em detalhes… balbuciou, suando. Achava que, como somos família, não interessava… Mariana, agora a sério, não sejas dura. A mãe só tem aqui. Com a Anabela não dá, está tudo apertado. Ela sacrifica-se pelos outros. Não faças isto.
Rui, a tua mãe devia ter pensado antes de entregar a casa cortou Mariana. Já que garantiu casa à Anabela, é para lá que deve ir. Porque hei de ser eu a pagar, com o meu trabalho, pelos erros dela?
A Anabela não tem nada! quase gritou D. Celeste. O marido dela mal ganha, ela está de licença, precisam de ajuda! Vocês até carros têm e viajam, não se perde nada!
Não é por isso respondeu Mariana, serenamente. Apenas não aceito pagar o conforto dos outros com o meu. Fez a escolha, agora não traga os problemas para a minha porta.
Não vou para lá! guinchou a sogra, vermelha. O bebé chora, preciso de sossego! Vim para ti, filho! Rui, faz-te ouvir, bate na mesa! És homem ou não?
O Rui andava de um lado para o outro, sem saber onde ficar a mãe manipuladora de um lado, a mulher firme do outro.
Mariana, por favor quase chorava, tentando segurar-lhe a mão, mas ela afastou-se. Deixa a mãe ficar ao menos um mês, até arranjarmos solução. Depois logo vemos, podemos pagar um quarto…
Mariana olhou-o e soube: já não o respeitava. Ele pôs as prioridades dele acima da sua vida, sem aviso, a tentar que ela resolvesse o caos criado pela sogra.
Um mês vira um ano, e um ano uma eternidade afirmou Mariana. Não vivo em pensão. D. Celeste, traga o telefone.
A sogra parou, confusa.
Para quê?
Para ligar à Anabela. Avise que está a chegar com as malas.
Não ligo! Prometi que não a ia incomodar! Eles têm a família deles!
Nós também! retrucou Mariana. Ou ligam vocês, ou vou eu. Rui, trata do táxi e leva a tua mãe à casa da Anabela.
A sogra, vendo que a tática mudara, encenou uma crise, mão no peito, a desfalecer.
Ai… as tensões… liguem para a saúde 24… vão matar-me…
Rui correu a buscar água; Mariana, impassível estava habituada aos teatros da sogra.
Se precisar mesmo de médico, chamo já a emergência disse Mariana, telefone na mão. Se estiver mesmo mal, levam-na ao hospital. As malas ficam no corredor, amanhã levas para a Anabela. Ou vai já, ou vai para o hospital. Aqui, não fica.
Mal ouviu a palavra hospital, D. Celeste sacudiu-se, agora cheia de forças, e tirou o telemóvel da carteira, ligando à filha e pondo em alta-voz, esperando que a filha fizesse um escândalo a favor dela.
Tocou, depois ouviu-se a Anabela, com um bebé a chorar ao fundo:
Mãe, só me ligam agora que o Rodrigo estava a adormecer! O que foi?
Filha, um desgosto, a Mariana não me quer, expulsa-me, diz que a casa é dela e que vá ter contigo… Estás a ouvir?
Houve silêncio. O bebé chorava mais. O marido da Anabela murmurou qualquer coisa. Quando a Anabela respondeu, nem compaixão trazia:
Mas mãe, estás a brincar? Não temos espaço! A cama do miúdo ocupa meio quarto. Para onde vens? Ias lá para ficar com o Rui, por causa do T3!
Não me querem cá! a velha já chorava. Disseram que tu ficaste com a casa, então ficas comigo também!
Olha, faz com o Rui, aqui ninguém resolve nada! Eu não te posso receber, não há condições. Fala com ele! e desligou, seco.
D. Celeste olhou para o telemóvel apagado, sem reação.
Mariana apenas observou. Não sentia pena nenhuma. Cada um tem aquilo que semeia.
Rui estava no centro da cozinha, perdido.
Bem disse Mariana, levantando-se , acabou a novela. Rui, chama um táxi.
Mariana… tentava, desolado. Para onde vamos? Lá em casa da Anabela não cabemos…
Levas a tua mãe para um hotel. Pagas-lhe dois dias, do teu bolso. Entretanto, arranjam-lhe um quarto ou casa alugada. Ela tem uma boa reforma, tu ajudas. Mas aqui não ficam, nenhum dos dois.
O Rui ficou branco. Pagar hotel, alugar ou dividir despesas era cortar-lhe de vez a mesada dos hobbies, porque era Mariana quem sustentava quase tudo em casa.
Não me deixas opção? disse, de punhos fechados. Queres que escolha entre ti e a minha mãe?
Já escolheste, Rui, quando sem me dizeres nada, montaste isto. Não respeito um homem que não respeita a mulher e a própria casa. Vai ser bom filho à tua custa.
Se a mãe for embora, eu também vou! ameaçou, esperando amedrontá-la com o divórcio.
Mariana nada disse. Apanhou as chaves do carro do Rui e colocou-as na mesa.
A tua mochila está no armário do quarto. Em dez minutos fazes a mala. Podes ir com a tua mãe. Não prendo ninguém. Um homem sem respeito pelas fronteiras da sua família não me faz falta.
Na cara dele desenhou-se o pânico. Imaginou-se a dormir em pensão com a mãe a controlar-lhe a vida, o dinheiro a voar e sem uma única mordomia.
D. Celeste, já menos arrogante, levantou-se devagar.
Não te humilhes, filho disse, magoada mas derrotada. Vamos para o hotel. Pago eu da minha reforma. Saímos desta casa.
Ao telefone tremulo, o Rui chamou um táxi. Malas para o corredor, mãe a calçar os sapatos, passos pesados. Ele nem foi ao quarto apanhar bagagem devia pensar em trazer a mãe e voltar logo, achando que Mariana ia ceder e pedir desculpa.
Mas Mariana sabia: já não havia volta. Aquela fissura nunca sararia.
Chegou o táxi. O Rui, ofegante, carregava bagagens. D. Celeste, ao sair, virou-se para Mariana com um olhar carregado:
O mundo dá voltas, Mariana rosnou. Pelas lágrimas de uma mãe todos pagam. Hás-de acabar sozinha neste apartamento, ninguém te há de trazer um copo de água!
D. Celeste, da sua forma já está a pagar respondeu Mariana, serena. Cuidado com as escadas, que o elevador está péssimo.
Ela saiu a arrastar os pés, Rui lançou à mulher um olhar triste, e fechou a porta devagar.
Ficou um silêncio reconfortante. Mariana trancou as portas, limpou ainda o chão sujo pela sogra, como se riscasse qualquer vestígio do que ali se passou.
Voltou à cozinha, reaqueceu o jantar, sentou-se na sua cadeira e olhou o longe, vendo a chuva miudinha bater na vidraça. Sentiu-se, pela primeira vez em meses, leve.
Defendeu o seu lar. Defendeu a sua vida. Viria conversa difícil com o Rui, talvez separação mas já não havia medo. Quem conhece os seus direitos e vive de pé, nunca teme ficar à porta com malas de cartão.
Subscrevam, deixem um gosto e comentem.






