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024
Tenho 89 anos. Tentaram-me enganar por telefone. Mas eu sou engenheira.
Sabes, esta manhã estava eu sossegadinha na minha cozinha em Lisboa, a beber um chá de lúcia-lima e a
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028
Aos 70 anos tornei-me mãe sem nunca aprender a pensar em mim: casei-me jovem e logo na primeira gravidez a minha vida passou a girar em torno dos outros. Nunca trabalhei fora, não porque não quisesse, mas porque alguém tinha de ficar em casa. O meu marido saía cedo e chegava tarde. A casa era minha. Os filhos eram meus. O cansaço também. Lembro noites sem dormir — um filho com febre, outro a vomitar, outro a chorar. Eu — sozinha. Ninguém perguntava se estava bem. No dia seguinte, lá estava eu de novo: fazia o pequeno-almoço e seguia em frente. Nunca disse “não consigo”. Nunca pedi ajuda. Achava que assim era ser uma boa mãe. Quando os filhos cresceram, quis estudar — até um curso rápido. O meu marido respondeu: “Para quê? O teu trabalho já está feito.” Acreditei. Continuei a apoiar nos bastidores. Quando um deles perdeu um semestre, fui eu que falei com o meu marido para acalmar os ânimos. Quando uma filha ficou grávida nova, acompanhei-a nos médicos e tomei conta do bebé até ela ‘organizar’ a vida. Sempre fui eu a juntar os cacos quando algo se partia. Depois vieram os netos e a casa voltou a encher-se: mochilas, brinquedos, lágrimas, gargalhadas. Anos a ser infantário, cantina, enfermeira. Nunca procurei recompensa. Nunca me queixei. Quando já não aguentava mais, diziam: “Oh mãe, só tu sabes cuidar deles.” E isso mantinha-me de pé. Depois, o meu marido adoeceu e cuidei dele até ao fim. Seguiram-se as desculpas: “Esta semana não consigo”, “vemos-nos para a próxima”, “ligo-te depois”. Hoje passam-se semanas sem ver ninguém. Não exagero — semanas. Já tive aniversários em que só recebi uma mensagem no WhatsApp. Às vezes ponho dois pratos na mesa sem pensar. Só reparo quando a comida está pronta e não há ninguém para chamar. Um dia caí na casa-de-banho. Não foi grave mas assustei-me. Fiquei sentada no chão, à espera que alguém atendesse o telefone. Ninguém atendeu. Levantei-me sozinha. Não contei a ninguém — para não preocupar. Aprendi a calar. Os meus filhos dizem que me amam — e eu sei que é verdade. Mas amor sem presença também dói. Falam comigo a correr, estão sempre com pressa. Quando começo a contar alguma coisa, dizem: “Vá, mãe, depois falamos.” Esse “depois” nunca chega. O mais difícil não é estar sozinha. O mais difícil é sentir que de imprescindível me tornei dispensável. Fui o alicerce de tudo e agora sou um incómodo na agenda. Ninguém me trata mal. Apenas já não precisam de mim. O que me aconselhariam?
Tenho 70 anos e tornei-me mãe muito antes de aprender a pensar em mim própria. Casei cedo, e desde a
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033
O apartamento foi comprado pelo meu filho: confissão de uma sogra
O apartamento foi comprado pelo meu filho: confissões de uma sogra Conheci o meu marido na universidade.
