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010
“Oleczinha, minha filha, por favor, ouve a mamã – vamos ter de viver aqui por um tempo, logo tudo passa e voltamos para a cidade: a história de Olívia, da mãe Sofia e da casa da avó na aldeia portuguesa”
Matilde, filha, ouve-me, por favor a mãe baixou-se, ficando à tua altura precisamos de passar um tempo
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013
Na primavera de 1992, numa pequena cidade portuguesa, um homem sentava-se todos os dias num banco em frente à estação de comboios. Não pedia esmola. Não falava com ninguém. Simplesmente ali ficava, com um saco de ráfia aos pés e o olhar perdido nas linhas. Chamava-se Manuel. Tinha sido maquinista antes do 25 de Abril. Depois da Revolução, a oficina fechou, os comboios rarearam e pessoas como ele ficaram de fora. Tinha 54 anos e um silêncio pesado, daqueles que não se vão embora. Todos os dias chegava à estação às oito, mesmo como antigamente, quando começava o turno. Ficava até ao almoço, depois ia-se embora. As pessoas conheciam-no de vista. “Aquele que trabalhou na CP.” Ninguém lhe perguntava nada. Um dia, sentou-se ao seu lado um rapaz de uns 19 anos. Trazia uma mochila velha e uma folha amarrotada na mão. Olhava muitas vezes o relógio. Tremia, de fome ou de nervos, não se sabia. — Há algum comboio para Lisboa? perguntou o rapaz, sem olhar para Manuel. — Às quatro menos um quarto, respondeu o homem, quase automaticamente. O rapaz suspirou. Disse-lhe que tinha entrado na universidade, mas não tinha dinheiro para o bilhete. Vinha com o que juntara na aldeia, mas não chegava. Não queria voltar para casa. “Prometi-lhes que ia conseguir”, disse, mais para si. Manuel não disse nada. Levantou-se, pegou no saco e foi-se embora. O rapaz ficou de olhos no chão, convencido de que tinha falado em vão. Passados uns dez minutos, Manuel voltou. Deixou algo no banco, ao lado do rapaz. Um antigo passe da CP e algum dinheiro. — Já não preciso disto. Eu cheguei onde tinha de chegar. Tu ainda não. O rapaz tentou recusar. Quis dizer que não podia aceitar, que não era justo. Manuel travou-o com um gesto. — Se chegares longe, ajuda outro. Só isso. O comboio partiu. O rapaz foi com ele. Manuel voltou no dia seguinte ao banco, à mesma hora. Mas não ficou muito tempo. Meses depois, numa manhã, alguém se sentou ao seu lado. Era o mesmo rapaz. Mais magro, mais cansado, mas sorria. — Passei o ano. Arranjei trabalho. Vim devolver-lhe o que me deu. Manuel acenou com a cabeça e sorriu pela primeira vez em muito tempo. — Fica com eles. Não quebres a corrente. Os anos passaram. Manuel deixou de ir à estação. E dez anos depois, o rapaz de então já não era rapaz. Tinha emprego estável, uma família a começar, e uma vida erguida apesar das dificuldades. Voltou à terra natal por uns dias, mais por saudade do que por obrigação. A estação estava igual. Os bancos, também. Só as pessoas mudavam. Uma tarde, parou em frente ao edifício e, sem saber bem porquê, perguntou pelo homem que costumava sentar-se ali todos os dias. — O Manuel? Disseram-lhe. Teve um acidente. Há dois anos. Um carro. Amputaram-lhe uma perna. Está acamado. A mulher trata dele. Sentiu o peito apertar-se. Não perguntou mais nada. Soube a morada e foi logo até lá. Manuel estava num quarto pequeno, no segundo andar de um prédio antigo. A cama junto à janela. A mulher, a mesma que vira por vezes na estação, olhou-lhe longamente quando entrou, depois sorriu e saiu do quarto. — Voltaste — disse Manuel, passados segundos. Reconheci-te. Estás a tornar-te homem. O homem estava mais magro, o cabelo todo branco, mas o olhar igual. Calmo, luminoso. Falaram muito. Sobre comboios, sobre a vida, sobre ninharias. A certa altura, Manuel encolheu os ombros e sorriu. — Depois de uma vida a trabalhar na CP, entre comboios, veja lá, foi um carro de quatro rodas que me tramou. É a sorte de cada um. Riu. Um riso curto, sincero. Como se nem isso o vencesse. O jovem foi-se embora com um nó na garganta e uma decisão tomada. Nos dias seguintes, mexeu-se, perguntou, falou com pessoas. Não contou nada a ninguém. Quando voltou, Manuel estava sozinho no quarto. Entrou, empurrando uma cadeira de rodas nova. E um envelope com dinheiro escondido no bolso do assento. — O que é isto? admirou-se o velho. — Tal como me ajudou a ir de comboio para a faculdade, ajudo agora eu… Foi o que consegui fazer. Manuel ergueu as mãos, ia dizer algo, mas o jovem abanou a cabeça e respondeu: — Para não quebrar a corrente, lembra-se? Agora era a minha vez. Manuel não disse nada. Apenas lhe apertou a mão com força. Neste mundo, muita coisa se perde. Pessoas, comboios, anos. Mas às vezes, os gestos regressam. Não como dívida, mas como continuação. Enquanto não quebrarmos a corrente da bondade, aquilo que damos regressa, talvez não a nós, mas onde faz falta. Se já viveste ou assististe a um gesto que não quebrou a corrente da bondade, partilha-o também. Precisamos de mais histórias assim, que nos façam sentir parte uns dos outros. ❤ Um gosto, comentário ou partilha pode ajudar a corrente a continuar.
