A Chave de Treze Ele telefonou de manhã e disse aquilo como se fosse coisa pouca: — Passas cá? Era para dar uma força com a bicicleta. Não me apetece andar nisto sozinho. As palavras “passas cá” e “não me apetece” soaram estranhas, demasiado próximas. Normalmente, o pai dizia “é preciso” e “faço eu”. O filho adulto, já com cabelos brancos nas têmporas, apanhou-se a procurar ali alguma armadilha, como nos velhos tempos. Mas não estava lá — só um pedido curto, e isso, curiosamente, fez doer. Chegou perto do almoço, subiu ao terceiro andar, ficou um momento no patamar enquanto rodava a chave na fechadura. A porta abriu-se logo, como se o pai estivesse mesmo ali à espera. — Entra. Descalça-te — disse o pai, afastando-se. No hall estava tudo nos sítios do costume: o tapete, a cómoda, os jornais dobrados. O pai parecia igual, mas os ombros estavam mais estreitos e as mãos, ao ajeitar a manga, tremeram por um segundo. — Onde está a bicicleta? — perguntou o filho, só para não perguntar outra coisa. — Na varanda. Deixei-a lá para não estorvar. Ia tratar dela sozinho, mas… — fez um gesto vago e seguiu à frente. A varanda era envidraçada, mas gelada, cheia de caixas e frascos. A bicicleta estava encostada à parede, tapada por um lençol antigo. O pai destapou-a com um cuidado quase solene e passou a mão pelo quadro. — É tua — disse. — Lembras-te? Comprámos para o teu aniversário. O filho lembrava-se. Dos passeios pelo pátio, das quedas, do pai calado, erguendo-o, sacudindo-lhe os joelhos e vendo se a corrente estava no sítio. Nessa altura, o pai quase não elogiava, mas olhava para as coisas como se tivessem vida e fosse responsável por elas. — Os pneus perderam ar — observou o filho. — Isso ainda vá. Mas o cubo range e o travão de trás não pega. Ontem mexi-lhe e até me doeu o coração — o pai tentou sorrir, mas saiu-lhe só um esgar. Transportaram a bicicleta para a sala, onde o pai tinha a “oficina”: não era uma divisão à parte, apenas um canto junto à janela com uma mesa, tapete, candeeiro, caixa de ferramentas. Alicates, chaves, tudo pendurado e arrumado. O filho reparou, como sempre: o pai gostava de manter ordem onde podia. — Vês aí a chave treze? — perguntou o pai. O filho abriu a caixa. As chaves alinhadas, mas a treze não estava lá. — Doze, catorze… treze não está. O pai ergueu as sobrancelhas. — Não está? Ela costumava… — calou-se antes de dizer “sempre”. O filho foi remexendo ferramentas, abriu a gaveta da mesa. Parafusos velhos, porcas, fita isoladora, lixa. A chave apareceu debaixo de umas luvas de borracha. — Está aqui — disse o filho. O pai pegou-lhe, sopesando-a. — Fui eu que a meti aí. Esta cabeça… — murmurou e riu-se. — Vá, chega-me a bicicleta. O filho deitou a bicicleta de lado, com um pano debaixo do pedal. O pai ajoelhou-se lentamente, como se os joelhos pudessem falhar. O filho viu isso, mas fingiu não notar. — Vamos tirar a roda primeiro — disse o pai. — Tu agarra, eu desaperte as porcas. Pegou na chave e forçou. A porca cedeu mal. O pai crispou os lábios. O filho agarrou ele também, e lá conseguiram. — Eu fazia sozinho… — resmungou o pai. — Era só para ajudar… — Eu sei. Aguenta aí. Trabalhavam calados, só frases curtas: “agarra”, “não puxes”, “aqui”, “cuidado com a anilha”. O filho sentia que assim até era mais fácil. Com poucas frases dedicadas ao trabalho, não precisava adivinhar significados escondidos. Tiraram a roda, puseram-na no chão. O pai foi buscar a bomba do ar, verificou a mangueira. Era velha, pega gasta. — A câmara está boa, deve ter só secado — disse o pai. O filho ia perguntar como sabia tão certo, mas ficou calado. O pai falava assim, como se não duvidasse. Enquanto o pai enchia, o filho inspeccionava o travão. As sapatas gastas, o cabo enferrujado. — Este cabo tem de ser trocado — disse. — Cabo… deve haver por aí um de reserva. Foi ao armário debaixo da mesa, tirou uma caixa, depois outra. Nelas, peças marcadas em papéis. O filho viu ali mais do que organização: uma luta contra o tempo. Enquanto tudo estiver arrumado e rotulado, nada se dispersa. — Não o vejo — disse o pai, fechando a caixa irritado. — Talvez na arrecadação? — sugeriu o filho. — Aquilo está uma desordem — disse o pai como se confessasse um pecado. O filho riu. — Desordem? Contigo? Isso era novidade. O pai olhou-o de lado, com um brilho agradecido pela piada. — Vai lá ver. Eu fico aqui a acabar isto. A arrecadação era pequena, cheia de caixas. O filho acendeu a luz, abriu caminho. Na prateleira de cima, estava o cabo enrolado num jornal. — Achei! — chamou. — Vá lá, disse-te eu. O filho trouxe o cabo. O pai analisou-o, viu-lhe as pontas. — Está bom. Falta é encontrar terminais. Remexeu numa caixa, achou as pequenas ponteiras de metal. — Vá, desmontamos o travão — disse. O filho segurou o quadro, o pai desapertou o travão. Os dedos do pai secos, falhados, unhas curtas. O filho lembrou-se de quando em pequeno lhe pareciam mãos invencíveis. Agora tinham outra força: paciente, poupadinha. — Porque olhas assim? — perguntou