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022
Divórcio por Causa da Vizinha: Por Que Trocar Uma Esposa de Vinte Anos por Uma Divorciada do Prédio ao Lado? — Explica-me só, porquê? De todas as mulheres de Portugal, porquê ela? De mim… e vais para ela, porquê? Carina perdia para a Inês em tudo. E ainda se o Valério dissesse algo do género: “Ela é divertida, mais leve, menos rígida, não tão melancólica como tu”. — Como é possível, Inês! Como é possível?! Vocês sempre viveram tão bem… — lamentavam a mãe, a irmã e as amigas da Inês ao saberem do divórcio iminente. — Vivemos — concordava Inês. — Mas já não vamos viver. — Inês, pensa bem, rapariga, antes de deixares um homem destes. Ele trabalha, adora os filhos, e nem sequer te quer largar… A partir desta frase, Inês punha toda a gente — nas redes sociais, nos grupos de WhatsApp e, claro, na vida real — num bloqueio vitalício. Colegas de trabalho, até aquela com quem sempre se dava bem, agora só tinham direito a um aceno e um “olá” de circunstância ao cruzarem-se no corredor. E quando tentavam conversar como dantes, Inês não se coibia de responder torto, tanto pelos conselhos indesejados como quase a obrigarem a voltar para o marido traidor. Traidor mesmo! Inês ainda não fazia sentido da situação. Tinham uma vida normal! Vinte anos juntos, desde a faculdade, já não era um quilo — era uma tonelada de sal partilhado, como diz o ditado português sobre a vida a dois. Passaram por tudo: miséria, desemprego, doenças dela, dele e das crianças… Duas crianças, um filho e uma filha, família completa. A casa sempre limpa, tudo pronto, a Inês nunca dizia que tinha dor de cabeça… Cuidava-se, nunca tratou o Valério como caixa multibanco, reservava tempo para ele e não o relegou ao segundo plano depois dos filhos… Então, o que é que ele queria mais que o levou, de um momento para o outro, a procurar outra? E logo quem! Ainda se fosse uma miúda, talvez desse para entender. Mas não — deixou-se levar por uma divorciada com um filho, mesmo do prédio ao lado. — Explica-me o que viste nela? — repetia Inês. Ria e chorava ao mesmo tempo quando a traição veio ao de cima e Valério teve de se explicar. Por que ela? Por quê? Carina não tinha nada que lhe ganhasse aos olhos da Inês. E mesmo se Valério tivesse dito que era pelo carácter da outra, ainda se percebia… Mas não! Nem isso soube justificar. Não foi uma aventura de copos, não estava bêbado — estava bem consciente. O máximo que balbuciava era um “simplesmente aconteceu” e depois suplicava de joelhos para voltar. Sim, para espanto da Carina, o plano do Valério não era divorciar-se da Inês e ir morar com a nova namorada. Pensava que dava para ter a sua “aventura” e voltar depois para o lar como se nada tivesse passado, sem nunca meter a Carina no baralho. E até talvez resultasse se a paixão não tivesse engravidado — e decidido que estava na hora de arranjar marido para o novo bebé (e para o antigo também). A Carina foi lá a casa da Inês, feita furacão. Nem queria acreditar! Afinal, vinte anos com o homem, conhece-o como ninguém… Mas a Carina ainda sabia mais — onde eram as marcas de nascença, a forma da cicatriz que ele tinha nas costas, aquelas coisas que só se sabe depois de ver a pessoa sem roupa. Ou seja, houve mesmo caso. E encostado à parede, o Valério não teve como negar. E qual não é o espanto da Inês quando vê algumas conhecidas — nem eram amigas próximas — todas a apoiar o Valério! Colegas, amigas antigas, primos afastados… Todos, de repente, convencidos de que a Inês devia aguentar, perdoar e continuar a amar o Valério, como se nada tivesse acontecido. Se a sogra tentava “salvar a família”, ainda se percebia. O filho não queria o divórcio, ela fazia de tudo para manter a família unida. Chegou até a pedir aos netos que falassem com a mãe para não se divorciarem. Feio? É. Mas percebe-se. Agora e os outros, porque se metem? Estilo balde de caranguejos: “Estamos todos metidos