Na primavera de 1992, numa pequena cidade do interior de Portugal, havia um homem que se sentava todos
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0150
Não és bem-vinda: Como uma filha rejeitou a mãe pelo seu aspeto físico Desculpa, mãe, mas agora não venhas cá, está bem? — disse a minha filha, baixinho e quase como quem não quer a coisa, enquanto calçava os ténis no corredor. — Obrigada por tudo, a sério, mas neste momento… neste momento é melhor ficares em casa e descansares. Já eu estava de mala na mão e o casaco vestido, pronta para ir, como de costume, buscar a minha netinha enquanto a minha filha ia ao pilates. Era sempre assim — eu chegava, tomava conta e depois voltava ao meu T1 nos Olivais. Mas hoje, algo estava diferente. Depois daquelas palavras, fiquei ali, parada, sem saber o que pensar. O que terá acontecido? Terei feito alguma coisa errada? Peguei mal na bebé ao colo? Vesti-lhe o babygrow errado? Dei-lhe comida à hora errada? Ou talvez… talvez apenas não tenha olhado para ela da maneira certa? Mas não, era algo bem mais banal e doloroso. Tudo por causa dos sogros dela. Gente rica, influente, com cargos importantes, decidiram que agora também queriam “visitar” a neta todos os dias. Com ar importante, traziam presentes e sentavam-se à mesa da sala — a mesma que eles próprios tinham oferecido ao casal. E o apartamento, até esse, era deles também. Os móveis, o chá — tudo vinha deles. Chegavam com latas de chá caro, daqueles que só se encontram em lojas especiais. Instalavam-se por toda a casa. E, pelos vistos, a neta agora era “deles” também. Enquanto eu… eu tornava-me dispensável. Eu, ferroviária com mais de trinta anos de serviço, mulher simples, sem títulos nem joias, sem roupa de marca. — Olha para ti, mãe — disse a minha filha. — Engordaste. Tens o cabelo todo branco. Estás… desleixada. Essas camisolas, sem jeito nenhum. E cheiras a comboio. Percebes? Fiquei calada. Que podia eu dizer? Depois dela sair, fui até ao espelho. Sim, lá estava uma mulher de olhos cansados, com rugas à volta da boca, vestida com uma camisola gasta, as bochechas vermelhas de vergonha. O desgosto comigo própria caiu-me em cima sem aviso, como uma trovoada num dia de verão. Saí para apanhar ar, sentindo a garganta apertada e as lágrimas nos olhos, quentes e amargas a descerem pela cara. Voltei ao meu pequeno apartamento nos Olivais. Sentei-me no sofá e peguei no velho telemóvel onde guardava as fotografias antigas. Lá estava a minha filha pequenina, com laço no cabelo no primeiro dia de escola. O baile de finalistas, o diploma, o casamento. E agora a minha neta — a rir-se, cravada no berço. A minha vida toda naqueles retratos. Tudo o que eu tinha e a quem dediquei os meus melhores anos. E se agora diziam “não venhas cá”, assim seja. O meu tempo passou. Cumpri o meu papel. Agora só restava não incomodar. Não ser um peso. Não estragar a vida dela com o meu aspeto. Se precisassem de mim — chamavam-me. Talvez chamem. Passou algum tempo. Um dia, o telefone tocou. — Mãe… — a voz soava tensa. — Podes vir cá? A ama foi-se embora, os sogros… bem, mostraram-se como são na verdade. O André saiu com os amigos, estou sozinha. Fiquei em silêncio alguns segundos. Depois, respondi calmamente: — Desculpa, minha filha. Agora não posso. Tenho de cuidar de mim. De “merecer”, como disseste. Quando chegar o momento — talvez vá. Desliguei e sorri, pela primeira vez em muito tempo. Triste, mas com orgulho.