o pai, sem tirar os olhos do trabalho. — Nada. Estava a pensar como sabes onde está tudo. O pai bufou. — Sei, mas onde ponho as chaves já nem sempre. Tem piada, não? O filho quis dizer “não tem”, mas percebeu que o pai não falava de rir, mas de medo. — É normal. Também me acontece. O pai assentiu — talvez aceitasse assim não ter de ser perfeito. Desmontaram o travão. Faltava uma mola. O pai ficou um tempo a olhar o vazio, depois ergueu os olhos. — Ontem andei a mexer, devo tê-la deixado cair. Procurei, nada. — Vejamos outra vez — disse o filho. De joelhos, passaram as mãos pelo chão, olharam debaixo da mesa. O filho achou a mola encostada ao rodapé. — Está aqui. O pai apanhou-a, ergueu-a à luz. — Graças a Deus. Já pensava que… — não acabou a frase. O filho percebeu que ia dizer “que já nem para isto presto”. Mas não. — Tomas um chá? — o pai disparou, como se o chá pudesse disfarçar o instante. — Tomo, claro. Na cozinha, o pai pôs a chaleira ao lume, tirou duas canecas. O filho sentou-se, a ver o pai mover-se devagar entre fogão e armário. Os gestos iguais, só mais lentos. O pai preparou o chá, pôs uma travessa com bolachas. — Come, estás mais magro. O filho ia contrariar, dizer que não, que era da roupa grossa, mas calou-se. Naquela frase estava tudo o que o pai sabia dizer de cuidado. — E o trabalho, vai bem? — perguntou o pai. — Vai. — E acrescentou, para não ficar pela metade: — Fecharam um projecto, agora há outro. — O importante é pagarem a horas. O filho sorriu. — Sempre a pensar no dinheiro. — E hás-de querer que pense em quê? — o pai fitou-o. — Em sentimentos? O filho sentiu dentro uma pontada. Não esperava ouvir o pai usar aquela palavra. — Não sei — disse com sinceridade. O pai calou-se, segurou a caneca com as duas mãos. — Sabes, às vezes acho que vens cá só por obrigação. Apareces, marcas ponto e vais-te embora. O filho pousou a caneca. O chá queimava-lhe os dedos, mas não a largou. — Achas que é fácil vir cá? Aqui… parece que sou de novo miúdo. E tu, como se soubesses sempre tudo melhor. O pai sorriu de lado, sem ofensa. — Eu acho mesmo que sei. Vício antigo. — E nunca perguntaste como eu estou. A sério. O pai olhou o fundo da caneca como se ali visse respostas. — Tinha medo de perguntar. Perguntando… tem de se ouvir. E eu… — levantou os olhos. — Não sou bom nisso. O filho sentiu-se mais leve. O pai não pediu desculpa, nem explicou. Só admitiu que não sabia. Mais verdade do que mil discursos. — Também eu não sei. O pai assentiu. — Olha, então aprendemos juntos. Nem que seja com a bicicleta — disse, espantado com a frase. Acabaram o chá e voltaram à sala. A bicicleta, a roda, o cabo tudo no mesmo sítio. O pai arregaçou as mangas. — Pronto. Mete tu o cabo, eu alinho as sapatas. O filho passou o cabo, tirou-o por entre bainhas. Os dedos menos hábeis que os do pai. Irritou-se. O pai reparou. — Não tenhas pressa. Isto é paciência, não força. O filho olhou-o. — Falas do cabo ou de tudo? — De tudo — respondeu o pai, desviando o olhar. Ajustaram as sapatas, apertaram as porcas. O pai experimentou várias vezes o travão. — Agora está melhor. O filho encheu o pneu, verificou. A câmara aguentava. Voltaram a montar a roda. O pai pediu a chave treze e o filho passou-lha em silêncio. Ficou-lhe bem na mão, como sempre. — Pronto — disse o pai. — Vamos testar. Desceram com a bicicleta ao pátio. O pai levava-a pelo guiador, o filho ao lado. O pátio vazio, só a vizinha com o saco faz um aceno. — Anda, experimenta — disse o pai. — Eu? — Quem mais? Já não sou malabarista. O filho montou-se. O selim baixo, como em rapaz. Deu umas voltas à volta da floreira, travou. Parou logo. — Está boa — disse, descendo. O pai pegou, empurrou devagar, só para sentir. Parou, pousou o pé. — Está. Valeu a pena. O filho olhou-o, e percebeu: não falava da bicicleta. Falava de o ter chamado. — Fica com as ferramentas — disse o pai de repente. — Estas que usámos. — Um aceno para a caixa. — Chegam-me as que tenho. Dão-te mais jeito. Tu gostas de fazer tudo sozinho. O filho ia recusar, mas percebeu: era assim que o pai dizia “gosto de ti”. Não em palavras, mas em coisas. — Fico. Mas a chave treze não empresto. Essa é a tua rainha. O pai sorriu. — Essa fica sempre no mesmo sítio. Subiram de novo. No hall, o filho vestiu o casaco. O pai junto, sem pressas. — Passas cá para a semana? — lançou, casual. — A porta do sótão chia. Era capaz de pôr óleo mas… as mãos já não estão para isso. Falou sem desculpas. O filho ouviu o convite. — Passo. Liga antes para não ser a correr. O pai assentiu e, já a fechar a porta, murmurou: — Obrigado por teres vindo. O filho desceu as escadas com algumas chaves e uma ou duas chaves de fenda do pai guardadas num pano. Pesavam bem, mas não custavam. Na rua, espreitou as janelas do terceiro andar. O cortinado mexeu-se, como se o pai olhasse. O filho não acenou. Foi-se embora, sabendo que agora podia voltar não só “por obrigação”, mas por aquela tarefa que finalmente ambos tinham aprendido a aceitar como importante.

