“Oleczinha, minha filha, por favor, ouve a mamã – vamos ter de viver aqui por um tempo, logo tudo passa e voltamos para a cidade: a história de Olívia, da mãe Sofia e da casa da avó na aldeia portuguesa”

Matilde, filha, ouve-me, por favor a mãe baixou-se, ficando à tua altura precisamos de passar um tempo aqui, está bem? Vai ser só por uns tempos, logo tudo se resolve e voltamos para a cidade.

A Matilde ficou a olhar para a mãe, caladinha.

Matilde, estás a ouvir-me? Percebeste? a mãe abanou-a levemente pelos ombros.

Estou, mãe, estou a ouvir

Então porque é que não respondes? A mãe estava nervosa, Matilde notava.

Não era por mal, mãe, estava só a pensar.

Pois, a pensar Olha só para isto, Matilde, olha quantos livros há aqui Quando era miúda, adorava lê-los

Mãe mas vamos ficar aqui muito tempo?

Não sei, amor Vamos ter de ficar por enquanto.

A Matilde percebia tudo o que se passava, sabia o que tinha acontecido com ela e com a mãe. Achava graça à ideia da mãe pensar que ela era pequena de mais para perceber.

Matilde, a tia Catarina vem cá ver-te, eu de manhã saio cedo para trabalhar, regresso só ao fim do dia. Mas ao fim de semana estamos as duas, vamos até ao rio dar uns mergulhos

A mãe tapou a cara com as mãos.

Desculpa, desculpa, filha…

Não chores, mãe, não chores. Eu sei que o pai nos deixou, que estamos a tentar ser fortes, e que esta casinha da avó Rosa foi o melhor sítio para nós, e que alugaste o apartamento a outras pessoas.

Eu sei tudo, mãe Vou portar-me bem, prometo. Fico aqui à espera que chegues, vou ler livros, e a tia Catarina dá uma olhada em mim.

Vamos conseguir, mãe Em setembro já vou para a escola. Mãe, há escola por aqui?

Não, filha, aqui já não há escola nenhuma. Mas prometo que em setembro regressamos ao nosso apartamento. Agora é só aguentar até eu arranjar um trabalho em condições.

O apartamento está alugado até agosto, por isso temos tempo. E depois ainda fazemos umas obras e fica tudo perfeito. Vai correr tudo bem, filha

Eu sei, mãe

Naquela noite, ficaram as duas sentadas à porta da casinha, e a mãe foi falando da infância dela, de como a avó Rosa era maravilhosa.

Mãe, a tua mãe ainda é viva?

É, suspirou a mãe mas… ela nunca quis saber muito de mim.

Como assim, mãe? Como não queria saber?

Foi assim… fui demasiado cedo para ela, as coisas com o pai correram mal, ele foi-se embora para outra cidade, fez nova família. A minha mãe ficou perdida, e pouco depois deixou-me com a minha avó Rosa, foi para Lisboa à procura da tal felicidade

E encontrou o que queria?

Encontrou a felicidade, filha. Mas esqueceu-se de mim Casou-se outra vez, tem outros filhos, e eu só se lembra de mim em datas especiais.

Lembro-me de uma vez que ela cá apareceu, tinha um dos miúdos doente, trouxe-o para o campo, para estar no ar puro.

Os irmãos nem sabiam que eu era irmã deles. Nunca falou de mim.

A avó pediu-lhe uma vez para me arranjar um vestido para o baile de finalistas… E ela gritou com a avó, disse que tinha coisas mais importantes com os filhos dela, que nem queria ouvir falar de vestidos.

Zélia, disse a avó, a Matilde também é tua filha, como podes ser assim?

Ela que arranje o dinheiro para o vestido dela! murmurou a mãe dela, a Zélia, cheia de despeito.

A avó ficou furiosa e expulsou-a de casa naquela noite

Nunca a trataste por mãe, pois não?

Não consigo, filha… Para mim, quem foi mesmo mãe, foi a avó Rosa.

Por isso é que te chamas Rosa, por causa da avó, não é, mãe?

Deve ser por ela.

Gostavas mesmo da avó, gostavas?

Muito, filha, muito. Quando ela partiu, parece que o mundo ficou mais escuro E à Zélia, a minha mãe, também gostava dela esperava sempre que viesse nas festas, no meu aniversário, em dias de escola

E quando precisei dela não tinha tempo, estava num almoço de família do marido.

Mais tarde lá apareceu, chorou, disse-me para me arranjar. Pensei: vem buscar-me. Mas simplesmente colocou-me num colégio e meteu-me num quarto partilhado com outras miúdas.

Passei o Natal a pensar que vinha buscar-me. Desculpa, Rosa, não pode ser, está a casa cheia, vai muita gente. Lembro-me de lhe pedir a chave da casa da avó.

Para quê? perguntou.

Porque é minha também. E se achas que podes dispor da minha casa, estás enganada

Também é minha ela resmungou. Os vizinhos todos disseram que, se fosse preciso, faziam frente por mim, em respeito à avó Rosa.

Nessa passagem de ano, queria mesmo ficar sozinha, mas vieram cá as minhas amigas, acabámos por fazer uma boa noite

Depois, fiz dezoito anos.

E agora, ainda falas com ela?

Não Para quê, filha? Nada temos a dizer uma à outra.

E tu nunca me vais fazer isso, pois não?

Nunca, ouviste? Nunca!

A Matilde já se sentia crescida e nem tinha mais medo de nada. A mãe ia trabalhar, a tia Catarina vinha cá duas vezes por dia.