na mesma vida de miséria, tu não vais sair!” O que mais pode ser? Inês não sabia. Mas continuar aquilo, não ia. Uma coisa aprendeu com o pai, já falecido: — Filha, se te chamam egoísta e dizem que tens de aguentar, ceder, perdoar só porque “é tradição” ou porque algum santo mandou, não acredites. Só querem aproveitar-se de ti. Inês nunca deixou, nem os filhos — tanto que a sogra exigiu que desbloqueassem a avó no Facebook e falassem com ela. — Farta dela, mãe — explicou Kátia à mesa de jantar. O irmão andava em casa da namorada, era a filha a dar a resposta. — É sempre a mesma lenga-lenga: “lutem para juntar os pais, tudo será melhor se a mãe e o pai ficarem juntos”. Já expliquei uma, duas vezes, mas ela não ouve. — Obrigada — disse-lhe Inês no jantar. — Sei que não é fácil o que está a acontecer, e agradeço por não caíres nos jogos da avó. — Ó mãe, não sou burra — suspirou Kátia. — Sei bem o que o pai fez. Se se tivessem zangado por motivos normais, ainda dava para consertar. Mas traição… só gente sem amor-próprio é que perdoa. E ele sabia — mas mesmo assim foi atrás da Carina. Mãe, gosto dele, vai ser sempre meu pai, mas… Em que estava ele a pensar? E a avó agora? A Inês não tinha resposta. E pensava que podia sempre responder a tudo. Agora, nem isso. Como explicar quando o homem, durante vinte anos, sempre foi o bom marido e pai — e, de repente, faz isto? Pois é, o que devia estar nos costados, ou na cabeça, ou nos diminutivos fofinhos que a Carina usava para o Valério, não se percebe. E de mostrar à família quem realmente era, escolheu a forma mais estranha. E tudo aconteceu cinco anos depois do divórcio…
Divórcio por causa da vizinha Oh pá, explica-me só uma coisa: de todas as mulheres do mundo, foste logo
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09
A Chave de Treze Ele telefonou de manhã e disse aquilo como se fosse coisa pouca: — Passas cá? Era para dar uma força com a bicicleta. Não me apetece andar nisto sozinho. As palavras “passas cá” e “não me apetece” soaram estranhas, demasiado próximas. Normalmente, o pai dizia “é preciso” e “faço eu”. O filho adulto, já com cabelos brancos nas têmporas, apanhou-se a procurar ali alguma armadilha, como nos velhos tempos. Mas não estava lá — só um pedido curto, e isso, curiosamente, fez doer. Chegou perto do almoço, subiu ao terceiro andar, ficou um momento no patamar enquanto rodava a chave na fechadura. A porta abriu-se logo, como se o pai estivesse mesmo ali à espera. — Entra. Descalça-te — disse o pai, afastando-se. No hall estava tudo nos sítios do costume: o tapete, a cómoda, os jornais dobrados. O pai parecia igual, mas os ombros estavam mais estreitos e as mãos, ao ajeitar a manga, tremeram por um segundo. — Onde está a bicicleta? — perguntou o filho, só para não perguntar outra coisa. — Na varanda. Deixei-a lá para não estorvar. Ia tratar dela sozinho, mas… — fez um gesto vago e seguiu à frente. A varanda era envidraçada, mas gelada, cheia de caixas e frascos. A bicicleta estava encostada à parede, tapada por um lençol antigo. O pai destapou-a com um cuidado quase solene e passou a mão pelo quadro. — É tua — disse. — Lembras-te? Comprámos para o teu aniversário. O filho lembrava-se. Dos passeios pelo pátio, das quedas, do pai calado, erguendo-o, sacudindo-lhe os joelhos e vendo se a corrente estava no sítio. Nessa altura, o pai quase não elogiava, mas olhava para as coisas como se tivessem vida e fosse responsável por elas. — Os pneus perderam ar — observou o filho. — Isso ainda vá. Mas o cubo range e o travão de trás não pega. Ontem mexi-lhe e até me doeu o coração — o pai tentou sorrir, mas saiu-lhe só um esgar. Transportaram a bicicleta para a sala, onde o pai tinha a “oficina”: não era uma divisão à parte, apenas um canto junto à janela com uma mesa, tapete, candeeiro, caixa de ferramentas. Alicates, chaves, tudo pendurado e arrumado. O filho reparou, como sempre: o pai gostava de manter