Chave de 13

Telefonou de manhã e falou como se fosse um assunto trivial:

Passas cá? Era preciso levantar a bicicleta. Não me apetece mexer-me sozinho.

As palavras passas cá e não me apetece soaram estranhas, lado a lado. Normalmente o pai dizia tem de ser e faço eu. O filho já homem feito, com cabelos brancos nas têmporas, apanhou-se a pensar que procurava ali uma armadilha, como nas conversas antigas. Mas não havia armadilha, só um pedido simples, e isso deixou-o desconfortável.

Chegou por volta do almoço, subiu ao terceiro andar, demorou-se um pouco no patamar até que a chave rodou na fechadura. A porta abriu-se logo, como se o pai ali estivesse à espera.

Entra. Descalça-te, disse o pai, afastando-se para o lado.

No hall, tudo estava nos seus lugares: o tapete, o móvel baixo, os jornais empilhados com cuidado. O pai tinha o mesmo ar de sempre, só os ombros pareciam mais estreitos, e quando endireitou a manga, as mãos tremeram um instante.

Onde está a bicicleta? perguntou o filho, só para não ter de perguntar outra coisa.

Está na varanda. Levei-a para lá, não atrapalha. Achei que ainda desmontava aquilo, mas o pai encolheu os ombros e foi à frente.

A varanda era fechada, mas gelada, cheia de caixas e frascos. A bicicleta estava ao lado da parede, coberta por um lençol velho. O pai destapou-a com um gesto lento, como se revelasse algo importante, e passou a mão na armação.

