Recordo-me daquele distante Réveillon como se fosse ontem. Leonor passou o dia inteiro a preparar-se para celebrar a chegada do Ano Novo: limpou a casa, fez os cozinhados tradicionais e pôs a mesa com o maior esmero. Era o seu primeiro Ano Novo longe dos pais, mas com o homem por quem o seu coração batia tanto.
Já ia no terceiro mês a viver com Estevão no apartamento dele, em Almada. Ele tinha mais quinze anos do que ela, fora casado, pagava pensão de alimentos ao filho, e, não raro, gostava de beber uns copos. Mas tudo isso parecia insignificante para quem ama. Ninguém entendia bem como é que Leonor se apaixonara tão cegamente por aquele homem: de aparência vulgar, até se poderia dizer que era feio; com um feitio complicado, avarento ao ponto de ser quase impossível, e nunca tinha dinheiro. E quando tinha, era só para satisfazer os próprios caprichos. Mas foi por este “fenómeno” que a nossa Leonor se deixou encantar.
Durante aqueles três meses, Leonor acreditava que, mostrando o quanto era paciente e dedicada, Estevão acabaria por reconhecer o seu valor e pedir-lhe em casamento. Ele, aliás, deixava claro: “Temos de viver juntos um tempo, para ver como és a tomar conta de uma casa. Não vá tu sair igual à minha ex-mulher.” Quem era essa tal ex, Leonor nunca soube Estevão nunca explicava nada de jeito. Por isso, ela desdobrava-se em atenções: não ralhava, mesmo quando ele chegava a casa bêbado; cozinhava, lavava a roupa, limpava tudo; pagava as compras sempre com o seu ordenado, não fosse Estevão achar que ela era interesseira. Até a ceia de Ano Novo pagou ela. E chegou mesmo a comprar um telemóvel novo para o presentear.
Enquanto Leonor corria de um lado para o outro, ocupada com os preparativos, Estevão também “se preparava” à sua maneira: saiu para beber com os amigos e regressou já bem disposto à sua maneira, dizendo que, naquela noite, os amigos dele, que ela não conhecia, viriam para a festa. A mesa estava posta, faltava uma hora para a meia-noite. O ânimo dela foi-se perdendo, mas continuou a conter-se nunca seria como a ex-mulher dele.
Meia hora antes do Ano Novo, invadiu-lhes a casa um grupo barulhento e bêbado, mulheres e homens, todos amigos de Estevão. Ele ficou logo animado, sentou-os à mesa e a festa da bebida continuou. Leonor nem foi apresentada; ninguém lhe ligava, conversavam e riam entre eles. Quando, a poucos minutos da meia-noite, ela lembrou que era tempo do champanhe, olharam para ela como se tivesse aparecido ali por engano.
E esta quem é? disparou, ensonada, uma das amigas.
É a vizinha da cama respondeu Estevão, soltando uma gargalhada, seguido pelo resto do grupo, que desatou a fazer pouco dela.
Comiam a comida da Leonor e faziam chacota dela. À medida que os sinos tocavam doze badaladas, riam-se ainda mais, gabando Estevão por ter arranjado uma rapariga pacata para tomar conta da casa de graça, cozinheira e empregada numa só. E Estevão, em vez de a defender, ria-se com eles, enchendo-se da comida que ela comprara e preparara, como se fosse a coisa mais natural.
Sem que ninguém desse por isso, Leonor saiu da sala, pegou nas suas coisas e foi para casa dos pais, com o coração apertado. Nunca tinha vivido um Ano Novo tão infeliz. A mãe limitou-se a dizer: “Bem te avisei, filha”, o pai soltou um suspiro de alívio, e Leonor, depois de todos os lamentos, percebeu finalmente quem tinha à frente.
Passada uma semana, quando as economias de Estevão se evaporaram, apareceu à porta de Leonor, como se nada fosse:
Então? Ficaste ofendida?
E, ao ver que ela não estava para reconciliações, tentou inverter o jogo:
Bonito serviço! Tu ali em casa a relaxar com os teus pais, e eu sem nada para comer! Afinal, és igual à minha ex!
Daquela lata, Leonor até ficou sem palavras. Tantas vezes ensaiara o que diria naquele momento, mas agora só lhe saiu um valente impropério, fechando-lhe a porta na cara.
E assim começou para Leonor um novo ano e, finalmente, uma nova vida.







