“A mãe do Manel não gosta de confusão, sabes disso.” “Mas à tua mãe até que lhe agradam arranjos de graça”, respondeu a Sara.

Vamos encomendar papel de parede roxo, disse-lhe o marido de Beatriz, com a voz carregada de nuvens. Não vês que não combina nada com o tom do chão? O melhor seria bege… A minha mãe não suporta bege, já tu devias saber isso, respondeu Beatriz, vendo na parede um quadro torcido a dançar lentamente. Mas à tua mãe agradam-lhe as obras gratuitas, devolveu ela, num sussurro que ecoou como se a sala tivesse catedrais de vidro suspensas nas cortinas.

A mãe do marido tinha insinuado uma vez, enquanto mexia no chá com uma colher minúscula, que seria de bom tom receber a casa renovada por dentro e por fora. Beatriz calou-se, sentindo o sabor amargo de bolachas que nunca provara antes. Mas ao marido, chamado Martim, a ideia soou como um sino distante numa tarde enevoada: afinal, era a casa da mãe. Beatriz era contra, mas ficou muda, como se dormisse acordada.

No fundo, ela pensava, não era bem assunto dela. Se era para fazer, que fizessem. Deixava para Martim resolver. A sogra não disfarçou a pressa só queria resultados, sempre com o olhar de quem conta notas de euro invisíveis entre os dedos. Nenhum obrigada, só listas de desejos esvoaçantes: Beatriz, isto não é obra gratuita, é um presente do meu filho, assegurou-lhe Martim, andando como se pisasse nuvens de algodão. Claro que é, e não podia ser outra coisa.

A mãe dele gostava de tudo que fosse dado. Era por isso, jurava Martim, que ela só reclamava quando pagava. Se não gostava, refaziam tudo. Beatriz acertava: a renovação ficou pronta e a mãe regressou, percorrendo o apartamento como um peixe sonâmbulo em água espessa. Ficou estranho. O papel não era o que sonhei, a cozinha não presta. E estes armários? Parece tudo tão mal feito que nem há palavras. Só me apetece processar-vos. E contra quem? O teu filho, que pagou tudo do bolso dele? Vá lá, Beatriz, estou a brincar, insistiu a senhora, já com o casaco vestido ao contrário.

A mãe não estava bem-disposta talvez esperasse uma renovação digna dos contos do Algarve, mas a realidade era mais modesta e nova. Tudo luzia, mas não custara tanto quanto sonhara. E por isso, não gostou. Martim e Beatriz não tinham euros caídos do céu. Empenharam-se, mas nem um obrigada ouviram. Beatriz, não acho que a mãe goste mesmo das obras que fizemos, confessou Martim uma noite em que a sombra da lua parecia uma toalha num varal. Nunca gosta! Alguma vez viu alguma coisa que lhe agradasse? Queria algo melhor… Ouves, não temos dinheiro que chegue! Não podemos pedir um empréstimo, não?, apareceu a sogra atrás da porta, vestida de lençol como um fantasma esquecido.

Beatriz estava certa de que a sogra não escutava nada a não ser o tilintar de moedas. Se fosse pela mãe, os filhos faziam empréstimos ou pediam a amigos, e tudo com juros doces como pastéis de nata. Mas Beatriz já achava tudo isto um absurdo, e Martim antecipou-se: Mãe, nada de empréstimos! Sabes a minha opinião. E para quê? Para obras? Está tudo feito, com gosto. O que queres mais? Ao menos refaçam a cozinha. E desapareceu como se nunca tivesse ali estado. Martim, acho que perdeu toda a vergonha, murmurou Beatriz. Sabes como ela é, tem o feitio de um trovão.

No armazém de ferragens havia muita gente com faces espelhadas. Beatriz segurava uma toalha nova, Martim examinava torneiras que pingavam palavras. Não levaram grande coisa, mas a conta era redonda como um queijo da Serra. Tudo parecia infinito, como corredores sem fim.

Subitamente, Beatriz parou como um relógio desencontrado. Disseste que não havia mais dinheiro para obras. Pois, tivemos de pedir emprestado algures… Estou farta! E pousou a toalha num canto como se largasse uma âncora. Quem quisesse, que a apanhasse. Para a mãe dele já bastava. Pediste dinheiro a alguém só para ela? Olhou-o de esguelha, cabelos em suspensão. Chega. E não te atrevas a discutir comigo! Beatriz começou a andar para a porta, arrastando atrás de si tapetes e sombras. Martim seguiu-a, devagar, a cidade lá fora respirando azul. Mesmo que fosse a mãe, tudo tem um fim, sonhou ela ao atravessar a rua, onde um gato chamado Fado dormia dobrado dentro de uma meia.

Оцініть статтю
Додати коментар

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

four + 19 =