É tua, disse. Lembras-te? Foi prenda de anos, trouxemos para ti.

O filho lembrava-se. Lembrava-se de dar voltas ao pátio, das quedas, do pai a levantar-o em silêncio, a sacudir areia dos joelhos e a olhar se a corrente estava inteira. O pai não elogiava muito, mas olhava para as coisas como se elas fossem vivas e tivessem de ser tratadas com responsabilidade.

O pneu está em baixo, reparou o filho.

Isso ainda vá. Mas a roda de trás range e o travão também não pega bem. Ontem dei-lhe uma volta, até me faltou o coração, o pai esboçou um sorriso que se desfez rápido.

Pegaram na bicicleta e levaram-na para a sala, onde o pai tinha a sua oficina: não um espaço próprio, mas um canto do quarto pequeno uma mesa junto à janela, com tapete, candeeiro e uma caixa de ferramentas. Na parede, alicates, chaves, chaves de bocas, tudo em ordem. O filho reparou nisto da mesma forma de sempre: o pai organizava o que podia.

Vês aí a chave de treze? perguntou o pai.

O filho abriu a caixa. As chaves alinhadas, mas de treze não estava à vista.

Tem doze, depois catorze a de treze não encontra-se.

O pai ergueu as sobrancelhas.

Não está? Ela costuma ficou calado, a palavra sempre pareceu-lhe difícil.

O filho passou os olhos pelo resto, abriu a gaveta. Dentro havia porcas velhas, anilhas, fita adesiva, um pedaço de lixa. A chave apareceu debaixo de uma pilha de luvas de borracha.

Está aqui.

O pai pegou nela, sentiu-lhe o peso flectindo a mão.

Afinal fui eu que a meti aí. A memória resmungou e sorriu. Vá, traz a bicicleta.

O filho deitou a bicicleta de lado, pôs um pano debaixo do pedal. O pai baixou-se devagar, com cautela, como se os joelhos já não garantissem muito. O filho viu, mas fingiu não reparar.

Primeiro a roda, disse o pai. Segura tu, que eu tiro as porcas.

Pegou na chave, fez força. A porca não cedeu logo, o pai crispou os lábios. O filho pegou na chave, ajudou, e finalmente a porca soltou.

Eu bem faria sozinho, murmurou o pai.

Só estava a ajudar

Eu sei. Segura, para não cair.

Trabalharam em silêncio, só trocando frases curtas: segura, não puxes, é aqui, guarda a anilha. O filho reparou que desse modo era mais fácil. Quando as palavras se limitam à tarefa, não se perde tempo a decifrar significados escondidos.

Desmontaram a roda e pousaram-na no chão. O pai pegou na bomba, verificou a mangueira. A bomba antiga, já gasta.

O pneu deve estar bom. Só ressequido, disse o pai.

O filho quase perguntou como sabia, mas calou-se. O pai sempre falava como se tivesse certezas, mesmo sem as ter.

Enquanto o pai enchia o pneu, o filho mexia no travão. As pastilhas gastas, o cabo enferrujado.

O cabo precisa de novo, observou.

Cabo o pai parou, limpou a palma das mãos às calças. Tenho ali um suplente, acho.

Foi ao armário debaixo da mesa, tirou uma caixa, depois outra. Cada uma tinha peças, identificadas em papeis. O filho viu não só organização, mas também uma luta silenciosa contra o tempo: enquanto tudo estivesse arrumado e marcado, nada se desvanecia.

Não vejo aqui, o pai fechou a tampa com um toque impaciente.

E se estiver no arrumo? sugeriu o filho.

Aquilo é uma confusão pegada, o pai disse como quem confessa uma falta grave.

O filho sorriu.

Tu com desarrumação? Isso é novidade.

O pai olhou-o meio desconfiado, mas havia qualquer coisa de grato pelo gracejo.

Vai lá ver então. Eu fico por aqui com isto.

No arrumo pouco cabia, caixas empilhadas em todos os cantos. O filho acendeu a luz e começou a tirar sacos do caminho. Numa prateleira de cima encontrou um rolo de cabo embrulhado em jornal.

Achei!

Bem te disse, respondeu o pai. Eu sabia.

O filho entregou o cabo. O pai examinou-o, girando-o nos dedos.

Serve. Agora preciso dos topos.

Voltou à caixa e achou as ponteiras metálicas.

Vamos desmontar o travão, disse o pai.