ordem onde podia. — Vês aí a chave treze? — perguntou o pai. O filho abriu a caixa. As chaves alinhadas, mas a treze não estava lá. — Doze, catorze… treze não está. O pai ergueu as sobrancelhas. — Não está? Ela costumava… — calou-se antes de dizer “sempre”. O filho foi remexendo ferramentas, abriu a gaveta da mesa. Parafusos velhos, porcas, fita isoladora, lixa. A chave apareceu debaixo de umas luvas de borracha. — Está aqui — disse o filho. O pai pegou-lhe, sopesando-a. — Fui eu que a meti aí. Esta cabeça… — murmurou e riu-se. — Vá, chega-me a bicicleta. O filho deitou a bicicleta de lado, com um pano debaixo do pedal. O pai ajoelhou-se lentamente, como se os joelhos pudessem falhar. O filho viu isso, mas fingiu não notar. — Vamos tirar a roda primeiro — disse o pai. — Tu agarra, eu desaperte as porcas. Pegou na chave e forçou. A porca cedeu mal. O pai crispou os lábios. O filho agarrou ele também, e lá conseguiram. — Eu fazia sozinho… — resmungou o pai. — Era só para ajudar… — Eu sei. Aguenta aí. Trabalhavam calados, só frases curtas: “agarra”, “não puxes”, “aqui”, “cuidado com a anilha”. O filho sentia que assim até era mais fácil. Com poucas frases dedicadas ao trabalho, não precisava adivinhar significados escondidos. Tiraram a roda, puseram-na no chão. O pai foi buscar a bomba do ar, verificou a mangueira. Era velha, pega gasta. — A câmara está boa, deve ter só secado — disse o pai. O filho ia perguntar como sabia tão certo, mas ficou calado. O pai falava assim, como se não duvidasse. Enquanto o pai enchia, o filho inspeccionava o travão. As sapatas gastas, o cabo enferrujado. — Este cabo tem de ser trocado — disse. — Cabo… deve haver por aí um de reserva. Foi ao armário debaixo da mesa, tirou uma caixa, depois outra. Nelas, peças marcadas em papéis. O filho viu ali mais do que organização: uma luta contra o tempo. Enquanto tudo estiver arrumado e rotulado, nada se dispersa. — Não o vejo — disse o pai, fechando a caixa irritado. — Talvez na arrecadação? — sugeriu o filho. — Aquilo está uma desordem — disse o pai como se confessasse um pecado. O filho riu. — Desordem? Contigo? Isso era novidade. O pai olhou-o de lado, com um brilho agradecido pela piada. — Vai lá ver. Eu fico aqui a acabar isto. A arrecadação era pequena, cheia de caixas. O filho acendeu a luz, abriu caminho. Na prateleira de cima, estava o cabo enrolado num jornal. — Achei! — chamou. — Vá lá, disse-te eu. O filho trouxe o cabo. O pai analisou-o, viu-lhe as pontas. — Está bom. Falta é encontrar terminais. Remexeu numa caixa, achou as pequenas ponteiras de metal. — Vá, desmontamos o travão — disse. O filho segurou o quadro, o pai desapertou o travão. Os dedos do pai secos, falhados, unhas curtas. O filho lembrou-se de quando em pequeno lhe pareciam mãos invencíveis. Agora tinham outra força: paciente, poupadinha. — Porque olhas assim? — perguntou o pai, sem tirar os olhos do trabalho. — Nada. Estava a pensar como sabes onde está tudo. O pai bufou. — Sei, mas onde ponho as chaves já nem sempre. Tem piada, não? O filho quis dizer “não tem”, mas percebeu que o pai não falava de rir, mas de medo. — É normal. Também me acontece. O pai assentiu — talvez aceitasse assim não ter de ser perfeito. Desmontaram o travão. Faltava uma mola. O pai ficou um tempo a olhar o vazio, depois ergueu os olhos. — Ontem andei a mexer, devo tê-la deixado cair. Procurei, nada. — Vejamos outra vez — disse o filho. De joelhos, passaram as mãos pelo chão, olharam debaixo da mesa. O filho achou a mola encostada ao rodapé. — Está aqui. O pai apanhou-a, ergueu-a à luz. — Graças a Deus. Já pensava que… — não acabou a frase. O filho percebeu que ia dizer “que já nem para isto presto”. Mas não. — Tomas um chá? — o pai disparou, como se o chá pudesse disfarçar o instante. — Tomo, claro. Na cozinha, o pai pôs a chaleira ao lume, tirou duas canecas. O filho sentou-se, a ver o pai mover-se devagar entre fogão e armário. Os gestos