William regressou do trabalho e trouxe a sua nora grávida para casa. Os seus pais não ficaram nada satisfeitos com a situação

Enquanto trabalhava, Manuel conheceu Leonor. Casaram-se naquela terra distante de nevoeiro lilás, sobre laranjeiras de outros mundos, e quando Leonor engravidou, ele levou-a para a casa dos seus pais, perto de um oceano que, ao anoitecer, cantava fado nos ouvidos dos peixes. Os pais dele, navegadores sem navio, receberam a notícia como quem recebe uma carta molhada: com frieza e alguma desconfiança.

A rapariga parecia ter nascido com mil deveres: preparava bacalhau à Brás para todos, lavava montes de roupa até os lençóis ficarem com cheiro a vento, varria a casa dos sonhos e do pó, ordenhava uma vaca que falava em versos, limpava o curral onde os animais dançavam à noite, e às vezes partia lenha que chorava resina. Muitas vezes, Leonor fazia trabalhos que só homens de bigode costumavam fazer, mas era durante as ceias festivas que tudo ficava mais pesado. Vinham sempre, pelo menos, sete criaturas umas com rosto, outras com sombra por rosto e ela tinha de servir e alimentar todos, sem que o pão se multiplicasse numa mesa já tão vazia.

Por isso, cozinhava uma mesa cheia de iguarias: arroz doce com canela, pastéis de bacalhau, sopa da pedra e, numa hora, tudo desaparecia, tragado por bocas ansiosas e risos que tilintavam como moedas. Leonor, cansada como uma estrela a cair, sentava-se à beira da mesa e punha na travessa uma posta com um ar tímido. A sogra, de olhos escuros como noite sem lua, olhava-a e dizia:

Leonor, estás a comer demais hoje. És tão pequena e comes como se engolisses todo o Tejo! depois ria, ria, e a risada vinha de sítios frios.

Os outros, como ecos, começaram a zombar de Leonor também. Ela levantou-se da mesa sem dizer palavra e escondeu-se entre o fogão e a saudade, na cozinha. O choro dela era tão fundo que fazia eco entre as frigideiras. Não comera nada o dia inteiro, e o marido limitava-se a ouvir o escárnio, calado, como se as palavras fossem feitas de pedra.

Da cozinha escutou ainda a sogra, no outro lado:

Olha, ontem encontrei a minha ex-nora no mercado de Setúbal! Felizmente, ainda me chama mãe. Aquela sim, era uma menina de jeito não como esta!

Quando finalmente todos os convidados partiram com o vento, Leonor recolheu todas as loiças e foi, em silêncio, à cozinha lavá-las. O sogro, figura de sombra, seguiu-a com passos descalços.

Ficaram assim, ela de costas para a presença dele, esfregando pratos como se lavasse lembranças. O sogro fitou-a longamente, depois murmurou, com voz de trovão escondido:

Leonor, sabes que te odeio?

Doía tanto ouvir aquilo, que Leonor decidiu não responder, fechando-se no silêncio como quem fecha uma janela contra o inverno. O sogro perguntou outra vez, insatisfeito. Ela respondeu por fim:

Sei.

É tão estranho Fazes tudo aqui, ajudas todos, nunca deste queixa de nada, e mesmo assim odeio-te. Não achas estranho?

Acho, sim…

Leonor sabia que após esta conversa, nada mudaria. O mundo seguiria a zombar dela, as paredes continuariam a trincar as palavras dela ao jantar. Não compreendia porque permanecia ali, entre esses fantasmas.

Viverias com um homem que aceita ver a mulher insultada, dia após dia, enquanto os sinos de Lisboa soam longe e todas as madrugadas parecem feitas de sal?

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William regressou do trabalho e trouxe a sua nora grávida para casa. Os seus pais não ficaram nada satisfeitos com a situação
Mudei-me para a casa dele para começarmos do zero e acabei a dormir no sofá na “minha própria casa”