O filho segurou no quadro, o pai desmontou as peças. Os dedos do pai secos, gretados, unhas bem cortadas. O filho lembrou-se de quando pequeno aquelas mãos pareciam-lhe indestrutíveis. Agora, tinham a força paciente de quem não desperdiça gestos.

Estás a olhar para mim porquê? resmungou o pai, sem tirar os olhos das peças.

Só estava a pensar como é que te lembras de tudo.

O pai riu pelo nariz.

Lembro-me. Mas há dias nem sei onde ponho as chaves. Engraçado, não?

O filho ia dizer não tem graça, mas percebeu que o pai queria dizer assusta.

É normal, respondeu. Também me acontece.

O pai assentiu, aceitando como se fosse licença para já não ter de ser infalível.

Quando desmontaram o travão, faltava uma mola. O pai ficou a olhar para o vazio, depois levantou os olhos.

Ontem andei a mexer nisto, devo ter deixado cair. Procurei no chão, nada.

Vamos procurar mais uma vez.

Puseram-se de joelhos e passaram as mãos pelo chão, espreitando por baixo da mesa. O filho achou a mola ao pé do rodapé, junto à perna da cadeira.

Aqui está.

O pai apanhou-a, ergueu-a à luz.

Graças a Deus. Já me estava a passar não concluiu.

O filho adivinhou o resto: já achei que era mais grave. Mas o pai não precisou dizer.

Queres chá? perguntou bruscamente, quase como se o chá pudesse resolver tudo.

Aceito.

Na cozinha, o pai pôs a chaleira ao lume e tirou duas chávenas. O filho sentou-se à mesa, observando os movimentos do pai: iguais aos de sempre, só um pouco mais lentos. O pai serviu chá e trouxe um prato de bolachas.

Come. Estás magro.

O filho ia protestar não achava que estivesse mas ficou calado. Naquilo cabia o modo do pai dizer que se preocupava.

E o trabalho? perguntou o pai.

Vai andando. E acrescentou para não parecer seco: Fecharam um projeto, veio outro a caminho.

Importante é pagarem.

O filho sorriu.

Sempre a pensar no dinheiro.

E hei de pensar em quê? o pai olhou-no de frente. No sentimento?

O filho sentiu um aperto por dentro. Não esperava que o pai dissesse a palavra.

Não sei, respondeu honestamente.

O pai ficou calado, depois pegou na chávena com as duas mãos.

Às vezes penso que tu vens aqui por obrigação. Só para cumprir, e pronto.

O filho pousou a chávena na mesa. O chá estava quente, queimou-lhe os dedos, mas não os tirou dali.

Achas que para mim é fácil vir? perguntou. Aqui tudo faz lembrar quando era miúdo. E tu, como se soubesses sempre tudo melhor.

O pai sorriu, sem azedume.

Eu acredito mesmo que sei melhor. Velhos hábitos.

E nunca perguntas o que eu sinto. A sério.

O pai olhou o fundo da chávena, como se ali estivesse a resposta.

Tinha medo. Se pergunto, tenho de ouvir. E levantou os olhos nem sempre sei como ouvir.

O filho sentiu o peito aligeirar-se. O pai nunca dizia desculpa nem tentava explicar, só confessava que não sabia como era. Aquilo dizia mais que mil palavras bonitas.

Também não sei.

O pai assentiu.

Então aprendemos juntos. Começamos pela bicicleta, disse, e houve um brilho irónico, como se ele mesmo se admirasse de estar a dizê-lo.

Acabaram o chá e voltaram ao quarto. A bicicleta deitada, a roda ao lado, o cabo novo na mesa. O pai reatou o trabalho, agora com decisão.

Fazemos assim: tu passas o cabo, eu alinho os calços.

O filho obedeceu, foi passando o cabo, prendendo. As mãos eram menos ágeis do que as do pai, e por isso irritou-se consigo. O pai notou.

Não corras. Aqui é mais preciso paciência do que força.

O filho levantou os olhos.

Isso é para a bicicleta ou para a vida?

Para tudo, respondeu o pai, e virou-se, como se tivesse dito demais.

Alinharam os calços, apertaram as porcas. O pai testou a manete do travão, várias vezes.

Já está melhor.

O filho encheu o pneu até ficar rijo, verificou se estava estaladiço. Estava bom. Montaram a roda, apertaram de novo. O pai pediu a chave de treze, o filho passou-lha sem palavras. Na mão do pai, a chave parecia parte dele.