Desculpa, mãe, não venhas cá a casa por agora, está bem? disse a minha filha num tom quase apagado, baixando
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031
Saí esta noite da casa do meu filho, deixando um assado ainda fumegante na mesa e o avental amarrotado no chão. Não deixei de ser avó. Deixei de ser invisível na minha própria família.
Saí da casa do meu filho esta noite, deixando para trás um assado de vitela ainda a fumegar sobre a mesa
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022
Lucas tinha apenas doze anos, mas a sua vida já era moldada pela tristeza: perdera a mãe ainda pequenino e o pai desaparecera pouco depois, deixando-o entregue às ruas de Lisboa, dormindo sob pontes e nos bancos frios dos parques. Numa noite gelada de inverno, enquanto procurava abrigo junto a uma padaria fechada, ouviu um lamento vindo de um beco escuro—era o Sr. Jaime, um idoso caído e incapaz de se levantar. Vencendo o medo, Lucas ajudou-o, partilhando o seu cobertor e levando-o até uma velha casa amarela ali perto. Descobriram um no outro a mesma solidão, e o Sr. Jaime ofereceu-lhe abrigo, dizendo: “Esta casa é demasiado grande para uma só pessoa. Fica comigo, nenhum menino deveria enfrentar o mundo sozinho.” Assim, naquela noite, um simples gesto mudou para sempre as vidas de um rapaz sem teto e de um idoso solitário, mostrando que a esperança pode surgir nos cantos mais inesperados de Lisboa.
Martim tinha apenas doze anos, mas quase toda a sua infância já tinha sido marcada por dificuldades.
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018
Olga passou o dia inteiro a preparar-se para a passagem de ano: limpou a casa, cozinhou e pôs a mesa. Era o seu primeiro Réveillon longe dos pais, junto do homem que amava. Já vivia há três meses com o Tó na casa dele. Ele era 15 anos mais velho, já tinha sido casado, pagava pensão de alimentos e, volta e meia, gostava de beber… Mas tudo isso não tinha importância quando se ama. Ninguém percebia o que ela via nele: estava longe de ser bonito — honestamente, até era feio, tinha um feitio impossível, era mais forreta do que o normal e dinheiro nunca havia; e se havia, era só para ele. E foi por este “fenómeno” que a Olhinha se apaixonou. Durante três meses, OIga esperou que o Tó percebesse como ela era dedicada e prendada e que quisesse casar com ela. Ele próprio dizia: “Primeiro é preciso viver juntos, para eu perceber se és boa dona de casa. Que não sejas como a minha ex.” Como era a ex dele, para a Olha era um mistério — ele nunca dizia coisa com jeito. Por isso, ela fazia de tudo: não se queixava quando ele chegava bêbado, cozinhava, lavava, limpava, comprava as compras com o próprio dinheiro (para não pensarem que era interesseira). O jantar de Ano Novo foi ela que pagou. E até lhe comprou um telemóvel novo para oferecer. Enquanto Olga se ocupava com os preparativos, o “fenómeno Tó” também se preparava à sua maneira — foi beber com os amigos. Chegou a casa já alegre e avisou que iam receber amigos para a passagem de ano. Amigos dele, que ela nem conhecia. A Olha pôs a mesa, faltava uma hora para o Ano Novo. Já estava maldisposta mas tentava não perder a cabeça — não queria ser como a ex dele. Meia hora antes da meia-noite apareceram em casa um grupo de homens e mulheres bêbedos. O Tó animou-se logo, pôs toda a gente à mesa e a festa começou. Nem apresentou a Olga e ninguém lhe deu importância — sentaram-se, comeram e passaram a noite na conversa e nas piadas deles. Quando Olga sugeriu que, como faltavam 2 minutos para o Ano Novo, deviam encher os copos de espumante, olharam para ela como se fosse uma intrusa. “E esta quem é?”, perguntou uma das raparigas já com os copos. “É a vizinha de cama,” gracejou o Tó, e os amigos riram-se com ele. Comiam as iguarias que a Olga fez e gozavam com ela. À meia-noite, troçavam da ingenuidade dela e até deram os parabéns ao Tó pela “esperteza”: tinha conseguido uma doméstica e cozinheira à borla. O Tó nem a defendeu; pelo contrário, riu-se à grande. Devora a comida paga por ela e ainda lhe pisa a autoestima. A Olga levantou-se em silêncio, fez a mala e foi para casa dos pais. Nunca tinha passado um Ano Novo tão mau. A mãe só disse o habitual: “Bem te avisei”, o pai aliviou e a Olga, depois de chorar tudo, tirou de vez os óculos cor-de-rosa. Uma semana depois, já sem dinheiro, o Tó foi ter com a Olga e, como se não fosse nada, perguntou: “Então, porque é que foste embora? Estás amuada?” E, vendo que ela não queria conversa, ainda diz: “Muito bem, tu a passear em casa dos pais e eu sem nada para comer! Já te estás a portar como a minha ex!” Com tamanha lata, a Olga nem soube o que responder. Já tinha ensaiado mil vezes tudo o que lhe queria dizer, mas na hora nem palavra saiu. Só conseguiu mesmo foi mandá-lo f… e fechar-lhe a porta na cara. Assim começou para a Olga uma nova vida, logo no amanhecer de um novo ano.