iguais, só mais lentos. O pai preparou o chá, pôs uma travessa com bolachas. — Come, estás mais magro. O filho ia contrariar, dizer que não, que era da roupa grossa, mas calou-se. Naquela frase estava tudo o que o pai sabia dizer de cuidado. — E o trabalho, vai bem? — perguntou o pai. — Vai. — E acrescentou, para não ficar pela metade: — Fecharam um projecto, agora há outro. — O importante é pagarem a horas. O filho sorriu. — Sempre a pensar no dinheiro. — E hás-de querer que pense em quê? — o pai fitou-o. — Em sentimentos? O filho sentiu dentro uma pontada. Não esperava ouvir o pai usar aquela palavra. — Não sei — disse com sinceridade. O pai calou-se, segurou a caneca com as duas mãos. — Sabes, às vezes acho que vens cá só por obrigação. Apareces, marcas ponto e vais-te embora. O filho pousou a caneca. O chá queimava-lhe os dedos, mas não a largou. — Achas que é fácil vir cá? Aqui… parece que sou de novo miúdo. E tu, como se soubesses sempre tudo melhor. O pai sorriu de lado, sem ofensa. — Eu acho mesmo que sei. Vício antigo. — E nunca perguntaste como eu estou. A sério. O pai olhou o fundo da caneca como se ali visse respostas. — Tinha medo de perguntar. Perguntando… tem de se ouvir. E eu… — levantou os olhos. — Não sou bom nisso. O filho sentiu-se mais leve. O pai não pediu desculpa, nem explicou. Só admitiu que não sabia. Mais verdade do que mil discursos. — Também eu não sei. O pai assentiu. — Olha, então aprendemos juntos. Nem que seja com a bicicleta — disse, espantado com a frase. Acabaram o chá e voltaram à sala. A bicicleta, a roda, o cabo tudo no mesmo sítio. O pai arregaçou as mangas. — Pronto. Mete tu o cabo, eu alinho as sapatas. O filho passou o cabo, tirou-o por entre bainhas. Os dedos menos hábeis que os do pai. Irritou-se. O pai reparou. — Não tenhas pressa. Isto é paciência, não força. O filho olhou-o. — Falas do cabo ou de tudo? — De tudo — respondeu o pai, desviando o olhar. Ajustaram as sapatas, apertaram as porcas. O pai experimentou várias vezes o travão. — Agora está melhor. O filho encheu o pneu, verificou. A câmara aguentava. Voltaram a montar a roda. O pai pediu a chave treze e o filho passou-lha em silêncio. Ficou-lhe bem na mão, como sempre. — Pronto — disse o pai. — Vamos testar. Desceram com a bicicleta ao pátio. O pai levava-a pelo guiador, o filho ao lado. O pátio vazio, só a vizinha com o saco faz um aceno. — Anda, experimenta — disse o pai. — Eu? — Quem mais? Já não sou malabarista. O filho montou-se. O selim baixo, como em rapaz. Deu umas voltas à volta da floreira, travou. Parou logo. — Está boa — disse, descendo. O pai pegou, empurrou devagar, só para sentir. Parou, pousou o pé. — Está. Valeu a pena. O filho olhou-o, e percebeu: não falava da bicicleta. Falava de o ter chamado. — Fica com as ferramentas — disse o pai de repente. — Estas que usámos. — Um aceno para a caixa. — Chegam-me as que tenho. Dão-te mais jeito. Tu gostas de fazer tudo sozinho. O filho ia recusar, mas percebeu: era assim que o pai dizia “gosto de ti”. Não em palavras, mas em coisas. — Fico. Mas a chave treze não empresto. Essa é a tua rainha. O pai sorriu. — Essa fica sempre no mesmo sítio. Subiram de novo. No hall, o filho vestiu o casaco. O pai junto, sem pressas. — Passas cá para a semana? — lançou, casual. — A porta do sótão chia. Era capaz de pôr óleo mas… as mãos já não estão para isso. Falou sem desculpas. O filho ouviu o convite. — Passo. Liga antes para não ser a correr. O pai assentiu e, já a fechar a porta, murmurou: — Obrigado por teres vindo. O filho desceu as escadas com algumas chaves e uma ou duas chaves de fenda do pai guardadas num pano. Pesavam bem, mas não custavam. Na rua, espreitou as janelas do terceiro andar. O cortinado mexeu-se, como se o pai olhasse. O filho não acenou. Foi-se embora, sabendo que agora podia voltar não só “por obrigação”, mas por aquela tarefa que finalmente ambos tinham aprendido a aceitar como importante.