Pronto, suspirou o pai, vamos experimentar.

Levaram a bicicleta ao pátio. O pai segurava no guiador, o filho ao lado. O pátio vazio, só a vizinha do rés-do-chão com um saco, que acenou.

Dá uma volta, disse o pai.

Eu?

Quem mais? Já não faço acrobacias.

O filho montou a bicicleta. O selim estava baixo, como antes, os joelhos subiam muito. Fez duas voltas ao canteiro, travou. A bicicleta parou à primeira.

Está boa, anunciou, descendo.

O pai empurrou a bicicleta devagar, testando o peso, sem pressas. Depois encostou-a e pousou o pé no chão.

Valeu a pena o trabalho.

O filho percebeu de repente: o pai não falava da bicicleta. Falava de o ter chamado.

Fica com isto, disse o pai de repente, apontando para as ferramentas que usaram. Eu cá me arranjo. Tu fazes sempre tudo pelos teus.

O filho ia protestar, mas calou-se. Aquilo era o modo do pai dizer quero que estejas bem.

Fico, mas a chave de treze fica para ti. É a principal.

O pai sorriu.

Agora vou pô-la no sítio certo.

Subiram. No hall, o filho pôs o casaco. O pai ficou ao lado, sem pressa.

Passas cá para a semana? perguntou, como por acaso. Há ali aquela porta do armário de cima que chia. Queria lubrificar, mas as mãos já não ajudam.

Disse-o com calma, sem rodeios. O filho entendeu: não era queixa, era convite.

Passo sim. Mas liga antes, para eu vir com tempo.

O pai acenou e, já a fechar a porta, murmurou:

Obrigado por teres vindo.

O filho desceu as escadas, levando as chaves e algumas ferramentas do pai embrulhadas num pano. Eram pesadas, mas naquele dia não custavam a carregar. Na rua, olhou para as janelas do terceiro andar. O cortinado moveu-se, como se o pai estivesse ali. O filho não acenou. Limitou-se a seguir até ao carro, certo de que dali em diante podia vir não só por causa de trabalhos, mas por aquilo que finalmente perceberam ser mesmo importante: aprenderem, juntos, a não terem medo de conversar e pedir ajuda um ao outro.