Recordo-me daquele distante Réveillon como se fosse ontem. Leonor passou o dia inteiro a preparar-se
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0118
Svetlana desliga o computador e se prepara para sair quando é surpreendida por uma visita inesperada: uma jovem chamada Cristina, que revela estar grávida de cinco a seis semanas do marido de Svetlana, Kostas, e propõe um acordo em troca de dinheiro. Envolvida em chantagem, segredos e escolhas difíceis, Svetlana precisa decidir entre pagar à jovem para sumir ou aceitar a proposta de ficar com o bebé que tanto deseja – numa história repleta de intriga, traição e dilemas morais passada em Lisboa, explorando até onde se vai por amor e pelo sonho da maternidade.
Constança desligou o computador e preparava-se para ir embora. Dona Constança Duarte, apareceu aqui uma rapariga.
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030
Tenho 25 anos e há dois meses moro com a minha avó. A minha tia – a única filha viva da minha avó – faleceu de repente há dois meses. Até então, viviam juntas. Partilhavam a casa, o quotidiano, os silêncios. Eu visitava-as frequentemente, mas cada uma de nós tinha a sua vida. Tudo mudou no momento em que a minha avó ficou sozinha. A perda não me é estranha. A minha mãe faleceu quando eu tinha 19 anos. Desde então, aprendi a conviver com a ausência como algo diário. Nunca conheci o meu pai. Não há história, nem verdades por contar – simplesmente não esteve presente. Por isso, quando a minha tia partiu, percebi com clareza: restamos só eu e a minha avó. Os primeiros dias após o funeral foram estranhos. A minha avó não chorava constantemente, mas a dor fazia-se notar nas pequenas coisas – levantava-se devagar, esquecia-se de apagar as luzes, sentava-se a olhar para o vazio. Disse a mim mesma que ficaria “uns dias”. Esses dias tornaram-se semanas. Até que, um dia, arrumei as minhas roupas e percebi que já não ia embora. Desde aí, as opiniões não tardaram. Há sempre quem tenha algo a dizer. Alguns dizem que fiz a coisa certa – como poderia deixar uma senhora idosa, que acabou de perder a filha, sozinha? Outros afirmam que estou a desperdiçar a juventude, que aos 25 devo viajar, sair, namorar, “viver a minha vida”. Perguntam se não me pesa, se não me sinto presa, se não tenho receio de acabar sozinha depois. A verdade é que eu não vejo as coisas assim. Trabalho, poupo, cuido da casa, levo a minha avó aos médicos, cozinhamos juntas, à noite vemos televisão. Não sinto que abdico de nada. Sinto que escolho. Neste momento, não tenho companheiro, não penso em filhos ou em emigrar. Penso em estabilidade, em presença, em não repetir a história de abandono que conheço tão bem. A minha avó é o que me resta da família direta. Não tenho mãe, não tenho tia, não tenho pai. E não quero que ela passe os últimos anos da vida a sentir-se um peso ou um estorvo. Não quero que coma sozinha todos os dias ou adormeça com a ideia de que não tem ninguém. Talvez, mais tarde, a vida me leve para outro caminho. Talvez viaje, me apaixone, vá embora. Mas hoje, este é o meu lugar. Não por obrigação. Não por culpa. Mas porque amo a minha avó e porque gosto de mim ao seu lado. E vocês, o que fariam?