Chave de 13 Telefonou de manhã e falou como se fosse um assunto trivial: Passas cá? Era preciso levantar
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015
Tenho 58 anos e já não sei o que fazer com a minha vizinha. Vive mesmo em frente à minha casa e parece que a sua principal ocupação é controlar cada um dos meus movimentos — sabe a que horas chega a entrega do supermercado, quantos sacos trago, quem os leva, aponta se o estafeta se atrasar um minuto, comenta até quantos sacos de lixo levo ao contentor ou quando não os levo. Até ao meu cão, que não é grande nem agressivo mas ladra de vez em quando, ela faz queixas à menor oportunidade. O meu marido também não escapa aos comentários e até a minha filha adolescente é alvo de observação: conta quantos amigos entram e saem de casa, quanto tempo ficam, e não hesita a espalhar opiniões entre os vizinhos. O problema é que esta vizinha sempre viveu aqui, tal como eu — não quero mudar de casa, mas já não sei como conviver com alguém que desconhece o significado de privacidade. Já tentei ignorar, ser educada, responder mais friamente — nada resulta. Como é que lidam com um vizinho assim sem perder a cabeça nem a vossa paz? Têm algum conselho?
Tenho 58 anos e, francamente, já cheguei àquela fase em que me pergunto o que mais poderei fazer em relação
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018
És mesmo rico, não és? A irmã da minha mulher pediu-me dinheiro emprestado e foi gastar tudo no Algarve Neste verão, a querida irmã da minha esposa veio visitar-nos. Nós cá em casa até lhe chamamos “mascote”, porque em todos os jantares de família só se fala dela — foi uma aluna exemplar, licenciou-se, arranjou trabalho na sua área… enfim, a filha perfeita, não é? Já a mais velha, nem sequer terminou os estudos e casou-se cedo. Mas ninguém se incomodou, porque eu era razoavelmente próspero, com o meu próprio negócio, apartamento, carro e um bom rendimento. Mesmo assim, a filha favorita continuava a ser a irmã mais nova da minha esposa. Este verão, então, a cunhada apareceu cá em casa e pediu-me dinheiro emprestado para a entrada de um apartamento, porque queria fazer um crédito habitação. Para mim, não era assim tanto dinheiro, por isso emprestei sem dificuldades. Ela garantiu que me ia pagar direitinho, que trabalhava no Estado e cumpria sempre com as suas dívidas. Ora bem, mal passaram uns dias e lá foi ela de férias para o Algarve. Fiquei intrigado,… como é que quem não tem dinheiro para comprar casa arranja para uma semana à beira-mar? Disse à família que tinha estado a poupar o ano inteiro para a viagem, mas a verdade é que nem chegou a tratar do empréstimo bancário. Quando lhe perguntei, respondeu que mudou de ideias. Pedi então que devolvesse o empréstimo, ao que ela respondeu que não tinha dinheiro, que gastou tudo nas férias. Percebi logo que nunca teve intenção de comprar casa nenhuma. Pedi com educação que reembolsasse a dívida o mais rapidamente possível, pois tinha-lhe emprestado para uma coisa séria, não para as férias. E a resposta dela ofendeu-me bastante: — Vou ganhar muito dinheiro, podes esperar, agora não tenho. Como acham que acabou a história? Pois bem, ela contou à sogra que eu tinha pedido o dinheiro antes do tempo, que não era assim que se tratavam os familiares, e, claro, a filha mais nova voltou a ser o anjo da família e nós, os “monstros ricos”!
Lembro-me bem daquele verão distante, quando tudo parecia correr tão calmamente em Lisboa, até que as
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0221
A minha própria mãe expulsou-me de casa porque preferia o meu padrasto! — A história de como fui forçada a sair do apartamento, a trabalhar cedo e como a minha tia me ajudou a dar a volta por cima em Portugal
A própria minha mãe expulsou-me de casa porque o meu padrasto lhe era mais querido! Vivi com o meu pai
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09
Não quero morar com a família da minha filha! Vou explicar o porquê.
Diário, 12 de junho Hoje senti necessidade de registar os meus pensamentos sobre esta situação delicada
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0147
Eu e o meu marido deixámos o apartamento para o nosso filho e mudámo-nos para o interior. Ele foi viver com a sogra e arrendou o nosso apartamento.
Eu e o meu marido deixámos o apartamento do nosso filho e fomos viver para o campo. Ele foi morar com