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O pai parecia igual, mas os ombros estavam mais estreitos e as mãos, ao ajeitar a manga, tremeram por um segundo. — Onde está a bicicleta? — perguntou o filho, só para não perguntar outra coisa. — Na varanda. Deixei-a lá para não estorvar. Ia tratar dela sozinho, mas… — fez um gesto vago e seguiu à frente. A varanda era envidraçada, mas gelada, cheia de caixas e frascos. A bicicleta estava encostada à parede, tapada por um lençol antigo. O pai destapou-a com um cuidado quase solene e passou a mão pelo quadro. — É tua — disse. — Lembras-te? Comprámos para o teu aniversário. O filho lembrava-se. Dos passeios pelo pátio, das quedas, do pai calado, erguendo-o, sacudindo-lhe os joelhos e vendo se a corrente estava no sítio. Nessa altura, o pai quase não elogiava, mas olhava para as coisas como se tivessem vida e fosse responsável por elas. — Os pneus perderam ar — observou o filho. — Isso ainda vá. Mas o cubo range e o travão de trás não pega. Ontem mexi-lhe e até me doeu o coração — o pai tentou sorrir, mas saiu-lhe só um esgar. Transportaram a bicicleta para a sala, onde o pai tinha a “oficina”: não era uma divisão à parte, apenas um canto junto à janela com uma mesa, tapete, candeeiro, caixa de ferramentas. Alicates, chaves, tudo pendurado e arrumado. O filho reparou, como sempre: o pai gostava de manter ordem onde podia. — Vês aí a chave treze? — perguntou o pai. O filho abriu a caixa. As chaves alinhadas, mas a treze não estava lá. — Doze, catorze… treze não está. O pai ergueu as sobrancelhas. — Não está? Ela costumava… — calou-se antes de dizer “sempre”. O filho foi remexendo ferramentas, abriu a gaveta da mesa. Parafusos velhos, porcas, fita isoladora, lixa. A chave apareceu debaixo de umas luvas de borracha. — Está aqui — disse o filho. O pai pegou-lhe, sopesando-a. — Fui eu que a meti aí. Esta cabeça… — murmurou e riu-se. — Vá, chega-me a bicicleta. O filho deitou a bicicleta de lado, com um pano debaixo do pedal. O pai ajoelhou-se lentamente, como se os joelhos pudessem falhar. O filho viu isso, mas fingiu não notar. — Vamos tirar a roda primeiro — disse o pai. — Tu agarra, eu desaperte as porcas. Pegou na chave e forçou. A porca cedeu mal. O pai crispou os lábios. O filho agarrou ele também, e lá conseguiram. — Eu fazia sozinho… — resmungou o pai. — Era só para ajudar… — Eu sei. Aguenta aí. Trabalhavam calados, só frases curtas: “agarra”, “não puxes”, “aqui”, “cuidado com a anilha”. O filho sentia que assim até era mais fácil. Com poucas frases dedicadas ao trabalho, não precisava adivinhar significados escondidos. Tiraram a roda, puseram-na no chão. O pai foi buscar a bomba do ar, verificou a mangueira. Era velha, pega gasta. — A câmara está boa, deve ter só secado — disse o pai. O filho ia perguntar como sabia tão certo, mas ficou calado. O pai falava assim, como se não duvidasse. Enquanto o pai enchia, o filho inspeccionava o travão. As sapatas gastas, o cabo enferrujado. — Este cabo tem de ser trocado — disse. — Cabo… deve haver por aí um de reserva. Foi ao armário debaixo da mesa, tirou uma caixa, depois outra. Nelas, peças marcadas em papéis. O filho viu ali mais do que organização: uma luta contra o tempo. Enquanto tudo estiver arrumado e rotulado, nada se dispersa. — Não o vejo — disse o pai, fechando a caixa irritado. — Talvez na arrecadação? — sugeriu o filho. — Aquilo está uma desordem — disse o pai como se confessasse um pecado. O filho riu. — Desordem? Contigo? Isso era novidade. O pai olhou-o de lado, com um brilho agradecido pela piada. — Vai lá ver. Eu fico aqui a acabar isto. A arrecadação era pequena, cheia de caixas. O filho acendeu a luz, abriu caminho. Na prateleira de cima, estava o cabo enrolado num jornal. — Achei! — chamou. — Vá lá, disse-te eu. O filho trouxe o cabo. O pai analisou-o, viu-lhe as pontas. — Está bom. Falta é encontrar terminais. Remexeu numa caixa, achou as pequenas ponteiras de metal. — Vá, desmontamos o travão — disse. O filho segurou o quadro, o pai desapertou o travão. Os dedos do pai secos, falhados, unhas curtas. O filho lembrou-se de quando em pequeno lhe pareciam mãos invencíveis. Agora tinham outra força: paciente, poupadinha. — Porque olhas assim? — perguntou o pai, sem tirar os olhos do trabalho. — Nada. Estava a pensar como sabes onde está tudo. O pai bufou. — Sei, mas onde ponho as chaves já nem sempre. Tem piada, não? O filho quis dizer “não tem”, mas percebeu que o pai não falava de rir, mas de medo. — É normal. Também me acontece. O pai assentiu — talvez aceitasse assim não ter de ser perfeito. Desmontaram o travão. Faltava uma mola. O pai ficou um tempo a olhar o vazio, depois ergueu os olhos. — Ontem