Ela punha a mesa, arrumava, lavava os pratos, dava de comer à boneca Clara, e sentava-se a ler um livro.

A Matilde só aprendeu a ler há pouco, mas já gosta imenso, lê para a Clara e para o urso Tobias.

Os dias passavam todos iguais. Ao princípio chorou um bocado ou melhor, as lágrimas caíam mesmo quando tentava não chorar. Não era ela a chorar, eram aquelas lágrimas teimosas.

Depois, quando a mãe regressava, tudo passava.

Mas um dia, a mãe não apareceu. E continuava sem aparecer, já era noite, a Matilde acendeu a luz, fechou as cortinas.

Não tenham medo, Clara, Tobias, Mariana, Inês, e tu também, palhaço Artur não tenham medo dizia às bonecas.

Talvez devesse ir ao apeadeiro esperar a mãe mas tinha medo de se perder pelo caminho.

Tentava afastar pensamentos maus Não, a mãe nunca ia deixá-la, não podia. Não havia avó Rosa para ficar com ela

A Matilde imaginava a mãe a refazer a vida, com outros filhos, a esquecer-se dela E ela, sozinha, nesta casa

Foi então que, sem conseguir conter-se, chorou alto. As lágrimas saltaram, doeram-lhe os olhos, a garganta arranhava acabou por adormecer na cadeira da janela, a chorar.

O barulho no alpendre acordou-a e se fossem ratos? E se fosse a avó Zélia, que nunca conhecera, a vir expulsá-la dali? A Matilde encolheu-se, assustada

De repente, a porta abriu-se e a luz acendeu-se.

Mãe! gritou Matilde, saltando da cadeira, que caiu mãe, mãezinha!

Filha, Matilde, minha menina desculpa, desculpa, perdi o último comboio e tive que vir a pé desde a estação ao lado.

Tiveste medo, mãe?

Muito, Matilde e muito medo por ti! Chorei tanto, pedia-te para não ficares triste acho que até assustei todos os lobos do caminho! a mãe ria e chorava ao mesmo tempo.

Tive medo que achasses que eu não voltava.

Foi aí que, pela primeira vez, a Matilde mentiu à mãe.

Eu nunca pensei isso, mãe, sempre soube que nunca me ias deixar.

Era mentira, ela pensou sim, mas não quis fazer a mãe sofrer ainda mais.

Ficaram ali até final de agosto, depois Matilde foi para a escola e a mãe arranjou um bom emprego.

O pai decidiu levar a mãe a tribunal para ter a Matilde aos fins de semana. A mãe só se ria e dizia que nunca foi ela a impedir: Ele é que nunca quis.

A Matilde começou por se entusiasmar com os fins de semana com o pai, mas depois

Mãe, acho que ele é como a tua Zélia. Acho que não precisa realmente de mim, só vai buscar-me porque sim. Leva-me para o centro comercial, põe-me na sala das crianças, vai telefonar, discutir com gente

E eu fico no banco a ver os pequeninos a brincar. Mãe, não queria mais ir com o pai Depois dizes-lhe?

O pai irritou-se, culpou a mãe: Tu pões a miúda contra mim!

Sou teu pai, não tens nada que dizer isso!

Pai já não sou tão pequenina. Para quê a sala das crianças? E eu nem gosto de batatas fritas já cresci.

Quando foste embora e me deixaste em casa o dia todo quando a mãe perdeu o comboio e veio a correr pelo pinhal e foi seguida pelos lobos e eu fiquei sozinha

A segunda vez que a Matilde mentiu, agora ao pai. Dos lobos. O pai ouviu tudo e foi-se embora.

Apareceu um mês depois. Pediu desculpa, disse que tinha percebido e foram ao cinema só os dois.

Depois disso, a Matilde passou a gostar de ir ter com o pai.

Rosa, foi mesmo verdade que fugiste dos lobos? perguntou o pai à mãe.

Foi respondeu ela, muito séria.

Ficaram os dois a falar e o pai acabou por perder o comboio. Foi a mãe que disse que o comboio dele já tinha partido.

Mãe perguntou Matilde, já na cama e se o comboio do pai já foi, como vai para casa? Fica aqui com a gente?

O pai olhou para a mãe. Mas ela não cedeu.

Que vá a pé por aqui já não há lobos, riu-se.

Tu achas que ele queria voltar para casa, mãe?

Acho.

Não o perdoas?

A mãe ficou em silêncio.

É contigo, mãe, maseu gosto dos dois.

Eu sei, Matilde.

Mas gosto mais de ti, porque tu és a mãe mais corajosa do mundo, correste pelo pinhal sozinha só para me buscar, nem medo tiveste dos lobos.

Os anos passaram. A Matilde agora vai casar.

Mãe, tenho de te confessar uma coisa.

Diz filha.

Aquele dia, eu achei mesmo que me ias deixar como a Zélia

Ó minha menina, achas que eu alguma vez podia?

Na altura não sabia, mãe desculpa.

Desculpa tu, filha, por teres passado por tudo isso

Abraçaram-se, mãe e filha, como sempre. E ficaram ali juntas. Sempre juntas, mãe e filha.

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“Oleczinha, minha filha, por favor, ouve a mamã – vamos ter de viver aqui por um tempo, logo tudo passa e voltamos para a cidade: a história de Olívia, da mãe Sofia e da casa da avó na aldeia portuguesa”
Мъжът се върна вкъщи и с мирен глас съобщи, че му се е родило дете. Светът ми се завъртя пред очите!