Tinha eu vinte e cinco anos quando, já há dois meses, vivia em casa da minha avó. A minha tia Carlota
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022
Descobri que o meu ex-marido me traía porque começou a varrer a rua todos os dias: parecia impossível, mas foi assim que percebi. Ele era eletricista, trabalhava em casa, nunca ligou para tarefas domésticas. Só quando uma nova vizinha se mudou é que ele passou a levantar-se cedo para varrer, sempre no mesmo horário, e logo percebi que não era coincidência: todos os dias, lá estava ele à conversa e a sorrir para ela. Sem mensagens, sem provas, apenas rotinas e coincidências que já não eram coincidências. Quando o confrontei, admitiu estar apaixonado – e acabou mesmo por ir viver com ela na casa ao lado.
Descobri que o meu ex-marido me traía porque, de repente, começou a varrer a rua. Pode parecer ridículo
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027
Tenho 65 anos e, embora sempre tenha sido relativamente tranquila com a minha aparência, ultimamente os cabelos brancos começaram a ganhar terreno — não apenas fios soltos, mas autênticas madeixas, principalmente nas raízes. Ir ao cabeleireiro já não me parecia tão simples como antigamente; entre o tempo, o preço e a espera, comecei a pensar que talvez não fosse assim tão terrível aventurar-me a pintar o cabelo sozinha em casa. Afinal, passei a vida a fazê-lo! O que poderia correr mal? Fui à drogaria do bairro, não a uma loja especializada para cabeleireiros. Disse que procurava uma “tinta para cabelos brancos”. A funcionária perguntou-me a cor e eu respondi: “castanho normal, nada de especial”. Mostrou-me uma caixa com aspeto sério e discreto, com uma mulher de cabelo bonito na capa. Dizia que cobria os cabelos brancos a 100%. Fiquei convencida. Não li mais nada. Voltei para casa certa de que em uma hora estaria tudo pronto. Vesti uma t-shirt velha, preparei uma toalha, misturei o conteúdo conforme as instruções e apliquei a tinta em frente ao espelho da casa de banho. No início parecia tudo normal; a cor estava escura, como sempre. Aproveitei para lavar a loiça e arrumar a cozinha enquanto esperava o tempo recomendado. Ao fim de uns vinte minutos, algo estranho: ao olhar-me ao espelho, o cabelo já não estava castanho, mas sim roxo. Pensei que fosse do reflexo da luz na casa de banho, disse a mim mesma que era impressão minha. Mas, assim que fui enxaguar, percebi que algo de muito errado se passava. À medida que a água passava pelo cabelo, ia mudando: primeiro roxo, depois castanho escuro e, por fim, quase preto. No reflexo do espelho, lá estava eu — com reflexos lilás e violetas e um tom impossível de descrever. Os brancos tinham desaparecido, sim. Mas a que preço… Tentei secar o cabelo a ver se a cor mudava ao secar. Não mudou. Pelo contrário: intensificou-se ainda mais. Parecia saída de uma sessão fotográfica de moda adolescente do que uma mulher de 65 anos. Comecei a rir sozinha — não havia mais nada a fazer. Liguei por videochamada à minha filha e, mal me viu, quase se desfez a rir. Perguntou: “Mãe… o que é que fizeste?” Só consegui responder: “Marca-me um cabeleireiro, por favor.” No dia seguinte, tive de sair assim à rua. Pus uma toalha na cabeça, mas o roxo ainda se notava. No supermercado perguntaram-me se era um novo estilo. Na padaria, uma senhora elogiou a minha coragem por usar aquelas cores. Acenei, como se tivesse sido tudo intencional. Dois dias depois, fui ao cabeleireiro — sem qualquer orgulho. Mal me viu, a cabeleireira percebeu logo. Não me julgou, só disse: “Acontece mais vezes do que imagina.” Saí do salão com o cabelo arranjado, a carteira mais leve e a lição aprendida: há coisas que achamos que ainda conseguimos fazer como antigamente… até aparecermos com o cabelo roxo. Desde então, aceitei duas coisas — que os cabelos brancos chegam sem avisar, e que há batalhas que é melhor deixar nas mãos dos profissionais. Isto não é um drama familiar, mas sim um verdadeiro episódio de vida.
Tenho 65 anos e, apesar de sempre ter sido relativamente tranquilo em relação à minha aparência, ultimamente