andei a mexer, devo tê-la deixado cair. Procurei, nada. — Vejamos outra vez — disse o filho. De joelhos, passaram as mãos pelo chão, olharam debaixo da mesa. O filho achou a mola encostada ao rodapé. — Está aqui. O pai apanhou-a, ergueu-a à luz. — Graças a Deus. Já pensava que… — não acabou a frase. O filho percebeu que ia dizer “que já nem para isto presto”. Mas não. — Tomas um chá? — o pai disparou, como se o chá pudesse disfarçar o instante. — Tomo, claro. Na cozinha, o pai pôs a chaleira ao lume, tirou duas canecas. O filho sentou-se, a ver o pai mover-se devagar entre fogão e armário. Os gestos iguais, só mais lentos. O pai preparou o chá, pôs uma travessa com bolachas. — Come, estás mais magro. O filho ia contrariar, dizer que não, que era da roupa grossa, mas calou-se. Naquela frase estava tudo o que o pai sabia dizer de cuidado. — E o trabalho, vai bem? — perguntou o pai. — Vai. — E acrescentou, para não ficar pela metade: — Fecharam um projecto, agora há outro. — O importante é pagarem a horas. O filho sorriu. — Sempre a pensar no dinheiro. — E hás-de querer que pense em quê? — o pai fitou-o. — Em sentimentos? O filho sentiu dentro uma pontada. Não esperava ouvir o pai usar aquela palavra. — Não sei — disse com sinceridade. O pai calou-se, segurou a caneca com as duas mãos. — Sabes, às vezes acho que vens cá só por obrigação. Apareces, marcas ponto e vais-te embora. O filho pousou a caneca. O chá queimava-lhe os dedos, mas não a largou. — Achas que é fácil vir cá? Aqui… parece que sou de novo miúdo. E tu, como se soubesses sempre tudo melhor. O pai sorriu de lado, sem ofensa. — Eu acho mesmo que sei. Vício antigo. — E nunca perguntaste como eu estou. A sério. O pai olhou o fundo da caneca como se ali visse respostas. — Tinha medo de perguntar. Perguntando… tem de se ouvir. E eu… — levantou os olhos. — Não sou bom nisso. O filho sentiu-se mais leve. O pai não pediu desculpa, nem explicou. Só admitiu que não sabia. Mais verdade do que mil discursos. — Também eu não sei. O pai assentiu. — Olha, então aprendemos juntos. Nem que seja com a bicicleta — disse, espantado com a frase. Acabaram o chá e voltaram à sala. A bicicleta, a roda, o cabo tudo no mesmo sítio. O pai arregaçou as mangas. — Pronto. Mete tu o cabo, eu alinho as sapatas. O filho passou o cabo, tirou-o por entre bainhas. Os dedos menos hábeis que os do pai. Irritou-se. O pai reparou. — Não tenhas pressa. Isto é paciência, não força. O filho olhou-o. — Falas do cabo ou de tudo? — De tudo — respondeu o pai, desviando o olhar. Ajustaram as sapatas, apertaram as porcas. O pai experimentou várias vezes o travão. — Agora está melhor. O filho encheu o pneu, verificou. A câmara aguentava. Voltaram a montar a roda. O pai pediu a chave treze e o filho passou-lha em silêncio. Ficou-lhe bem na mão, como sempre. — Pronto — disse o pai. — Vamos testar. Desceram com a bicicleta ao pátio. O pai levava-a pelo guiador, o filho ao lado. O pátio vazio, só a vizinha com o saco faz um aceno. — Anda, experimenta — disse o pai. — Eu? — Quem mais? Já não sou malabarista. O filho montou-se. O selim baixo, como em rapaz. Deu umas voltas à volta da floreira, travou. Parou logo. — Está boa — disse, descendo. O pai pegou, empurrou devagar, só para sentir. Parou, pousou o pé. — Está. Valeu a pena. O filho olhou-o, e percebeu: não falava da bicicleta. Falava de o ter chamado. — Fica com as ferramentas — disse o pai de repente. — Estas que usámos. — Um aceno para a caixa. — Chegam-me as que tenho. Dão-te mais jeito. Tu gostas de fazer tudo sozinho. O filho ia recusar, mas percebeu: era assim que o pai dizia “gosto de ti”. Não em palavras, mas em coisas. — Fico. Mas a chave treze não empresto. Essa é a tua rainha. O pai sorriu. — Essa fica sempre no mesmo sítio. Subiram de novo. No hall, o filho vestiu o casaco. O pai junto, sem pressas. — Passas cá para a semana? — lançou, casual. — A porta do sótão chia. Era capaz de pôr óleo mas… as mãos já não estão para isso. Falou sem desculpas. O filho ouviu o convite. — Passo. Liga antes para não ser a correr. O pai assentiu e, já a fechar a porta, murmurou: — Obrigado por teres vindo. O filho desceu as escadas com algumas chaves e uma ou duas chaves de fenda do pai guardadas num pano. Pesavam bem, mas não custavam. Na rua, espreitou as janelas do terceiro andar. O cortinado mexeu-se, como se o pai olhasse. O filho não acenou. Foi-se embora, sabendo que agora podia voltar não só “por obrigação”, mas por aquela tarefa que finalmente ambos tinham aprendido a aceitar como importante.
Seguindo o conselho da mãe, o marido levou a esposa, enlouquecida pela doença, para um interior desolado… Um ano depois, ele voltou – em busca da fortuna da mulher.